
Enquanto o Brasil discute o cruzamento entre o Supremo e o bolso do eleitor, o cenário internacional desta sexta-feira, 18 de setembro de 2026, mostra outra interseção: poder concentrado, eleitor sem alternativa real e o risco de uma guerra em escala maior. Quatro frentes se destacam.
Rússia: eleição parlamentar sem oposição real
Começou nesta sexta a votação de três dias (18 a 20) para renovar as 450 cadeiras da Duma Estatal, a primeira eleição parlamentar desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Vladimir Putin apresentou o pleito como termômetro de apoio à guerra.
O partido Rússia Unida parte com vitória praticamente assegurada. O único partido registrado que defendia cessar-fogo, o liberal Yabloko, foi excluído da lista nacional pela Suprema Corte russa em agosto. Restam no boletim apenas forças que, na prática, referendam o Kremlin e a continuidade do conflito. A votação também ocorre em territórios ucranianos ocupados — o que Kiev e vários governos ocidentais consideram ilegal.
Há receio de nova mobilização após o resultado. O Kremlin precisa de uma maioria confortável para sustentar o esforço de guerra, já no quinto ano, com custos econômicos crescentes e ataques de drones ucranianos atingindo o interior da Rússia.
Chamar isso de eleição é um eufemismo. Sem oposição anti-guerra na urna, o voto vira ritual de legitimação. Quem precisa medir “apoio popular” depois de excluir a única alternativa pacifista já revelou o diagnóstico: o regime não confia no eleitor — e usa o eleitor para encenar confiança.
Tensões EUA–Irã: o petróleo e a decisão de Trump
O conflito no entorno do Estreito de Ormuz segue em “escalada controlada”. Trump afirmou que pondera retomar ataques em grande escala contra o Irã (“Comigo, tudo pode acontecer”) e deve se reunir na terça-feira, à margem da Assembleia Geral da ONU, com aliados do Golfo. Fontes em Washington cogitam adiar uma ofensiva maior para depois das eleições intercalares americanas de 3 de novembro.
O petróleo já reagiu nas últimas semanas a ataques mútuos a navios e a bloqueios. Qualquer reabertura plena das hostilidades empurra o barril e, com ele, inflação e frete no mundo inteiro — inclusive no bolso brasileiro.
Uma missão da ONU afirmou haver “motivos razoáveis” para crer que os EUA cometeram crimes de guerra em ataques que atingiram civis no Irã; o relatório também denuncia violações graves do próprio regime iraniano contra sua população.
Não há lado inocente nessa conta. Teerã usa milícias, mísseis e o estreito como arma; Washington responde com força e bloqueio. O eleitor comum — americano, iraniano ou brasileiro — paga o preço no combustível e nos alimentos. Guerra “controlada” é oxímoro: o controle dura até o primeiro erro de cálculo.
Nepal: um ano depois da Geração Z
Em setembro de 2025, protestos liderados por jovens derrubaram o primeiro-ministro comunista K.P. Sharma Oli em questão de dias. O estopim foi o bloqueio de 26 redes sociais; o combustível era corrupção, nepotismo e falta de perspectiva. Houve dezenas de mortos, incêndio de prédios públicos (incluindo Parlamento e Suprema Corte) e, em seguida, governo interino e eleições.
Um ano depois, o Nepal debate o que restou da revolta: mudança de elenco, novas lideranças jovens (como Balendra Shah) e a pergunta persistente se as demandas de governança e fim da impunidade foram cumpridas ou apenas recicladas. O episódio voltou ao debate brasileiro nesta semana, em paralelo a discussões sobre Judiciário, impunidade e redes.
A lição do Nepal não é romance revolucionário. É aviso. Quando o Estado tapa a boca digital e protege uma casta, a rua vira atalho. Também é aviso inverso: derrubar o governo é mais fácil do que construir instituição. Quem celebra só a queda e ignora o dia seguinte repete o ciclo.
ONU: guerra em grande escala no topo dos temores
O Relatório de Riscos Globais 2026 da ONU, divulgado em 15 de setembro, ouviu cerca de 1.300 especialistas de 155 países. A possibilidade de guerra em larga escala subiu 16 posições em dois anos — a maior alta entre 28 riscos. Para 36% dos entrevistados, um conflito desse porte pode atingir parcela significativa da humanidade em até um ano; 76% veem esse cenário em até sete anos.
Foi o único risco a aparecer no topo em importância, iminência, interconexão com outras ameaças e falta de preparo institucional. Tensões geopolíticas e enfraquecimento do Estado de Direito passaram ao centro; clima e pandemias recuaram na percepção, sem ter desaparecido. O secretário-geral António Guterres falou em mundo dividido e Conselho de Segurança paralisado.
O relatório não prevê o futuro; registra o medo de quem observa o sistema. Esse medo tem endereço: Ucrânia sem fim à vista, Golfo inflamável, instituições multilaterais sem dentes. Tratar “guerra grande” como risco abstrato é luxo de quem ainda não sentiu o preço no supermercado.