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HERÓIS & SUPER-HERÓIS...

"Memórias & Retalhos dum Eco Inteligente e Não Replicante"

05/07/2024 às 17h19 Atualizada em 06/07/2024 às 08h04
Por: Marco Paulo Silva Fonte: Opinião
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HERÓIS & SUPER-HERÓIS...

Somos todos – sim, nós, os comuns mortais e “figuras privadas” – bravos e façanhosos sobreviventes de jornadas das quais a esmagadora maioria das pessoas não imagina ou faz a mínima ideia...

Uns bem mais do que outros, é certo... e é justo reconhecê-lo.

Todo o ato heróico é socialmente apreciado porque, quando utilitário, torna-se a expressão máxima do altruísmo, da bondade e da nobreza mais magnânima.

A sociedade aprecia-o deveras. Necessita, até, “como pão para a boca”, do idolatrar pelas mais variadíssimas razões – a inspiração gerada será a maior delas –, embora o protagonista da vez, mesmo passando incólume à tormenta travada, sempre venha a sofrer as consequências, dum jeito ou de outro, com a decisão e ação tomada – o preço a pagar...

Heroísmo, lato senso, é superar uma situação pessoal de extrema adversidade ou de grau de dificuldade, extraordinariamente, elevada. É levar a cabo e realizar determinado lance ao alcance de poucos seja ele de cariz físico, de destreza motora ou do foro intelectual. É vergar a crueldade e a injustiça dum agressor, aparentemente, mais forte, seja essa ofensa/agressão dirigida a si ou a outrem. Aparente, aqui, porque se o injusto e / ou cruel agressor, elemento ou circunstância for, realmente, insuperável, o herói deixará de sê-lo, terá que evitar a defrontação/contenda ou aguardar pela melhor oportunidade e forma do fazer.

Ser-se herói implica, portanto, ter a posse dum querer, dum talento, duma inteligência, tirocínio, agudeza, intrepidez, obstinação, sentido de oportunidade e a possibilidade de auferir um lucro social e/ou economicamente útil – o risco é expressivo, mas a dupla recompensa também o será… E ela é viciante... E será ela a razão primeva, em grande parte, que move, motiva e leva ao ato.

Mas há heróis e heróis, e há os Super-Heróis. Estes últimos, raros, surgindo a espaços e de tempos em tempos para privilégio de quem com eles privou, teve contato ou pôde, mesmo que de forma o mais distante ou indireta possível, desfrutar de sua mestria, influência, carisma e influxo; Ou, em sentido inverso, para infortúnio dos que se viram desprovidos de tal condão e fascinação, ou que não tiveram tal oportunidade.

Há, no entanto, e para mal dos pecados do hiperbólico paladino (e dos nossos), uma sempre imerecida, incompreensível, inaceitável e excruciante maldição – uma constante – atrelada e proporcional a tamanho super-heroísmo. Depois de toda uma árdua e hercúlea epopeia, o destino do campeão, dificilmente, se revela aprazível ou alvissareiro. Se nos atentarmos à ficção – que sempre antecipa o real e o projeta –, o super-herói é sempre aquela personalidade solitária, sem família constituída (ou quase nenhuma), sisuda, angustiada e que parece carregar todo um mundo às costas – um Atlas!

Sempre marcado por relacionamentos fugazes ou instáveis. Com poucos (ou nenhum até) confidentes, mas, e como se já não bastasse todo o fardo, arrastando uma turba de oportunistas, “pistoleiras” e / ou detratores.

A maioria – quando publicamente conhecido –, ao acompanhar sua odisseia, até torce apaixonadamente por ele, mas não deseja, de todo, seguir seus passos, juntar-se-lhe, embarcar na sua aventura ou tomar, de todo, suas dores.

Desenha-se, assim, todo um dramático fado – um pathos – quando, ainda que aplaudido, ovacionado ou louvado ao longo e no final duma exitosa empreitada, se vê em plena consciência (e pungência) desacompanhado em face de tamanha responsabilidade, entregue a si próprio, com aquele tipo de sentimento de que qualquer recompensa pelo seu estoicismo, quando enaltecida, se revelará, num ápice, e sempre, evanescente; que rapidamente cairá no esquecimento e lhe será exigido mais e mais, e que não importará quantas vezes possa fazer o impossível quando, por uma qualquer fatalidade (ou por ser, simplesmente, humano) vem a falhar, errar ou a claudicar... E, o pior de tudo, quando, mesmo que por um átimo, se vê a tombar em combate e ali tudo acaba…

Faço, pois, aqui, um vincado, pungente e sentido réquiem (extra mãe e pai idílicos que não entram nesta equação) aos meus dois super-heróis...

Tive, até hoje, vários heróis & heroínas, mas Super somente dois!

Os hiper ditos cujos nada têm que ver um com o outro no que às suas superlativas qualidades e valências concerne. De feitos e protagonismos, portanto, totalmente díspares, mas ambos propulsores dos dois maiores, mais inefáveis e transformativos saltos que já pude experienciar neste quase meio século de vida terrena.

Os dois nunca souberam da minha existência, embora eu os tenha visto incontáveis vezes, através de um ecrã, tela ou monitor e, um deles, fugaz e balisticamente, ao vivo e a cores, por um buraco na vedação, num altaneiro ponto de baixo-relevo, que dava acesso e vislumbre a uma das curvas do autódromo do Estoril…

Falo-vos de Ayrton Senna e de Olavo de Carvalho.

O primeiro dispensa apresentações por ser mundialmente afamado e consagrado; O segundo, nas antípodas, mais do que ignoto para quem não é brasileiro, foi e é inexoravelmente ostracizado por seus ímpios governantes, autoridades, pares e concidadãos...

Individualizemos em apartado.

O super-heroísmo de Senna não ecoou ou repercutiu em mim, somente, pelo que ele fez nas pistas, mas, sobretudo, pela postura fora delas. Pilotos virtuosos e desportistas extraordinários, em geral, sempre os houve e sempre os haverá. Mas de tal carisma, humana e humilde empatia, e tão admiravelmente cativante terá existido outro?

Façam essa pergunta a vós próprios e vejam se encontram paralelo?...

Agora imaginem um adolescente de 16 anos totalmente à deriva, quer hormonal (como qualquer outro), quer psico-afetivamente (pois que, paulatina e lancinantemente, realizava que o pai-herói – o mais nuclear dos espelhos, imagos e figuras para um filho homem – era, na verdade, a mais real antítese disso mesmo...), flanqueado pela falta de auto crença, e da que provinha das pessoas em volta (excetuando a mãezinha – só e sempre ela...), com resultados escolares pífios, sem saber ainda o que poderia vir a ser e no que singrar, profissionalmente falando, e (o mais inquietante ainda) sem qualquer vislumbre projetivo acerca, pejado de angústias existenciais e dum sem número de questões sem resposta em face dum mundo que se mostrava a ele cada vez mais estranho; em crise, também, por, num ápice, toda uma realidade que existia, não que tivesse mudado, simplesmente, capotara (aquela penca de amigos(as) que vivia num bairro da região periférica da capital, que sempre haviam estado juntos durante a infância, crescera; cada um por si passou a se ver obrigado a fazer-se à vida e, “da noite pró dia”, fora cada um para seu lado)...

Imaginem, então, esse adolescente quando, certa vez, e nas idiossincráticas e penosas circunstâncias narradas, viu um de seus já maiores ídolos pelas absurdidades que ia aprontando, a cada 15 dias, num carro de F1 , no meio duma entrevista pessoal, olhar diretamente para a câmera – para mim! Sim! Foi o que literal, e vividamente, senti naquele ditoso e transformador momento: como se o Senna tivesse a falar em privado, só e especialmente para mim –, pronunciando aquele discurso motivacional, de cerca de dois perenes minutos, tão genuíno, tão tangível e tão natural em torno “de como vencer na vida não como piloto, mas como pessoa”…

Nossa! Como tudo aquilo foi impactante…

Como tudo aquilo foi inédito vindo duma estrelar personalidade

E o eco interior dizendo-me: “Meu, ele falou para ti! Ele sabe das tuas dores, estranhamentos, angústias e medos, e ele falou tudo aquilo para ti, qual mensageiro divino que parece saber o quão estás perdido, desorientado e o tanto que andas a sofrer”…

Foi a virada de chave… E que virada...

Dali em diante iniciei toda uma trajetória que ressoa naquilo que me tornei, no que sou hoje, no que constitui, no que gerei, em tudo o que conquistei e que, resgatando o fraseado com que iniciei o presente artigo, se tem consubstanciado nas mais variadas “bravas e façanhosas jornadas das quais a esmagadora maioria das pessoas não imagina ou faz a mínima ideia”.

Imaginem, por último, o que foi para mim (e sempre será – jamais o aceitarei ou me confortarei) aquele maldito e fatídico dia 01-05-1994…

                                                                                   ***

Dos meus 16, para os meus 38.

Eis que, passados 22 anos, corria o ano de 2013, e já radicado neste País, voltaria a desfrutar de tal sortilégio e graça. De voltar a testemunhar e “estar na companhia” dum outro paradigma e qualidade de Super-Herói. Desta feita, um Super-Mestre na arte de filosofar, das lides intelectuais e do saber como um todo, e cuja sapiência e lucidez fez completar em mim um majestoso puzzle – todo ele clarividência sobre tudo o que diga respeito ao enredo humano e civilizacional – puzzle, esse, no qual eu só possuía as peças, peças, essas, quase todas soltas e desagregadas (o estágio em que se encontra uma pequena parte da falange, sendo que a outra parte - a mais expressiva - nem sequer peças possui...), quais espartilhadas questões sem resposta ou de explicação nada convincente, de informações contraditórias, ardilosas narrativas, todo o tipo de encenações, planejadas tragédias com danos colaterais mil e embusteiros construtos nas mais diversas áreas do saber e vãs filosofias.

O pensador brasileiro em apreço, recentemente falecido, não foi, somente, detentor de uma inabarcável erudição.

Foi, quiçá, o maior pensador contemporâneo e um dos maiores de todos os tempos.

Uma sumidade!

Uma obra cujo conjunto e tônica passou, passa e passará (tal o tamanho dela) pela intransigente defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, num vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual.

Ter contato com tal magnitude intelectual, caríssimos, foi como passar a andar sentado nos ombros de um gigante com um estetoscópio cognitivo de largo espectro capaz de fazer a lúcida leitura de todas as cadências, ritmos e sons que orquestram e plasmam toda e qualquer componente da humana sociedade.

Sem o contato com sua obra, seus ensinamentos e deslinde jamais o meu despretensioso e autoral acervo literário teria existido.

E o mais espantoso – e falo-o com propriedade e conhecimento de causa, pois que em todo o meu percurso escolar em Portugal, a partir do colegial, e, sobretudo, universitário, ancorado na escolástica filosófica, em momento algum, ouvi falar, foi citado ou tomei conhecimento de sua existência e obra –, o mais espantoso, dizia-vos, é que Olavo de Carvalho só é conhecido no Brasil e talvez nalguns círculos da Roménia e EUA, países onde trabalhou e residiu, respectivamente.

Sabem por quê?

Porque foi (e continua a ser), em seu país natal, o intelectual mais atacado, ostracizado, ridicularizado, e aquele cuja reputação foi (e é), hediondamente, a mais assassinada.

Por quê²?

Porque pôs a nu todo um status quo, todo um regime e um establishment mundial, seja no espectro da fétida podridão político-ideológica, seja na idiotização e emburrecimento massivo do ambiente cultural em geral, expondo as verdades mais elementares e nos ofertando, mastigado e digerido, o pleno entendimento acerca das tramas em que tais pantanosas realidades se fundam e assentam – no Brasil ou em qualquer outra sociedade que se preze. As metástases repercutem aqui, mas a matriz cancerígena, sua causa e origem vocês (os poucos, mas bons que me acompanham) já estarão em condições de saber donde vem – não é verdade?...

E assim se vai descartando e banindo um patrimônio mundial da cultural inestimável, incomensurável e incatalogável para que nada, rigorosamente nada mude e nada possa ser alterado...

Que fique aqui registrada in memoriam minha singela ode a estas duas Super-Criaturas.

Duas magníficas e homéricas trajetórias, mas ambas, cada uma à sua maneira, de inevitável, trágica e sofrida sina – o tal do preço a pagar...

Meus eternos Super-Heróis...

                                                                                                                                                                                                                                               Eco

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Monica SilvaHá 2 semanas Lisboa PortugalParabéns filho meu, pela coragem, pela humildade de dares para o mundo, sobre essa tua travessia no deserto, parabéns também por enaltecer publicamente essas duas pessoas que tanto bem te fizeram, esses teus Super Heróis, como muito bem os aplidastes. Muito agradeço também eu, pelo colo que te deram, em todos os momentos em que o meu não chegou. BEM HAJAM...BEM HAJAS.????????????♥️
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Marco Paulo Silva
Marco Paulo Silva
Sobre Nascido, em 1975, e criado em Terras lusitanas, formei-me, academicamente, em Psicologia Clínica. Na busca pelo binômio - independência financeira / vocação -, há mais de duas décadas que dedico minha vida profissional à investigação criminal e segurança pública. A partir de 2020 enveredei numa saga literária cujas façanhas já deram azo a três diamantinas obras: COSMION, POMPA & CIRCUNSTÂNCIA e DZÁIT-GÁIST... O futuro a Deus pertence... Hoje, vivo em São Paulo, Brasil.
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