
O governo Lula entrou numa zona desconfortável da política externa.
De um lado, os Estados Unidos endurecem. Propuseram tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e elevaram o patamar do conflito ao classificar PCC e CV como organizações terroristas. (Reuters)
Do outro, o governo corre para aprofundar a relação com a China. A equipe econômica prepara o anúncio da primeira emissão soberana brasileira de títulos em yuan, os chamados panda bonds, durante visita oficial a Xangai e Pequim no fim de junho. (Reuters)
Cada movimento, isoladamente, pode parecer apenas pragmatismo, mas juntos, eles contam a história recente do Brasil.
Contam a história de um governo que perdeu margem e agora tenta se reposicionar entre duas pressões externas sem conseguir sustentar uma linha clara de força.
A reação aos Estados Unidos foi defensiva. Lula decidiu ir ao G7 na França e deve encontrar Donald Trump pela primeira vez desde o anúncio das novas tarifas. No discurso, disse que pretende cobrar reformas nas instituições internacionais e voltou a culpar a família Bolsonaro pelo atrito com Washington. (UOL Notícias)
Os EUA elevaram a pressão sobre o Brasil com a proposta tarifária e a nova postura em relação ao crime organizado. O endurecimento foi concreto. No caso das facções, o efeito esperado é aumento de custos de operação, due diligence mais pesada e maior risco percebido para empresas que atuem em setores já penetrados pelo crime, como distribuição de combustíveis, imóveis e finanças. (Reuters)
Isso atinge a economia e a imagem do governo.
Um país pressionado ao mesmo tempo por tarifa comercial e por classificação internacional de suas maiores facções como ameaça terrorista mostra que perdeu a capacidade de controle em áreas sensíveis e agora precisa administrar a consequência externa disso.
É aí que entra a China.
Tecnicamente falando, a emissão de panda bonds é defendida como diversificação de fontes de financiamento e redução de dependência do dólar. Reuters informa que o movimento faz parte de uma estratégia de ampliar a presença brasileira em mercados internacionais de dívida e atrair capital chinês para projetos ligados a sustentabilidade e investimento produtivo. (Reuters)
Mas política externa também se lê pelo contexto. E o contexto é de atrito com Washington.
Por isso, o anúncio da aproximação financeira com a China passa a imagem de compensação. O governo tenta mostrar que tem alternativa. O problema é que, quando a alternativa aparece sempre como reação a uma perda de espaço anterior, ela deixa de parecer escolha soberana e passa a parecer dependência reorganizada.
O Brasil está se movendo a partir de pressão.
Quando os Estados Unidos endurecem, o governo CORRE para Pequim. Quando o custo internacional sobe, o Planalto CORRE para dizer que é por mais diversificação financeira. Quando a margem encolhe, a diplomacia CORRE para vender flexibilidade.
A questão mais incômoda é por que ele precisa CORRER tanto.
A fragilidade da posição brasileira hoje é, antes de tudo, geopolítica.
Lula quer se apresentar como líder experiente, capaz de dialogar com todos. Só que o cenário externo não tem tolerado ambiguidade. O mundo está exigindo posicionamento claro, previsibilidade e capacidade real de sustentar compromissos.
A pressão americana expõe vulnerabilidade. A aproximação com a China revela necessidade. O encontro com Trump no G7 tende a mostrar até onde vai a capacidade de negociação de um governo que já chega pressionado, com a imagem desgastada. (UOL Notícias)
O governo Lula tenta ocupar uma posição de autonomia entre polos. Mas o que se vê até agora é um governo tentando evitar isolamento, tentando amortecer um dano econômico que ele próprio produziu e tentando encontrar apoio externo enquanto o ambiente se torna mais hostil.
A fragilidade da posição brasileira está no fato de que o país parece reagir mais do que conduzir.
O problema é que emitir dívida em yuan, participar do G7 ou contestar tarifas americanas, desenha a imagem de um governo que já não escolhe o tabuleiro em que joga.
É o começo do fim deste governo.