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Educação e Cultura QUADRO NEGRO

VELHARIAS PEDAGÓGICAS

Loucuras pedagógicas

02/07/2024 às 10h21
Por: Thaís Scalco Corazza
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Ingressei no Ensino Estadual como professora de Português dos sétimos e oitavos anos em 1980. Época em que o Ensino Fundamental promovia uma base sólida de conhecimento para os alunos que liam com fluência, escreviam com ortografia minimamente correta. Era permitido exigir a feitura dos temas de casa, e os trabalhos deveriam apresentar qualidade aceitável para a faixa etária do aluno. Os conteúdos, hoje demonizados, assim como a alfabetização, avançavam pelo critério do mais simples para o mais complexo. Sem precisar falar em “educação crítica” ou “libertadora da opressão social”, o ensino vigente conduzia à autonomia intelectual e fornecia as bases para a independência do raciocínio.

Aos poucos, porém, a preocupação com a excelência acadêmica passou a ser uma excrescência já que privilegiava uma “elite” de quem eu não tinha ideia de quem era, já que viva sobriamente e trabalhava num universo hoje conhecido como classe média baixa.  Imersa no processo, vi a sala de aula, pouco a pouco, transformar-se em clínica psicológica, e jovens, que antes saiam emancipados da escola, regredirem a um processo de infantilização sem precedentes.

Nessa época, nunca ouvira falar em Gramsci, Escola de Frankfurt, Revolução Cultural. Observava os fatos acontecendo sem conseguir entendê-los; sequer nominá-los. Mas a intuição de catástrofe confirmava-se a cada avanço do que hoje conhecemos como a agenda emburrecedora: a adesão ao socioconstrutivismo, a rejeição feroz a qualquer ensino sistematizado. Toda aprendizagem se daria “por geração espontânea ou por osmose”. Lembro que professores, que conseguiam alto índice de alfabetização ainda na primeira série, preferiram aposentar-se a submeter-se a “esse novo paradigma pedagógico”. Certos estavam a se recusarem a compactuar com a maior tragédia nacional.

No final dos anos 80, com a chegada de Tarso Genro ao governo do Rio Grande do Sul, a agenda seguiu sem freios. Conteúdos programáticos dão lugar a temas transversais; indivíduos incultos e ignorantes passam a opinar sobre qualquer assunto por meio de um discurso tosco, sem vocabulário, sem definições precisas. Trocou-se a interpretação de textos literários por uma apreciação meramente afetiva de quadrinhos: gostei/não gostei. Sob o manto da desmetodização do ensino, abandonaram-se textos, poemas, livros que foram o sustentáculo intelectual de diversas gerações.

Aulas eram suspensas para os tediosos “dias de deformação”. A preocupação com os saberes universais deu lugar ao revisionismo histórico e a toda espécie de “ismos”: ambientalismo, feminismo, transgenderismo e qualquer coisa que caiba nesta agenda. E, como o aluno passa a ser o grande protagonista do processo de “transformação social”, e o ensino explícito, direcionado é condenado, o professor perdeu seu papel: deixou de ser aquele que ensina para ser apenas o que medeia o processo. E hoje é apenas para isso que ele é pago. O mané perdeu e ainda não aprendeu. E agora segue implorando para ser reconhecido por uma profissão que não existe mais, pois ele mesmo dela abriu mão. Em certo encontro dessa natureza, um coordenador pedagógico de uma famosa escola carioca por aqui aportou, dizendo que a alfabetização poderia ocorrer até o ultimo ano do ensino fundamental. Ou seja: não seria mais necessário alfabetizar as crianças na primeira série. Como não tolerei tamanho flagelo contra as crianças, abandonei o espaço. Esta ousadia nunca foi perdoada. Paguei o preço até o último dia. Não me arrependo. Não dá para ser cúmplice desses que estão mutilando nossas crianças.

Por aqui me aventuro a opinar sobre esse tema que sempre me foi tão caro e pelo qual até hoje labuto. Condenados de antemão por defendermos velharias e por não estarmos à altura de processos pedagógicos tão “inovadores”, nós, professores antigos, fomos e somos testemunhas da degradação que atingiu todos os níveis educacionais do país. Não me calaram ontem e não vão me calar agora. E este espaço será mais uma oportunidade para abordar sobre este tema tão negligenciado pelos responsáveis pelas políticas públicas do Brasil

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Thaís Scalco Corazza
Thaís Scalco Corazza
Sobre Professora de Português, Especialista em Literatura infantojuvenil. Fundadora do Movimento Conservador de Tapera. Estudiosa da agenda 2030 e dominadores globais.
São Paulo, SP Atualizado às 08h16 - Fonte: ClimaTempo
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