Uma ótima definição dos anseios de Michel Foucault está muito bem delimitada no livro Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda, de Roger Scruton. Ali, o autor demonstra os interesses por trás do ocultismo contido na obra do filósofo. Ao contrário da esquiva que muitos foucaultianos empreendem em relação ao marxismo, tentando se distinguir, Scruton revela que a “filosofia da diferença” (Foucault, Deleuze, Derrida e outros) não passa de uma variação do marxismo. De maneira simples, incisiva e pontual, Roger Scruton demonstra que não há diferença no produto final quanto aos intentos do marxismo.
Mesmo que sofra variações ao longo do tempo, o objetivo da extrema-esquerda marxista é a posse do poder por meio das instituições, e por dentro delas manipular a sociedade do modo que lhes convém. O método é sempre o mesmo: acusatório em relação às estruturas no que diz respeito a um suposto modelo de vida de semiescravidão operado por empresários e chancelado pelo Estado, que deve ser regulado pelos socialistas/comunistas a fim de equilibrar o contrato social.
Scruton resume com precisão a visão foucaultiana: “Para Foucault, cada episteme serviu a algum poder em ascensão e teve como principal função a criação de uma ‘verdade’ que servisse aos seus interesses. Daí não haver verdades recebidas que não sejam também verdades convenientes. A teoria da episteme é uma reprise da teoria da ideologia marxista. Ela se oferece para categorizar cada forma de pensamento e cada sistema de conceitos, imagens e narrativas em termos de sua função de incorporar e manter a estrutura de poder que cada ordem social depende.
O poder em questão não é necessariamente o de classe governante, embora aqueles no topo sejam seus inevitáveis beneficiários. O poder é o que mantém as coisas unidas, definindo posições dominantes, subordinadas e, de modo geral, mantendo as hierarquias que distribuem privilégios de maneira desigual através do espectro social” (SCRUTON, 2018, p. 144).
Seguindo a linha foucaultiana de “sujeição de saberes”, Gilles Deleuze (junto com Félix Guattari) oferece à esquerda identitária a ferramenta perfeita: os personagens conceituais. Esses são figuras inventadas que preenchem lacunas históricas com narrativas convenientes, transformando a história em ficção política. A esquerda usa isso para oficializar agendas étnico-raciais — exemplo clássico é a reinterpretação de Zumbi dos Palmares como ícone “antiocidental” absoluto, ignorando contextos reais.
Na sociedade atual, isso alimenta a esquerda identitária: o passado vira dívida eterna, o presente vira palco de reparação seletiva. Fatos concretos? Detalhes. O que importa é o “personagem” que justifica o poder institucional de hoje.
A Revolução Iraniana de 1979 representa o caso mais emblemático e trágico dessa matriz filosófica em ação. Foucault não foi apenas um observador distante: ele viajou ao Irã em 1978, escreveu mais de uma dúzia de artigos e reportagens entusiasmados, celebrando a revolta como uma forma superior de “espiritualidade política”. Para ele, os milhões de iranianos que arriscavam a vida nas ruas contra o xá Muhammad Reza Pahlavi encarnavam uma experiência-limite criativa, uma resistência ao racionalismo iluminista ocidental e às tecnologias disciplinares da modernidade.
Foucault via no Irã a possibilidade de uma nova ordem política nascida da piedade individual e da rejeição ao materialismo ocidental — ignorando ou minimizando os sinais de que a revolução seria capturada pelo clericalismo xiita radical de Ruhollah Khomeini. Deleuze complementou essa visão com seu arcabouço conceitual: a filosofia da diferença, do rizoma (redes nômades e anti-hierárquicas) e das multiplicidades serviu como ponte intelectual para intelectuais iranianos misturarem pós-estruturalismo francês com xiismo revolucionário.
Enquanto Foucault romantizava a “espiritualidade política”, Deleuze fornecia as ferramentas para rejeitar o “Ocidente linear” e abraçar o caos criativo da revolta como força libertadora rizomática. No entanto, o pilar filosófico mais profundo e direto da Revolução Iraniana foi Martin Heidegger. Seu conceito de Geschichtlichkeit (historicidade autêntica) e a crítica feroz à modernidade tecnológica — o “esquecimento do Ser” diante da máquina e da técnica — foram reinterpretados por pensadores iranianos como Ahmad Fardid (conhecido como “o Heidegger iraniano”) e Ali Shariati. Fardid popularizou o termo gharbzadegi (“intoxicação ocidental” ou “ocidentose”), diagnosticando a modernização imposta pelo xá como uma doença que afastava o Irã de sua essência islâmica autêntica.
Shariati, por sua vez, fundiu Heidegger com o shiismo, reinterpretando o “Ser-para-a-morte” como martírio revolucionário e chamando à integração da tradição autêntica contra a modernidade vazia. Heidegger — que flertou com o nazismo em nome da “autenticidade alemã” — forneceu o verniz filosófico perfeito: o xá era o fantoche do Ocidente materialista; Khomeini representava o retorno à essência islâmica autêntica contra o “esquecimento do Ser”.
O que começou como revolta popular contra a ditadura do xá e sua SAVAK (polícia secreta conhecida por tortura e vigilância) transformou-se rapidamente em teocracia totalitária. Promessas de liberdade deram lugar a execuções sumárias, opressão brutal de mulheres (obrigatoriedade do hijab, lapidação), perseguição a homossexuais, minorias religiosas e dissidentes políticos.
O regime que Foucault e seus pares romantizaram como “espiritualidade política” tornou-se um dos maiores violadores de direitos humanos do planeta. Essa tríade Heidegger-Deleuze-Foucault criou o DNA da esquerda identitária contemporânea. Heidegger oferece a crítica ontológica ao Ocidente “inautêntico”; Deleuze, a ferramenta prática de diferença, rizoma e multiplicidades; Foucault, o método para descrever o poder como difuso e resistível por dentro das instituições.
Juntos: A “diferença” (Deleuze) vira bandeira de toda minoria como “oprimida pelo Ocidente branco-heterossexual-masculino”.
A “autenticidade” (Heidegger) justifica alianças táticas com regimes islâmicos ou autoritários que “resistem” ao universalismo ocidental.
Na sociedade atual, isso gera o caos: o cancelamento como forma de “docilização reversa”, identidades fragmentadas como moeda política, e apoio seletivo a causas que contradizem os próprios direitos humanos defendidos em discurso (Irã, Hamas, alianças woke-islâmicas).
No Irã de 1979, essa matriz ajudou a transformar uma revolta em ditadura teocrática. No Ocidente de 2026, manifesta-se como cultura do cancelamento obrigatório, fronteiras abertas de forma seletiva, silêncio cúmplice sobre formas reais de escravidão e opressão (incluindo a árabe-muçulmana histórica e contemporânea), e a transformação da “diferença” em instrumento de dominação. O resultado prático dessa dupla filosófica (Heidegger + Deleuze, mediada por Foucault) é uma esquerda identitária que acusa o Ocidente de todos os males enquanto romantiza regimes que praticam exatamente o que condena — opressão sistemática a mulheres, gays e minorias. Heidegger e Deleuze forneceram o “pedigree intelectual” para ignorar fatos e priorizar narrativas. Conclusão: A Matriz Foucauldiana-Deleuziana no Brasil de 2026 – O Gramsciismo Tropical em Ação
No Brasil de 2026, essa engenharia filosófica não é mera importação europeia: ela é o motor da hegemonia cultural que a esquerda gramsciana implantou desde os anos 1970 nas universidades, na mídia, no Judiciário e nas políticas públicas. O que Foucault chamou de “sujeição de saberes” e “disciplinaridade” ganha aqui contornos tropicais e coloridos de “solidariedade” e “reparação”. As instituições – exatamente como ele descreveu em Vigiar e Punir – tornaram-se panópticos invertidos: não mais o Estado conservador vigiando o corpo, mas o Estado progressista vigiando o discurso, a memória e a identidade. As cotas raciais ampliadas e sancionadas pelo governo Lula, as ações afirmativas defendidas em atos com 20 mil pessoas no Sambódromo do Anhembi e a consagração judicial do “racismo estrutural” pelo STF não são apenas políticas sociais. São a materialização perfeita da “docilização” foucaultiana: corpos e mentes são moldados não por castigos corporais, mas por códigos de sobrevivência simbólica.
Diga a palavra errada sobre gênero na escola, questione a narrativa oficial sobre Zumbi dos Palmares ou sobre a “dívida colonial” e você será cancelado, deslegitimado ou rotulado como “reacionário”. O “personagem conceitual” deleuziano faz o resto: transforma a história brasileira em ficção política, ignora nossa miscigenação singular, nossa formação cristã e nossa capacidade de síntese cultural para criar uma eterna vítima coletiva que justifica o controle institucional.