Sexta, 15 de Maio de 2026
15°C 20°C
São Paulo, SP
Publicidade

A grama que se vê de longe pode ser verde

Mas será que é real?

Sérgio Júnior
Por: Sérgio Júnior
31/03/2026 às 00h16
A grama que se vê de longe pode ser verde

A grama que se vê de longe pode ser verde, mas pode não ser real.

Por Sergio Junior

 

No debate público brasileiro, tudo deve ser analisado friamente. Não que as emoções prejudiquem a compreensão, mas é que essa emoção pode ser fabricada numa máquina bem superior aos programas "lata velha", "vai dar namoro", dentre outros. 

 

Ou seja, aquele garoto chorando ao reencontrar sua mãe, a senhora emocionada com a reforma da sua casa, o resultado do "reality show", ou do prêmio de melhor restaurante ou ator, e infinitas outras cenas na TV, podem te fazer chorar quando você descobrir a verdade. 

 

Na prática, um grupo de empresários, políticos, milionários, podem construir uma ideia como popular usando a mídia e, hoje, num mundo cada vez mais mediado por plataformas digitais, a aparência de consenso se tornou um ativo político. 

Você talvez já me leu falando da janela de Overton ou sobre psyops. Não! O assunto aqui é outro. 

 

O método se chama astroturfing. Uma simulação de apoio popular orgânico (grassroots), com uso de ações coordenadas, envolvendo canais de TV, automação, impulsionamento pago e redes de perfis atuando de forma sincronizada. O termo “AstroTurf” vem duma grande marca de grama sintética, para definir algo inflado ou irreal no debate público. 

 

No Brasil, um país de temperamento tropical mesclado com colérico, os exageros e as quebras de regras morais e culturais, não apenas existe essa prática, ela reina.

 

Já em 2012, um episódio emblemático expôs o potencial desse tipo de operação. A hashtag #VejaBandida dominou o Twitter em poucas horas, aparentando uma reação popular espontânea contra a revista Veja. Análises posteriores indicaram concentração relevante da atividade em um número reduzido de perfis, com indícios de coordenação. A esquerda foi acusada e, a atribuição da engenhoca por detrás daquela campanha de destruição de reputação foi do PT.

Surgia ali um alerta: a opinião pública digital podia ser, ao menos em boa parte, fabricada.

Desde então, o uso de redes coordenadas — mavs, bots, contas anônimas e perfis operando em bloco — passou a integrar o ambiente político brasileiro. Estudos recentes baseados em centenas de milhões de publicações apontam crescimento consistente da atividade automatizada no país, especialmente em períodos eleitorais e momentos de crise, com picos durante a pandemia e nas eleições de 2022 (arXiv).

 

Durante a pandemia de COVID-19, esse mecanismo tornou-se ainda mais visível. O debate público foi marcado por ondas súbitas de conteúdo altamente sincronizado — tanto na defesa quanto no ataque a políticas sanitárias. Plataformas como Twitter, WhatsApp e TikTok mostraram-se particularmente vulneráveis à amplificação artificial, com algoritmos que priorizam engajamento independentemente da autenticidade.

 

Esse ambiente favorece estruturas profissionais de influência. Agências, redes de criadores e estratégias de impulsionamento passaram a operar como intermediários entre campanhas e opinião pública. Nesse contexto, empresas como a Mynd — frequentemente citada em reportagens sobre marketing de influência político — ilustram a profissionalização desse ecossistema, em que alcance e percepção podem ser cuidadosamente calibrados.

 

O ponto aqui não é desprezar a existência dessas estruturas, pois também fazem parte da comunicação hodierna, mas sobre o efeito manada que podem produzir. Fazendo que haja uma grande diluição da distinção entre o que é apoio real e o que é montado, artificialmente fabricado.

 

Funciona assim, primeiro, cria-se volume artificial onde milhares de publicações repetem narrativas semelhantes em curto espaço de tempo. Manchetes com pequenas alterações saem em todos os jornais. Em seguida, os algoritmos identificam aquilo como tendência. Por fim, a mídia tradicional repercute o fenômeno como expressão legítima da opinião pública. Quem assiste, acredita piamente. 

 

Forma-se, assim, um ciclo de retroalimentação em que percepção vira realidade. Um exemplo clássico de astroturfing foi o chamado 08 de Janeiro de 23. Qualquer pessoa comum pode discernir que num domingo, armados com stilingue e algodão doce, não se consegue fazer um Golpe de Estado. Mas, um movimento midiático e político, insistiu por todo esse tempo, em chamar aqueles vândalos e invasores que se juntaram com alguns bucólicos idosos, de golpistas. 

 

Recentemente, decisões jurídicas teratológicas, visivelmente inconstitucionais e ilegais, ou multas milionárias, foram objeto de opressão no Brasil. No entanto, com uma organização digna de análise mais profunda, a comunicação da imprensa nacional e das mídias trouxe tudo como se fosse absolutamente natural e necessário para se combater um mal maior. É óbvio que isso é arquitetado nos bastidores. E o rebanho, só continua a sua marcha em direção ao abatedouro. 

 

Nas eleições de 2022, esse processo atingiu um grau inédito de sofisticação. O ambiente digital foi dominado por narrativas altamente polarizadas e impulsionadas. É amplamente documentado que redes de desinformação e disparos em massa atuaram de forma transversal, afetando gravemente a interpretação popular. Alguns começaram a duvidar até dos próprios olhos. Muitos se questiomaram se estavam corretos. Pois esse tipo de conduta, ao invés de informar, confunde. 

 

Durante a CPMI das Fake News, o depoimento de Hans River, ex-funcionário da Yacows, trouxe alegações de que o PT (Partido dos Trabalhadores) figurava entre os principais clientes da empresa em operações de disparo em massa via WhatsApp (Senado Federal). 

Mais do que identificar um único responsável, o que emerge é um padrão.

Em outras palavras, esses grupos que usam essa metodologia de ilusionismo digital, não mudam o voto diretamente, mas criam o ambiente em que o voto é formado. Alteram a percepção do público. Mentem para obter ganhos eleitorais e financeiros. 

Ora, se o ambiente digital pode ser artificialmente inflado para simular apoio, também pode ser manipulado para gerar rejeição, desmobilização ou sensação de isolamento político. Em eleições altamente equilibradas, como a de 2022, distorções como aquela famosa "pintou um clima" é um exemplo claro de manipulação depercepção podem produzir prejuízos reais para o oponente.

Isso abre espaço para uma possibilidade que ainda carece de investigação mais profunda: até que ponto mecanismos de amplificação artificial — incluindo astroturfing — podem ter contribuído não apenas para impulsionar narrativas favoráveis a um campo político, mas também para enfraquecer adversários, inclusive o então presidente Jair Bolsonaro?

Não se trata de afirmar causalidade direta, mas de reconhecer plausibilidade.

E o método funciona.

Em um ambiente onde engajamento define visibilidade, e visibilidade molda percepção, a linha entre maioria real e maioria percebida torna-se perigosamente tênue.

Hoje, com o avanço da inteligência artificial — capaz de gerar textos, imagens e vídeos indistinguíveis do conteúdo humano —, esse cenário se intensifica. O custo de produzir “realidade sintética” caiu drasticamente. A escala, por sua vez, tornou-se praticamente ilimitada.

O resultado é um novo tipo de disputa política: não apenas por votos, mas pela própria definição do que parece ser a opinião pública.

Diante disso, o ceticismo deixa de ser paranoia e passa a ser prudência.

Quem está por trás de uma tendência?

Quantas dessas vozes são reais?

E quantas são apenas ecos bem pagos e sinteticamente programados?

A grama que se vê pode até ser verde...

Mas, no debate político digital brasileiro, já não basta olhar — é preciso pisar para saber se é de verdade.

— Sérgio Júnior

www.sergiojunior.com 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Sérgio Junior
Sérgio Junior
Sérgio Júnior é um escritor e pensador brasileiro, graduado em artes da teologia, membro n°23 da Academia Internacional de Literatura Brasileira de NY (AILB).
Um romancista ficcional, analista de cenários sociais, poeta e filósofo.
Em 2021 e 2022, disputou os prêmios de destaque literário pela Focus Brasil na AILB, idealizado por Nereide Lima e na premiação "Melhor do Brasil na Europa ", pela revista "High Profile Magazine" na Inglaterra, por causa do sucesso do livro "Eu no seu funeral" lançado pela CRV editora no Paraná.

Recentemente, Sérgio Júnior tem sido notícia em vários portais na internet , por seu livro " O SEGREDO DOS NEGROS VENCEDORES " lançado em 2023.

Site do autor na Amazon.

https://www.amazon.com/stores/Sergio-Junior/author/B0927LMMFY?ref=ap_rdr&store_ref=ap_rdr&isDramIntegrated=true&shoppingPortalEnabled=true

Envie uma mensagem para Sergio Junior no WhatsApp. https://wa.me/message/QYDPF3DM3CTXA1
Ver notícias
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,07 +0,00%
Euro
R$ 5,89 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 424,775,13 -0,05%
Ibovespa
177,283,83 pts -0.61%
Publicidade
Publicidade
Publicidade