
A “morte do ego” não significará um vital fim de fulano(a), beltrano(a) ou sicrano(a).
Significará, fundamentalmente, o fim da audaciosa ilusão de que se está apartado do Absoluto / da Totalidade.
Será a pá de cal na soberba, na fratura e no fracionamento...
Chegareis a um idílico ponto, no caminho do despertar, em que a versão de vós mesmos que construístes — aquela que se esforça, conquista, gere, adultera, agrada e controla — se dissolverá.
É o que muitos chamam de “morte do ego”, mas que na verdade, e em rigor, é um sagrado desvelo.
A lembrança e resgate de quem realmente se é por debaixo de toda uma limitação, fachada, personagem, inautenticidade, narrativas e egocentrismo.
A “morte do ego” não passará por destruir o eu na verdadeira acepção do processo.
Passará por enxergar de que o dito cujo é apenas uma enquistada carapaça – um onipotente grilhão…
Será o despir das máscaras e papéis, o desmoronar silencioso de identidades que já não se encaixam e o início de algo muito mais real, substancial, harmonioso e inefável.
Por vezes, tal transição acontecerá por intermédio de experiências místicas — aqueles momentos em que a consciência se expande e, de repente, redescobre que é mais do que o seu corpo ou a sua mente…
Outras vezes surgirá a partir de algum desgosto amoroso, perda ou trauma — aqueles momentos devastadores que destroem tudo o que se considerava equilibrador ou dado adquirido.
Outras haverá quando o ego já não conseguirá controlar ou dar sentido à vida, se desmorona, e algo maior ocorrerá em vosso âmago.
Existirá, também, uma versão mais silenciosa da “morte do ego” que se desenrolará através de um profundo e intencional labor interior.
À medida que começa a se aperceber dos padrões que construiu para se proteger — o “Não sou suficiente”; “Preciso de ser assim”; ou “Preciso de manter o controlo” — o ego começa a perder o poder adquirido.
As estórias travadas internamente começarão a afrouxar seu domínio.
E, em seu lugar, advirá a suprema paz e quietude.
Para alguns tal fase poderá parecer uma noite escura da alma — um espaço onde nada mais trará alegria ou significado.
Poderá ser desorientador, doloroso até, quando o antigo eu já não se adéqua, mas o novo ainda não emergiu completamente.
Mas essa é a pausa sagrada que tudo antecede e através da qual a alma se prepara para ascender.
Depois, lentamente, virá o sortilégio.
Começareis a perceber que a vida não precisa ser gerida ou defendida por uma qualquer tirana instância interna.
Ela, a vida, passará a desdobrar-se através de vós.
Começareis a mover-vos com mais suavidade.
A confiar mais.
Percebereis que não mais ele será o protagonista da estória — será a consciência, essa, sim, que passará a escrevê-la.
Recapitulando e resgatando a ideia inicial:
A “morte do ego” não acarretará qualquer finitude.
Será o fim, sim, da ilusão de que alguma vez estivestes separados de Deus.
Marcará a sincronicidade e o emaranhar consciente de que vós e Ele são uma coisa só!
E que o que passa a restar será a paz, a autenticidade e a serena certeza de que sois completos...
E que sempre o fostes…
Eco