
Hoje não vos ireis deparar aqui com um artigo de opinião em torno de uma qualquer concretude, ou de cariz metafísico, com uma certa análise crítica sobre determinado tema, com um ecoante e propositivo ensaio, inéditas revelações ou instigações cognitivas de grande monta, não, hoje irei vos falar de uma mulher singular, suas idiossincrasias e sua obra filosófico-literária.
Sereis, pois, conduzidos para uma diegese biográfica e descritiva que exigirá de vós, além da imersiva e contemplativa leitura de sempre, uma única coisa: descortinar, nela (em Rand), tal singularidade, pioneirismo, arrojo, o alcance e a profundidade de seu pensamento.
Quem foi Ayn Rand?
Ayn Rand nasceu em 02 de fevereiro de 1905, na Rússia Kzarista, mais precisamente na cidade de São Petersburgo.
Seu nome de nascimento era Alisa Zinovievna.
Seu pai foi farmacêutico e sua mãe, apesar de doméstica, era tida como uma mulher culta que falava fluentemente inglês, francês e alemão além, claro, do russo.
Rand vivenciou a Revolução Russa quando tinha 12 anos.
Com a ascensão dos usurpadores comunistas, o pai de Rand teve sua farmácia “estatizada” e seu apartamento “confiscado” como propriedade do regime.
Passaram a tornar-se, pasme-se, “funcionários do governo” trabalhando naquela que, antes, era a farmácia da família. Já em relação ao apartamento em que os três viviam teve, também ele, de ser dividido com uma outra família por decreto leninista.
Um ano depois, Rand e os pais, fugiram para Odessa, na Ucrânia, pensando estarem a escapar de toda aquela opressão e tirania.
Em Odessa seu pai abriria um novo negócio, mas com o avanço do socialismo na região, qual praga pandêmica, o novo empreendimento também acabaria por ser arrestado e estatizado.
Ao final da experiência ucraniana, três anos mais tarde, a família, extenuada, retornava a São Petersburgo.
Com 16 anos Ayn Rand ingressou na universidade aonde se viria a formar em “Pedagogia Social” com especialização em “Filosofia” e “História”.
Certa vez contou que, no início dos estudos, ainda havia algum espaço para discussão de ideias e visões de mundo antagônicas, mas que a partir do segundo ano a intolerância e o autoritarismo em face “da diferença” passou a prevalecer vindo-se a tornar perigoso para a integridade física e existencial dela e de sua família.
Apaixonada por peças de teatro e filmes, a jovem iniciara, entretanto, uma nova graduação, desta feita, em “Artes Cinematográficas”, a qual viria a abandonar após ter conseguido uma permissão do governo para visitar um parente nos Estados Unidos.
Uma oportunidade mais que alvissareira para escapar da trágica realidade em que se havia visto, longamente, enredada surgira.
Partiu, então, determinada e resoluta a nunca mais voltar à terra natal.
Sobre o infante, e infame, período na União Soviética, em 1947, Ayn Rand confessara:
“Naquele tempo éramos um bando de pessoas esfarrapadas, famintas, sujas e infelizes que só tinham dois pensamentos em mente – nada além de comida e medo.
Tal era nosso maior terror: medo de olhar um para o outro, medo de dizer qualquer coisa, medo de quem estava ouvindo, e se nos denunciaria, e onde obteríamos a próxima refeição.
Isto foi o que eu vivi até 1926”.
Já em território norte-americano ela passou um tempo com seus parentes, em Chicago, mas mudou-se para Hollywood, na Califórnia, onde havia conseguido um emprego de figurante em um filme, oportunidade em que conheceu Charles O'Connor que viria a ser seu companheiro de toda uma vida.
Por conta do casamento Rand solicitou a cidadania americana que lhe foi pronta e legalmente concedida.
Depois de já algum tempo casada decidiu iniciar uma carreira de roteirista e escritora – em boa hora o decidiu e fez…
Entre seus livros mais famosos de ficção temos A Revolta de Atlas, Cântico e A Nascente.
Rand também escreveu diversos livros de não-ficção e criou a linha filosófica a que deu o nome de Objetivismo.
Entre os livros de ensaio se destacam A Virtude do Egoísmo, Capitalismo, O Ideal Desconhecido, Objetivismo, Introdução à Epistemologia e Teoria dos Conceitos, O Manifesto Romântico e O Retorno do Primitivo.
Muito mais importante, pois, que a vida de Ayn Rand foram, sem margem para qualquer dúvida, suas celeumáticas ideias e prismas.
Ela criou, como já referido, uma corrente filosófica conhecida como Objetivismo que enfatizava a razão, o egoísmo racional e o individualismo.
O Objetivismo dela defendia que todo o indivíduo bem-intencionado deveria ser o centro da existência em qualquer sociedade que se preze e que cada pessoa deveria buscar seus próprios objetivos e interesses sem que Estado algum o devesse regular, tutelar ou dele se aproveitar, patrimonialmente falando.
Ela acreditava que a intervenção do Estado e de qualquer governo na economia consubstanciava uma usurpação, uma violação e total arbitrariedade sobre os proventos advindos do exclusivo mérito particular, dos direitos, das liberdades individuais e do empreendedorismo.
Ela acreditava que só um total livre mercado promoveria a liberdade, a inovação e o progresso civilizatório.
Para Ayn Rand toda a riqueza produzida e auferida advinda da atividade particular / empresarial era uma mais-valia, exclusiva, da capacidade humana de pensar e inovar, na qual todo o Estado ou interferência governamental não se deveria imiscuir e, sobretudo, parasitar e vampirizar.
Rand acreditava que o indivíduo era a unidade fundamental da sociedade e que cada pessoa tinha direito à sua própria vida, liberdade e propriedade.
Ela argumentava, ainda, que o individualismo era o motor para o desenvolvimento da criatividade, da inovação e do progresso coletivo – não o contrário!
Sobre “individualismo” e sua acepção ela sempre fazia questão de ressalvar, enfatiza e esclarecer:
“Não cometa o erro dos ignorantes de pensar que um individualista é um homem que diz: eu farei o que eu quiser, às custas de todos.
Não!
Um individualista, nesta minha concepção, é um homem que reconhece os direitos individuais inalienáveis do homem, os seus próprios e os dos outros”.
Rand era, portanto, contra qualquer forma de coletivismo, nele incluídos, por óbvio, o socialismo, o comunismo e o fascismo – os ismos-mor.
A revolta e o ranço pelos verdes anos vividos sob as infâmias de tais regimes e realidades desenvolveram nela toda uma visão de mundo radical que se conceptualizara no objetivismo descrito.
Ela defendia que cada indivíduo deveria ter o direito de buscar seus próprios interesses e objetivos, sem ser, minimamente, coagido por outros indivíduos ou, sobretudo, pelo Estado.
Ayn Rand enaltecia a razão como a principal ferramenta para se compreender o mundo e para a tomada de decisões.
Ela acreditava que a razão, assim como o potencial individual, seria a única faculdade capaz de alcançar a verdade e essência das coisas e que as emoções e a fé cega em algo exterior eram as principais fontes de erros, ilusões, tragédias e padecimentos que premiavam o mundo.
Já o altruísmo forçado e coercitivo, essa ideia de reter dinheiro para “ajudar a financiar a sociedade como um todo”, constituía um autêntico absurdo para ela.
Na opinião de Rand “a sociedade” era uma falácia, pois que não passava de um coletivo mimético abstrato.
Nesta esteira, e nas inúmeras vezes em que fora entrevistada, ela sempre deixava as seguintes e instigantes indagações:
“Se todos somos “a sociedade” então todos, rigorosamente todos, deveríamos receber ajuda?
Se não, quem será responsável por determinar quem deve ou não receber tal ou qual ajuda?
Quem deverá julgar sobre os recursos de outros?
Ninguém!” – peremptoriamente logo respondia.
Agora, ainda de acordo com a pensadora, se falarmos de “ajuda voluntária”, este, sim, o verdadeiro e puro altruísmo, seria o que estaria correto e o que deveria prevalecer no chamado e propagandeado “Estado Social”.
Ajudar os outros nunca por obrigação, mas por desejo, decisão e vontade própria.
Rand era contra o relativismo moral que ela via como uma forma de subjetivismo e relativismo cultural.
Ela defendia uma ética, também ela, objetivista, baseada na estrita observação da realidade, que, em última instância, reconhece o valor do indivíduo em si e de seus direitos inalienáveis.
Rand previu muitas coisas em seus livros como o crescimento da famigerada esquerda e do irascível coletivismo nos Estados Unidos, e no mundo como um todo, o avanço do progressismo, do intervencionismo e da decadência moral e civilizatória do ocidente que aí está bem defronte aos vossos narizes.
Se lerdes A Revolta de Atlas com absoluta certeza ficareis impactados.
Tirando os aspectos tecnológicos, suprimidos intencional ou inconscientemente, ela conseguiu prever com exatidão a desalmada mentalidade coletivista que grassa em nosso tempo.
Vide esta portentosa citação que às tantas surge no dito livro:
“Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada;
Quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia, não com bens, mas com favores;
Quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas pelo contrário, são eles que estão protegidos de você;
Quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em autossacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".
Nesta exasperante ilação de uma das personagens, a determinada altura da narrativa, e apesar de a mesma retratar na perfeição o (socialista) coletivismo cultural e o (fascista) estatismo regulatório que vêm vindo a condenar a sociedade real como um todo, nas suas mais diversas esferas e dimensões, na obra-prima em apreço, ecoava-vos, ela oferta-nos, também, a solução e a saída:
O paradisíaco Vale de Galt…
E “Quem é John Galt?”
Tereis que ler!
Eco