
Nunca ninguém, jamais, iniciou uma guerra que fosse para impor uma causa ou viés conservador.
Nunca, em tempo algum, houve uma “revolução” para implantar um regime tradicionalista impregnado de excelsos valores, probidade em todas as intâncias e esferas de poder, impoluto senso ético e extrema elevação moral.
Já havíeis pensado nestes termos?…
Poderia ficar por aqui, hoje, só com este primeiro parágrafo, mas dissertemos um pouco mais em toada indagatória sempre muito ao gosto deste andarilho Eco:
Será que a “negativa afirmada” em epígrafe ocorre porque uma causa tradicionalista não consegue coexistir (é expurgada) nas práxis coletivistas?
Será porque tal causa não possui uma doutrina formal que a subjaz?
Será porque não tem uma proposta teórica, cativante e ilusória a oferecer?
Será que estaremos, então, e somente, na esfera de um conjunto de valores, de uma conduta ética, moral e de um senso de justiça, e de estética, de aderência pura e estritamente individual facilmente tragada, pois, por um manipulado, conduzido, histriônico e revolucionário (destrutivo, leia-se) coletivismo?
Bom, o século XX, neste âmbito, foi icônico e paradigmático.
Nele houve acérrimas, fraturantes e cismáticas “causas” pelas quais os Homens bravatearam, se barbarizaram, massacraram e morreram.
O século XX foi o século “das causas” e da “propaganda” que fizeram escola e que, para mal dos nossos pecados, se enraizaram na mente coletiva numa atroz dissonância, paralaxe e irracionalidade…
Muitas pessoas foram, inclusive, à guerra, ou às guerras, para defender tais e quais “causas”...
Sem embargo, vós tivestes, no século passado, pessoas indo matar ou morrer por um socialismo / comunismo, por um nazismo, por um fascismo, por um nacionalismo, por um futurismo e até pelo liberalismo que, hoje, se reúnem nas sociais-democracias como um todo e neste horripilento progressismo autofágico que exaspera.
Não apenas em guerras, mas em todas as revoluções, levantes, intentes, etc... que grassaram e grassam aqui e ali.
A visão ideológica de mundo tomou, em absoluto, o lugar da realidade.
A visão de mundo ideológica tornou-se a expressão de uma recusa sistemática de perceber a realidade.
As massas que representam e expressam uma visão de mundo assim tão turvada estão aquém e incapazes de uma discussão racional com quem quer que seja que as contraponham e que as confrontem com a mínima concretude, honestidade e lucidez intelectual.
A recusa em perceber a realidade passou a não ser uma santa ignorância, mas um explosivo desejo instigado e deliberado para não a compreender.
Tal ou qual visão de mundo passou a ser nada mais nada menos que uma fantasia concupiscente rumo à autodestruição de si e de tudo à sua volta...
Só que se rastreardes com o máximo rigor tamanha e negra conjuntura não ireis encontrar, em momento ou lugar algum, o levantar de uma bandeira conservadora que se preze do tipo:
“Vamos fazer aqui uma rebelião para instaurar uma causa conservadora” - nunca tal aconteceu!
Ninguém nunca pegou em armas para implantar ideias tradicionalistas.
Não sei se já reparastes nisto – volto a ecoá-lo!
Mas o conservador é que é o malvadão da história (ou será da estória?)...
Sempre tão demonizado…
Rotulado pela turba acéfala de tudo o que é ista e aquelista…
E isto é tão revelador para entender (a macabra) piada que nos traga e devora – a todos!
Uma causa, seja ela mais ou menos acerrimamente defendida, invariavelmente, dependerá de uma doutrina que a sustente.
E o argumento em torno de uma causa não é a predisposição ou ocupação favorita de conservadores & tradicionalistas.
Estes se atêm, simplesmente, à factualidade, ao apego do que é real e natural, à verdade (e a verdade é uma busca e um lugar deveras solitário…), ao certo, ao senso comum e ao bom senso, reverenciando o belo, o justo e o aprimoramento.
Um tradicionalista tem, pois, ojeriza a doutrinas descoladas da realidade, da lucidez ou do juízo crítico-analítico.
Se pegardes, por exemplo, no comunismo ele tem toda uma paraláxica doutrina a lastreá-lo.
Tem manual – O manual do comunismo.
Tem, também, o manual do fascismo (um dos trigêmeos siameses daquele, paridos da malvada progenitora chamada ideologia).
Ideários, todos eles, com sua forma pré-determinada, sedimentada, pronta, estabelecida e roteirizada…
O conservadorismo não tem nada disto – está nas antípodas!
Os tradicionalistas não gostam muito dessa toada dogmática, impositiva e ditatorial (a única) de ser e estar.
Acabam sendo forçados, em face do marasmo e do caos incessantes, a reagir, a posicionar-se, a improvisar na expressão das suas idiossincrasias, buscando, aqui e ali, expor o óbvio, a expor-se, pois, afirmando aquilo em que acreditam e de como o mundo civilizacional deveria ser organizado, pautado, aculturado e moralizado.
Tal exposição, todavia, resulta, invariavelmente e sempre, numa exposição conciliatória e vaga.
Conciliatória porque o conservadorismo não é uma forma de combate e de tomada à força, mas de preservação heurística de valores, normas e regramentos pétreos.
E vaga porque, claro está, não possui uma dogmática pronta ou preestabelecida.
É algo do foro íntimo, solipsista, avesso à irracionalidade ruidosa, desmedida e voraz das massas…
O problema que o tradicionalista encontra em todo este mundano imbróglio, em toda a disputa ideológica que o permeia e esmaga, é exatamente o fato de não existir uma política conservadora universal.
Destarte, não ireis encontrar nunca, jamais, uma ideia conservadora ou tradicional que é aplicada em vários lugares do mundo, mais ou menos da mesma forma, e / ou que possa permitir, inclusive, que haja uma qualquer análise sobre a pertinência ou aprimoramento ou não da mesma.
Se, volto a reiterá-lo, parardes para pensar o conservadorismo nunca foi delineado por ninguém, pensado por ninguém, no sentido de existir esta ou aquela personalidade que o criou.
Ireis sempre ter os criadores do fascismo, os idealizadores do nazismo e os idealizadores do socialismo. Mas, no âmbito tradicionalista, não encontrareis quaisquer idealizadores.
Pensadores & simpatizantes os há, é certo, mas porque se viram e se veem na iminência desesperada de estabelecer um contraponto…
De urrar indignação e tentar, vãmente, dar um basta…
De reagir...
Eis porque nunca tivestes ou tereis uma política universal, uma uniformização da ideia conservadora a vos ser imposta ou que venha, efetivamente, a governar um país e a comandar uma nação.
E o que é que faz com que a manifestação tradicionalista, na “ruidosa, unida e indefectível intelectualidade progressista”, seja sempre vista como uma manifestação “a reprimir”, “pejorativa”, “retrógrada”, “a evitar a todo o custo – custe o que custar” – e, pior, confundida com “extremismos” que, rigorosamente, nada têm que ver com ela ou nela, de todo, se encaixam?
Muito pior – “extremismos à direita” quando todo o tipo de “extremismo” que se preze encerra e emana de si um único tom: à esquerda e só à esquerda da dialética e da equação de ruptura...
O que é que faz com que a manifestação tradicionalista seja sempre rejeitada e vista de forma repulsiva, ecoava-vos?
O fato de, na mente progressista, o conservador não ter ideias partilhadas que se coadunem “com a maioria” (“antidemocrático”, assim o acusam, raivosamente), de não ter “ideias niveladas e pluralistas”, e de ousar reagir à maioral vontade (um “reacionário”, logo o apelidam, também).
Não se trata de “reagir ou não” e / ou de “vergar-se ou não” à vontade de uma dita maioria histérica e alienada.
Trata-se de identidade, individualidade, independência, retidão e postura contra tudo o que possa estar ou vir estar errado, ser contranatura, antiético, antiestético ou amoral.
O genuíno tradicionalista coloca-se à margem de qualquer espectro político que não seja o da decência, da moralidade, da probidade, da lisura, da honradez e das boas práticas.
E por isso sua jornada é a solo, assim como a de seus pares.
E por isso é que na disputa política, ou seja, na disputa de poder pelos meios de ação ele sempre perde feio para os revolucionários passionais, condicionados, sedentos, mobilizados, financiados-para e ultra-organizados…
O que o coletivismo progressista não enxerga, não entende e não quer sequer compreender é que toda a criatura tradicionalista possui uma característica própria, única, inimitável, independente e intransmissível.
E, mais, uma essência inarticulada e uma expressão que, quando instigada, é sempre cética.
Por que inarticulada?
Porque a tradição e os bons costumes têm mais a ver com um comportamento, com um temperamento, do que com uma tomada de posição, uma ação ou imposição do que quer que seja.
O conservador não é tão articulado no sentido de trazer consigo ideias abstrativas ou platitudes proselitistas.
Ele sopesa as tendências e os modismos sempre sob um prisma e atitude cética de ser.
As ideologias, por sua vez, não possuem qualquer tipo de cepticismo.
Pelo contrário, são irredutivelmente crédulas.
“Crédulas” é eufemismo – são chauvinistas e facciosas!
Os ideologizados acreditam piamente naquilo que “lhes venderam e querem, a qualquer custo, pô-lo em prática doa a quem doer”.
O conservador, não!
O tradicionalista nunca se posiciona no sentido de afiançar: “isto que defendo é o melhor dos mundos”.
A proposta é sempre uma propositura de desconfiança: “entre a dúvida e aquilo que já deu certo, vamos ficar com aquilo que já deu certo”. É mais ou menos isto, grosso modo.
É por isto, repito-vos, que a essência do conservadorismo é inarticulada e a sua expressão, quando instigada, é cética.
“Quando instigada” porque o conservador, normalmente, não toma a frente para apresentar ou defender suas causas.
O que é diferente das causas progressistas que são bem mais acérrimas, tribais e, infelizmente, bem mais galvanizadas e eruptivas…
Todo o tradicionalista possui uma consciência da complexidade das coisas humanas e de uma adesão a valores que não podem ser compreendidos com o nivelamento abstrato, temerário e deslumbrado de uma qualquer utopia (que sempre descamba em distopia) que se preze.
Uma superior conscientização da complexidade, ele possui.
Sim, o mundo civilizacional, e não só, é complexo, e para estar nele, fazê-lo funcionar em coesão, sinergia e harmonia faz-se necessária muita capacitação, maturação e prudência.
E este é um dos grandes problemas, se não o maior, das gonorreias progressistas que assolam as mentes infantilizadas, deslumbradas e ávidas a qualquer revolucionária mudança pela mudança por mais aberrante que ela possa ser ou vir a se consubstanciar.
Eco