Em uma revelação que expõe a gravidade da suposta trama golpista investigada pela Polícia Federal, o general da reserva Mário Fernandes admitiu ser o autor de um plano detalhado para sequestrar e assassinar o presidente Lula (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Durante interrogatório na Primeira Turma do STF, Fernandes tentou minimizar a gravidade do planejamento, alegando que se tratava apenas de um "pensamento digitalizado".
A confissão do militar, feita na quinta-feira (24), revela detalhes chocantes do que a Polícia Federal denominou "Punhal Verde e Amarelo" - um plano operacional que seria executado em 15 de dezembro de 2022, poucos dias antes da posse dos candidatos eleitos. O documento incluía uma lista de armamentos pesados, estratégias de envenenamento e até mesmo a aceitação de "danos colaterais" à equipe de segurança das vítimas.
Detalhes Macabros do Planejamento
O interrogatório conduzido pelo juiz auxiliar Rafael Rocha, que atua no gabinete de Moraes, revelou a frieza com que o general planejou os assassinatos. Fernandes admitiu ter elaborado uma lista de armamentos que incluía pistolas, fuzis, uma metralhadora M249, um lança-granada 40mm e um lança-rojão AT4, descritos pela PF como "armamentos de guerra comumente utilizados por grupos de combate".
O plano previa diferentes métodos de execução para cada alvo. Para Lula, foi cogitada a possibilidade de envenenamento com "químicos para causar um colapso orgânico", considerando questões relacionadas à saúde do presidente eleito. Já Moraes seria executado com o uso de artefato explosivo e por envenenamento em evento oficial público, com "danos colaterais passíveis e aceitáveis" à sua equipe de segurança.
A operação teria um custo estimado de R$ 100 mil e seria conduzida por seis pessoas em Brasília. Entre 21 e 24 de novembro de 2022, a rotina de Moraes foi monitorada para viabilizar a ação, demonstrando que o planejamento havia avançado além da fase conceitual.
"Costume Militar" ou Preparação Real?
Durante o interrogatório, Fernandes tentou justificar o planejamento detalhado alegando que foi feito por "costume" em razão dos mais de 40 anos como militar do Exército. "Esse arquivo digital nada mais retrata do que um pensamento meu que foi digitalizado — um compilado de dados, um estudo de situação, uma análise de riscos que eu fiz e, por costume próprio, resolvi inadvertidamente digitalizar", declarou ao STF.
No entanto, a sofisticação e o nível de detalhamento do plano contradizem a versão de que se tratava de mero exercício intelectual. A Polícia Federal o descreveu como um dos nomes "mais radicais" na investigação da suposta trama golpista, e o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, apontou Fernandes como um "militar radical que teria proposto de forma incisiva a realização de golpe de estado".
Trajetória Militar e Política
Fernandes iniciou sua carreira na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) em 1983. Como o ex-presidente Jair Bolsonaro, ele também é paraquedista. Em 2016, foi promovido a general de brigada e, dois anos depois, assumiu o Comando de Operações Especiais, onde atuam os chamados "kids pretos" - unidade de elite do Exército.
Em 2020, passou para a reserva e foi nomeado secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência, tornando-se o "número 2" do ministro Luiz Eduardo Ramos. Chegou a comandar a pasta interinamente e também assessorou o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello entre março de 2023 e março de 2024.
Fernandes foi demitido do PL semanas depois da Operação Tempus Veritatis. Pazuello informou, através de nota, que o general trabalhou em seu gabinete até 4 de março de 2024, "quando foi identificado seu impedimento para exercer cargo público".
Pressão sobre Comando do Exército
As investigações revelaram que Fernandes teria pressionado o então comandante do Exército, general Freire Gomes, entre março e dezembro de 2022, a aderir ao suposto plano para impedir a posse de Lula e Alckmin. Em conversas interceptadas, o general demonstrava urgência na execução do plano.
"Então, tem que ser antes. Tem que acontecer antes. Como nós queremos. Dentro de um estado de normalidade. Mas é muito melhor assumir um pequeno risco de conturbar o País pensando assim, pra que aconteça antes, do que assumir um risco muito maior da conturbação no 'the day after', né? Quando a fotografia lá for de quem a fraude determinar", disse Fernandes, segundo transcrição da PF.
Operação Contragolpe
O general foi preso durante a Operação Contragolpe, deflagrada em 19 de novembro de 2024, após a descoberta do planejamento operacional. A operação da PF revelou que "claramente para os investigados a morte não só do ministro, mas também de toda a equipe de segurança e até mesmo dos militares envolvidos na ação era admissível para cumprimento da missão de 'neutralizar' o denominado 'centro de gravidade'".
Durante o interrogatório, Fernandes reiterou sua versão: "Não passa de um pensamento digitalizado. Hoje eu me arrependo de ter digitalizado isso, mas o mais importante: não passa de um compilado de dados, a visão de um militar, que não foi compartilhado com ninguém"
Análise da Revista No Ponto Do Fato
A confissão do general Mário Fernandes representa um momento crucial para a compreensão da real dimensão da suposta trama golpista investigada pela Polícia Federal. Para a Revista No Ponto Do Fato, a tentativa de minimizar um planejamento tão detalhado e macabro como mero "pensamento digitalizado" revela a gravidade da situação e levanta questões fundamentais sobre os limites entre exercício intelectual e preparação para ação concreta.
A sofisticação do plano "Punhal Verde e Amarelo", com lista específica de armamentos de guerra, estratégias de envenenamento e monitoramento de alvos, vai muito além de qualquer "costume militar" de planejamento teórico. Nossa revista sempre defendeu que as instituições democráticas devem ser respeitadas, independentemente de divergências políticas, e qualquer tentativa de subversão da ordem constitucional deve ser investigada e punida com rigor.
É preocupante que um militar de alta patente, com décadas de experiência e acesso a informações sensíveis, tenha elaborado um plano tão detalhado para eliminar autoridades democraticamente eleitas. A alegação de que não foi compartilhado com ninguém contradiz as evidências de que houve pressão sobre o comando do Exército e articulação com outros investigados.
Para a No Ponto Do Fato, este caso evidencia a importância de manter as Forças Armadas afastadas de disputas políticas partidárias. O Exército brasileiro tem uma tradição de profissionalismo e respeito à Constituição que não pode ser manchada por ações individuais de militares que extrapolaram seus deveres constitucionais.
A investigação deve prosseguir com total transparência e rigor, garantindo que todos os envolvidos sejam responsabilizados. Ao mesmo tempo, é fundamental que não se generalize a conduta de alguns indivíduos para toda a instituição militar, que mantém seu papel constitucional de defesa da pátria e das instituições democráticas.
A confissão de Fernandes também levanta questões sobre a supervisão e controle de militares da reserva que ocupam cargos civis. É necessário estabelecer mecanismos mais rigorosos de acompanhamento para evitar que a experiência militar seja utilizada para fins contrários aos princípios democráticos.
Nossa revista defende que a Justiça seja aplicada de forma imparcial e que todos os fatos sejam esclarecidos, independentemente de posições políticas. A democracia brasileira só se fortalece quando suas instituições funcionam adequadamente e quando tentativas de subversão são devidamente investigadas e punidas.