
Profetizam os oráculos que os escolhidos sempre caminham sozinhos.
O termo escolhidos, talvez, não seja o termo mais apropriado.
Preferirei o termo aqueles que se escolhem – que veem vindo em um caminho de despertar; que, algures, a certa e determinada altura, passaram a sentir e portar a noção de que algo estava errado neste mundo e que precisariam se desvincular / demarcar de tal quimérico padrão; pessoas que, então, passaram a sair do algoritmo e a responder ao chamado (interior) de que precisariam fazer algo...
Uma missão…
Uma venturosa jornada para a qual se viram tragados e os fez adentrar, por fim, na esfera da real e verdadeira liberdade interior.
A coletividade repele (a mor das vezes) ou admira (a espaços) tal venturoso à distância, de longe, mas não deseja realmente conhecê-lo mais a fundo, conviver com ele e, muito menos, aliar-se.
Tal convívio beliscaria e arriscaria a destruir as próprias ilusões confortáveis que tão bem a caracteriza.
A maioria prefere manter suas ilusões a abraçar o desconhecido. Mas o que ela não sabe é que há algo peculiar sobre todo aquele que passa a trilhar o caminho do apartado despertar. Uma solipsista quietude que o segue como uma sombra. Não uma solidão imposta “de fora”, mas uma profunda compreensão que nele brota de que se torna difícil qualquer “comum ou ordinária companhia”.
A maioria das pessoas está unida por ilusões, falácias e hipnoses compartilhadas de uma vida de mentira que elas creem ser real. Mas o momento em que uma delas passa a ver através do véu das ilusões, os laços que outrora as uniam passarão a afrouxar, pois que ao ver a verdadeira natureza e face da concretude, aquela alma não mais se identificará, não mais desejará validação, nem buscará pertencer aos velhos e falsos padrões.
Aqueles que despertam para a verdade da existência passam a caminhar, pois, por uma trilha silenciosa e solitária.
Não porque rejeitam o mundo, mas porque o mundo envolto em ilusões coletivas já não mais é reconhecido por ele, passa a ser-lhe estranho e, concomitantemente, esse mesmo mundo já não mais o sabe ou consegue reconhecer.
Então a solidão do desperto que aparenta ser um isolamento passa a ser, na verdade, uma libertação – o resultado natural de ver que os outros não enxergam além e de que ele estará à margem de qualquer falso / ilusório signo ou significado abraçado pelas massas.
Por que a sociedade ojeriza aqueles que pensam diferente?
Se ao menos ela soubesse da enorme beleza e livramento que existe nessa diferenciação…
E não é isolamento, mas um retorno a algo…
Na verdade é um afastamento do ensurdecedor ruído e da turva espuma…
E na vastidão da existência em si aquele que se diferencia passa a viver sem engodos, sem fingimentos, sem máscaras, sem a pressão constante de ver algo sob a expectativa e prisma de outra pessoa, de uma “autoridade” de araque ou de qualquer esfíncter cientificista.
No frigir dos ovos o pássaro morrerá, é certo, mas todo aquele que o viu jamais poderá esquecer seu voo…
Pode até haver momentos de saudade, momentos tentadores, onde se deseja voltar para os velhos costumes. Mas, no fundo, o desperto sabe que tais conexões seriam construídas, não em verdades, mas na ilusão mútua, solidária, parasitária e já sem qualquer sentido.
A maioria das pessoas acredita que as amizades são formadas a partir de uma profunda conexão compartilhada, valores e respeito mútuo. Na superfície isso até parece verdade, mas quando você começa a olhar mais profundamente começa a ver que a maioria dos relacionamentos são construídos sobre algo muito mais frágil. As pessoas se unem não necessariamente porque estão realmente se entendendo, mas porque desejam validar as crenças uns dos outros, reforçar suas estreitas e enviesadas visões de mundo e fornecer, em retroalimentação, distrações frente às questões mais profundas, complexas e transcendentes.
Eis o ponto fulcral.
Hoje temos a necessidade de validação, não só do pensamento de grupo, mas a validação do pouco que a maioria tem como elementos dentro de si mesma e da informação que ela considera ser a verdadeira.
As pseudo-crenças estão tão intensas que não há outra coisa a ser aceite nesse momento a não ser o espelho das próprias e incrustadas convicções e de tudo aquilo que é implantado na mente coletiva desde a mais tenra idade.
A massa não está aberta a uma nova, pura e libertadora informação.
A massa busca apenas validação e um campo de segurança que a mantenha no padrão do medo.
E é por isso que reagem mal à contradição iridescente, quando confrontados com o desconhecido, quando a informação lhes é chocante a ponto de lhes quebrar o feitiço…
Sem embargo, encontrareis aqui a explicação para o fato dos construtores & editores desta imanência serem sempre os mesmos, os que sabem de toda a verdade, que possuem o conhecimento, os meios de ação, que detém todas as formas de poder, e que geram todas as narrativas a partir das quais a humanidade se embala, acredita e defende em danada autofagia.
E é nestas amarras invisíveis que plasmam o mundo coletivista, insisto, que a maioria das conexões humanas é construída sobre ilusões compartilhadas, falsos credos, rotinas de condicionamento, psy-ops e busca de validação.
Romper com tais estruturas é desestabilizar o pacto silencioso que mantém a coesão social por pior possível que possa ser – basta olhar a linha da história e ver que são sempre os mesmos engodos e padrões (guerra, clivagem, cisma, escassez e doença) a serem utilizados pra gerar o mesmo efeito…
O desperto não busca aprovação nem participa de jogos e mantras psico-emocionais – os atemporais jogos babilônicos…
Sua presença em si já constitui um desafio ao status quo, um lembrete vivo, a mosca na sopa de que há outra forma de existir e de que ela é mais especial, sólida, serena, intensa, energética, coerente, harmoniosa ao mesmo tempo, viva, e que é o principal sentimento que qualquer um terá do lado de um ser assim…
O amor e genuína filantropia daquele que desperta é incomensurável, mas não se expressa por meio da necessidade de espelhamento.
Ele flui como um rio, silencioso, sem exigências, por isso é facilmente mal compreendido como desvario, liquefação, frieza, indiferença ou arrogância…
Mas, na verdade, é a expressão pura do amor que não se ancora em expectativas nem em trocas…
Quando a pessoa está presa a condicionamentos do seu espelho ela não tem condição de amar e se doar porque o amor verdadeiro não é justificável, o amor é o que é, e não é por algo ou por qualquer coisa, ele não existe à condição…
E daí, à dissolução natural das conexões, conforme o desperto abandona a necessidade do reforço espelhar, muitos vínculos simplesmente se desfazem, sim, não por conflito, mas porque perderam o que sustentava a participação mútua nas mundanas ilusões…
A paz passa, então, a ser resgatada na solidão.
Tal solitude não é um castigo - é revelação.
O desperto aprende que o vazio tem forma, que o silêncio tem presença e que a paz nasce quando não se busca ser algo para alguém.
Ele caminha sem máscaras, sem necessidade de ser entendido, visto ou acolhido.
A nova linguagem em presença, já não é a mesma dos outros, não por querer ser diferente, mas porque já não alucina, reage, não espelha, já não alimenta padrões que são incoerentes.
Por isso muitos, quase todos, se afastam…
Não há julgamentos ou juízos a fazer, relaxem, apenas o reconhecimento de que, uma vez vista a verdade, não se pode mais fingir e viver de mentira.
Quanto mais se desperta, menos se precisa.
Quanto mais se entende, menos se exige.
E quanto menos se precisa da validação, menos vínculos sobrevivem.
O desperto não se ressente disso, ele compreende, e da compreensão advém a aceitação.
A última liberdade.
Não precisar ser compreendido.
Não necessitar ser aceito.
Não temer a solitude.
Eis a liberdade mais elevada.
Uma vida vivida sem dissimulações, sem urgência de pertencer, onde cada passo é dado por si mesmo, numa plenitude silenciosa, mas em profunda verdade.
Onde a liberdade interior encontrará sua derradeira morada e onde, talvez, o espírito humano, por fim, toque e repouse no Eterno…
Eco