
Já olhastes nos olhos de alguém e sentistes haver algo faltando?
Um vazio?
A ausência da almática essência que nos individualiza, caracteriza e define?
A luz?
A centelha?
Uma vida interna?
Aquela estranha sensação de ver alguém se mostrar vivo por fora, mas mortiço por dentro?
Se sim (tomara, é uma obviedade), tal não se consubstancia como uma mera, isolada e fugaz impressão.
Entre nós muitos, demasiados - a maioria - não estão, de fato, realmente “vivos” no sentido senciente do termo.
Antes de me aprofundar mais, uma metafórica explicação prévia.
Em jogos e videogame, o jogador, o termo jogador que usarei aqui, é quem toma decisões reais, explora o mundo, altera a história, constrói e leva a cabo sua jornada.
Já os NPCs, que em inglês é a sigla para Non Playable Characters - personagens não jogáveis -, são figuras programadas para repetir falas, reagir a comandos e seguir rotinas previsíveis.
Estão lá, mas não pensam por si mesmas.
Executam, tão só, operações logarítmicas previamente consideradas pelos programadores…
Eu falo ou vós conseguis falá-lo?
Parece-se com algo real, pungente e vividamente humano / existencial ou estarei a delirar?
Quantos enxergueis à vossa volta que parecem estar em “piloto automático”?
Na filosofia da mente, temos um conceito parecido – o zumbi filosófico.
Alguém que se comporta exatamente como um ser humano, mas ausente de uma genuína consciência interna.
Sua emoção é baixa; Apresenta características rígidas, previsíveis e programadas.
Não reflete; Como se não tendo um eu dentro de si…
E este é, precisamente, o crônico e danado handicap que marca de modo indelével o nosso zeitgeist civilizacional.
Uma ululante realidade que nos leva a um questionamento inquietante e a uma resposta inequívoca:
Quantos de entre nós passaram a funcionar assim como genuínos NPC’s ou zumbis?
A coletividade como um todo aonde quer que haja uma agremiação humana.
Mergulhamos, pois, e assim, no paradoxo que desafia o que entendemos por consciência na verdadeira acepção da expansiva e espiritual faculdade da qual somos munidos.
Se tal zumbificação do ser é logicamente possível e gritantemente real, então a consciência não pode ser explicada apenas por processos físicos porque, porventura, certo e determinado indivíduo apenas não a consegue manifestar ou expressar.
Na cultura popular a ideia do zumbi ganhou uma nova e incrementada forma com tantos filmes e seriados propagando tal bisonha condição.
Pessoas que vivem, trabalham, falam, mas reagem sem refletir, que seguem roteiros sociais, repetindo, ipsis verbis, epítetos, discursos e narrativas propaladas pela mídia e pelo mimetismo de rebanho.
Neurocientistas e psicólogos sugerem que até 95% das nossas decisões são automaticamente imputadas à priori…
Somos criaturas por demais sugestionáveis e condicionáveis.
E, como tal, talhadas à queda e à tragédia!
Estaremos todos, realmente, apenas funcionando conforme um sistema programado e manipulado por uns poucos e perversos geômetras e arquitetos?
Todos, não!
A mera abordagem de um tema assim dissertado já denota o ponto fora da curva de quem o consegue trazer – conseguis, neste ponto, ao menos percebê-lo?
Eis vos, pois, defronte ao imperativo apelo de se desenvolver uma consciência expansiva...
Estudos mostram, sem embargo, que uma parcela significativa da população é inapta a estabelecer um diálogo interno, ou seja, não pensa em ou por palavras e não consegue refletir profundamente sobre suas escolhas.
Eletroencefalogramas revelam que há pessoas com baixa atividade introspectiva no cérebro, especialmente, no córtex pré-frontal, área ligada ao pensamento superior.
Tal não significa burrice (vide a quantidade de “professores, doutores e engenheiros” que assim se comportam e agem), significa, antes, total ausência de reflexão profunda, cognição cônsona e vívida memória.
E eis a divisão real e abissal entre automatismo e ampla consciência.
E lá vamos nós:
Se não podemos provar o grau de consciência do outro, como saberemos quem estará realmente consciente?
Talvez muitos apenas simulem humanidade plena, como NPC’s numa qualquer simulação.
Mas se vós conseguis fazer essa pergunta a respeito de se os que estão ao vosso lado estarão ou não conscientes, talvez já estejais em condições frequenciais diferentes e numa desejável trajetória de ascendência.
Talvez vós estejais entre os que despertaram para o fato de que a maioria não vive uma vida própria, plena e consciente de si e do que a rodeia.
E o desafio não passará apenas por perceber tamanha vicissitude e décalage, mas em conseguir agir lúcido em meio a todo um mundano marasmo e exasperação que estimula, potencializa e perpetua a dormência, a hipnose e a letargia.
Andais, portanto, a pensar por vós mesmos ou seguindo um script?
E, encontrando-vos nessa modal e esmagadora segunda hipótese, conseguireis, enfim, quebrar tal feitiço e passar a ser protagonista da vossa própria existência?
Em ser um soberano e autônomo (não autômato ou simbionte) jogador?
Em trilhar vosso próprio caminho e destino com vista a buscar o máximo entendimento, propósito, clarividência e desvelo de sentido de todo este enredo e lugar?
Saí da caverna, criaturas, saí da caverna!
Eco