
Ontem, 28 de maio de 2025, a pequena comunidade de Capela do Saicã, no distrito de Cacequi, na Região Central do Rio Grande do Sul, vive um drama: todas as quatro estradas de acesso ao local estão bloqueadas, isolando cerca de 800 moradores. As chuvas intensas, que atingiram a região com rajadas de vento de até 100 km/h, causaram deslizamentos, alagamentos e danos severos às vias, agravados pela falta de manutenção adequada. Esse cenário escancara, mais uma vez, a fragilidade da infraestrutura brasileira, especialmente no interior, onde comunidades como Capela do Saicã pagam o preço da negligência estatal.
O impacto para os moradores é imediato e cruel. Sem acesso às estradas, a chegada de suprimentos básicos, como alimentos, água potável e medicamentos, está comprometida. Famílias enfrentam dificuldades para se deslocar a cidades vizinhas em busca de trabalho, saúde ou educação. “Não entra nem sai nada. Estamos ilhados”, relatou um morador local para a RBS. A economia da região, que depende da agricultura e da pecuária, também sofre: produtores não conseguem escoar suas colheitas, e o transporte de insumos está paralisado, gerando prejuízos que se acumulam a cada hora. Postagens no X, como a do deputado Bohn Gass, reforçam a gravidade, destacando que Cacequi é apenas um dos muitos municípios gaúchos afetados pelas chuvas recentes.
O Rio Grande do Sul ainda carrega as cicatrizes das enchentes históricas de maio de 2024, que danificaram 13,7 mil quilômetros de estradas e destruíram pontes em 478 municípios, segundo a Agência Brasil. Naquela tragédia, considerada a pior da história do estado, 94% das rodovias estaduais foram recuperadas, mas a reconstrução total ainda está longe de ser concluída. O governo estadual investiu R$ 2,8 bilhões em obras de resiliência climática, incluindo a recuperação de pontes como a da ERS-130, em Lajeado, e a reconstrução do Km 88 da ERS-129, em Muçum, conforme o Portal do Estado do Rio Grande do Sul. O governo federal, por sua vez, aportou R$ 3 bilhões em 2024, seis vezes mais que em 2022, segundo a Secretaria de Comunicação Social. Ainda assim, a situação de Capela do Saicã mostra que os esforços não acompanham a urgência das comunidades rurais.
A falta de manutenção preventiva é um problema crônico. O Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) e a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) enfrentam dificuldades para monitorar e reparar vias em tempo hábil, especialmente em áreas remotas. Um relatório da Secretaria de Logística e Transportes do RS apontou que, em junho de 2024, 64 trechos em 33 rodovias estavam bloqueados, muitos por erosão e quedas de barreiras. A ausência de investimentos contínuos em drenagem, contenção de encostas e pavimentação resiliente deixa o estado vulnerável a eventos climáticos, que se intensificam com as mudanças climáticas.
Para o cidadão gaúcho, que já enfrentou o trauma das enchentes de 2024, o isolamento de Capela do Saicã é um lembrete doloroso de que promessas de reconstrução não chegam a todos. Enquanto o governo federal anuncia obras como o Complexo Viário de Esteio, na BR-116, que beneficia a Região Metropolitana de Porto Alegre, comunidades rurais como Cacequi seguem esquecidas. “Quando será a nossa vez?”, questionam os moradores, que veem o governo priorizar grandes centros em detrimento do interior. Para o contribuinte conservador, que valoriza o trabalho árduo do campo, a situação é um reflexo de um estado inchado, que gasta muito e entrega pouco onde realmente importa.
A solução exige mais do que reparos emergenciais. Investimentos em infraestrutura resiliente, como pontes elevadas e sistemas de drenagem eficazes, são essenciais para evitar novos isolamentos. O Plano Rio Grande, lançado pelo governo estadual, promete R$ 1,2 bilhão para estradas e pontes, mas a execução precisa ser ágil e transparente. Até lá, os moradores de Capela do Saicã e de tantas outras comunidades gaúchas seguem esperando, com a sensação de que o Brasil real, aquele que sustenta a nação com seu suor, continua à margem das prioridades do poder público.