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DENGUE NO BRASIL

UMA ONDA SILENCIOSA AMEAÇA O INVERNO DE 2025

Maria Rosa M Pires
Por: Maria Rosa M Pires
03/04/2025 às 11h46
DENGUE NO BRASIL
6,6 milhões de casos em 2024 expõem a urgência de uma solução – mas onde está a vacina?
 
O Brasil enfrenta um inimigo persistente que não dá trégua - a dengue. Após um 2024 devastador, com 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 5,6 mil mortes confirmadas, segundo o Ministério da Saúde, especialistas alertam para uma nova onda da doença no inverno de 2025 – um período que, historicamente, deveria ser de alívio. O culpado? Um inverno mais quente, impulsionado pelas mudanças climáticas, que mantém o Aedes aegypti, o mosquito transmissor, ativo e voraz. Enquanto o país segura a respiração, uma esperança repousa nos laboratórios do Instituto Butantan, que apresentou uma vacina promissora, já submetida à Anvisa em dezembro de 2024 e que ainda aguarda aprovação. Mas por que esse avanço, tão crucial, não está no centro das atenções?
 
Um recorde que ninguém quer
 
O ano de 2024 marcou a pior epidemia de dengue da história brasileira. Os 6,6 milhões de casos registrados – um salto de quase 50% em relação aos 4,5 milhões de 2023 – sobrecarregaram hospitais, esgotaram estoques de soro e deixaram famílias em luto. O Distrito Federal, por exemplo, declarou emergência com uma incidência de 2.500 casos por 100 mil habitantes, enquanto São Paulo viu seus leitos de UTI lotados. "Foi um tsunami silencioso", descreve a infectologista Ana Paula Freire, da Fiocruz. "O calor prolongado e as chuvas irregulares criaram o ambiente perfeito para o mosquito."
 
Agora, com previsões de um inverno atipicamente quente em 2025, o cenário é alarmante. O Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde já registra 1,2 milhão de casos prováveis até março deste ano, com 127 mortes confirmadas. "Não temos mais sazonalidade clara", explica o climatologista Carlos Nobre. "O Aedes se adaptou, e nós não." Diante disso, a vacinação surge como a principal arma para quebrar esse ciclo – mas o Brasil ainda patina para colocá-la em prática.
 
A promessa do Butantan
 
No fim de 2024, o Instituto Butantan, referência mundial em imunobiológicos, deu um passo histórico e submeteu à Anvisa o pedido de registro da Butantan-DV, a primeira vacina de dose única contra os quatro sorotipos da dengue. Desenvolvida em parceria com os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH), ela mostrou, em ensaios clínicos de fase 3, uma eficácia geral de 79,6% contra casos sintomáticos e 89% contra formas graves, segundo estudo publicado no New England Journal of Medicine. "É um marco para a ciência brasileira", celebra Esper Kallás, diretor do Butantan. "Uma dose única muda o jogo, facilitando a logística e aumentando a adesão."
 
Se aprovada, a vacina poderia imunizar 1 milhão de brasileiros ainda em 2025, com planos de escalonar a produção para 100 milhões de doses até 2027. Diferente da Qdenga, do laboratório japonês Takeda – incorporada ao SUS em 2024, mas limitada a 9 milhões de doses para crianças de 10 a 14 anos –, a Butantan-DV é 100% nacional e promete atender a todas as faixas etárias de 2 a 59 anos. "O custo da dengue é absurdo", diz o virologista Maurício Lacerda Nogueira. "Cada caso grave custa ao SUS cerca de R$ 10 mil. Uma vacina eficaz é um investimento, não um gasto."
 
A espera que sufoca
 
Mas a aprovação da Anvisa, essencial para que a produção em massa comece, ainda não tem prazo definido. Em fevereiro de 2025, a agência solicitou dados complementares ao Butantan, um processo padrão que, no entanto, reflete a cautela após o fiasco da Dengvaxia, vacina da Sanofi que, em 2016, foi associada a mortes no exterior por aumentar riscos em quem nunca teve dengue. "A Anvisa está sendo rigorosa, e isso é bom", avalia Freire. "Mas a demora pode custar vidas."
 
Enquanto isso, a Qdenga, já em uso, enfrenta entraves com a oferta limitada do fabricante japonês, que não cobre nem 10% da população-alvo, e o esquema de duas doses dificulta a adesão. "Muitos não voltam para a segunda dose", lamenta a secretária de Saúde de Goiás, Mariana Lopes. O resultado? Uma proteção parcial que não freia a epidemia.
 
Por que tão pouco barulho?
 
Apesar da gravidade e da promessa da Butantan-DV, o tema não domina as manchetes. Especialistas apontam uma combinação de fatores - a fadiga da população após anos de crises sanitárias, como a Covid-19, e a falta de uma campanha nacional robusta de conscientização. "A dengue é vista como um mal inevitável, mas não precisa ser", critica Nogueira. "Faltam pressão pública e prioridade política."
O governo Lula, que investiu R$ 300 milhões no desenvolvimento da vacina, anunciou em março de 2025 um plano de contingência, mas as ações – como mutirões de limpeza e distribuição de repelentes – são paliativas. "Sem vacinação em massa, estamos enxugando gelo", admite um técnico do Ministério da Saúde, sob anonimato. A Butantan-DV, se liberada, poderia ser incorporada ao SUS ainda este ano, mas depende de aval da Anvisa e da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec).
 
O que está em jogo
 
A dengue não é só uma febre passageira. Em 2024, o Brasil gastou R$ 2,5 bilhões com internações e perdas econômicas ligadas à doença, segundo a Fiocruz. Para 2025, o inverno quente pode elevar esse custo – e o humano – a níveis insuportáveis. "Cada atraso na vacina é uma família a mais chorando", diz Maria Silva, que perdeu o filho de 12 anos para a dengue hemorrágica em Brasília, no ano passado.
A Butantan-DV carrega a esperança de virar esse jogo. Mas, enquanto a burocracia avança em câmera lenta, o Aedes aegypti não espera. O Brasil precisa decidir: vai enfrentar a dengue com a força da ciência ou continuar contando corpos? O inverno de 2025 está logo ali – e ele não promete ser gentil.
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