Um estudo publicado em 26 de fevereiro de 2025 na revista Nature Genetics está redefinindo o entendimento sobre a gota, uma forma dolorosa de artrite historicamente associada a excessos alimentares e alcoólicos. Após analisar 2,6 milhões de amostras de DNA, pesquisadores concluíram que a condição tem raízes genéticas, desafiando a crença antiga de que seria principalmente um reflexo do estilo de vida. A descoberta promete mudar a abordagem médica e reduzir o estigma enfrentado por milhões de pacientes ao redor do mundo.
Liderada pelo professor Tony Merriman, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, a pesquisa utilizou um banco de dados global, com 75% das amostras fornecidas pela empresa de testes genéticos 23andMe. Os resultados indicam que os genes herdados desempenham o papel principal na predisposição à gota, caracterizada pelo acúmulo de cristais de urato nas articulações, provenientes da metabolização das purinas. Nos Estados Unidos, cerca de 9,4 milhões de adultos — equivalente a 4% da população — convivem com a condição, enfrentando episódios de inflamação intensa e dor severa.
Por séculos, a gota foi rotulada como "doença dos reis", associada a dietas ricas em carne vermelha, frutos do mar e álcool. Contudo, Merriman enfatiza: "A gota é uma condição genética, não uma falha pessoal. O nível elevado de urato no sangue, que desencadeia os ataques, é amplamente determinado pelo DNA." Embora fatores como dieta possam agravar os sintomas em indivíduos predispostos, o estudo sugere que o impacto do estilo de vida é secundário em relação à herança genética.
A nutricionista Stephanie Schiff, do Hospital Huntington, em Nova York, que não integrou a equipe de pesquisa, reconhece a relevância da descoberta, mas alerta: "Certos alimentos, como carnes gordurosas, laticínios ricos e álcool, ainda podem atuar como gatilhos para crises." Ela recomenda que pacientes mantenham uma dieta cautelosa, apesar da origem genética da condição, para minimizar os surtos.
A pesquisa também carrega um peso social. O estigma de que a gota resulta de escolhas pessoais tem levado muitos a evitar tratamentos eficazes, como medicamentos que reduzem os níveis de urato. Com os novos dados, especialistas esperam que a percepção pública evolua, incentivando abordagens terapêuticas mais alinhadas à biologia individual. A revelação marca um avanço significativo na compreensão da gota, destacando a necessidade de estratégias médicas personalizadas e uma visão mais compassiva sobre seus portadores.