No dia 5 de março de 2025, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, chefe da Casa Imperial do Brasil e trineto de Dom Pedro II, emitiu uma nota oficial de repúdio à escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi, de São Paulo. A controvérsia surgiu após o desfile da agremiação no Sambódromo do Anhembi, na madrugada de 2 de março, durante o Carnaval 2025. No carro alegórico intitulado "O Ritual Ibirapema", parte do enredo "Assojaba – A busca pelo manto", um guerreiro indígena foi retratado segurando a cabeça decapitada de Dom Pedro II, último imperador do Brasil, que governou de 1831 a 1889.
O enredo da escola, presidida por Hussein Abdo El Selan, conhecido como Sr. Jamil, buscava abordar a restituição de vestimentas sagradas dos povos tupinambás, levadas para museus estrangeiros, e refletir sobre os impactos da colonização. O carro, composto por 93 integrantes vestidos de vermelho para simbolizar a morte de indígenas nesse processo histórico, gerou forte reação. Na nota, Dom Bertrand classificou a representação como um "ataque" à memória de seu antepassado, especialmente significativa neste ano em que se comemora o bicentenário do nascimento de Dom Pedro II, ocorrido em 2 de dezembro de 1825. Ele destacou o respeito do imperador pelas culturas indígenas, incluindo seu domínio da língua tupi-guarani, como evidência de um legado incompatível com a imagem de violência sugerida pela alegoria.
A Casa Imperial argumentou que a cena reflete não apenas uma distorção histórica, mas também uma "ignorância abismal" por parte dos idealizadores. "Além de ódio sanguinário, demonstra-se desconhecimento dos feitos de Dom Pedro II, um governante comprometido com o progresso e a dignidade do povo brasileiro", escreveu Dom Bertrand. A nota também questiona o uso de recursos públicos e patrocínios para financiar o que descreve como uma "revolução cultural" e a "desconstrução de padrões tradicionais".
A Acadêmicos do Tucuruvi, quinta escola a desfilar no sábado pelo Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, foi rebaixada após a apuração das notas. Até o momento, a agremiação não emitiu um posicionamento oficial sobre o repúdio da Casa Imperial. A representação, que buscava provocar reflexão sobre o passado colonial, acabou reacendendo debates sobre a forma como figuras históricas são retratadas e o equilíbrio entre liberdade artística e responsabilidade histórica.
O episódio expõe as tensões entre memória, cultura e interpretação histórica no Brasil contemporâneo, colocando em xeque os limites da narrativa carnavalesca diante de um legado nacional ainda em disputa.
Leia, na íntegra, a nota de repúdio: