
A média nacional costuma enganar.
Quando se fala em mercado de trabalho no Brasil, a taxa de desemprego aparece como se fosse a explicação central de tudo. Não é. Sozinha, ela não explica a falta de trabalhadores em algumas regiões, a informalidade crônica em outras, o número de jovens que não estudam nem trabalham, nem o contingente de pessoas fora da força de trabalho.
A própria apresentação desse quadro já mostra o tamanho da distorção. A taxa de desemprego nacional estava em 5,8%, mas o país real é outro: há regiões com desemprego de 13,8% e outras com taxas próximas de 1,5% a 2%. O mesmo Brasil reúne escassez de mão de obra de um lado e exclusão persistente do outro.
Esse é o primeiro problema da regra única nacional: olhar para uma média e achar que ela descreve o país inteiro.
O Rio Grande do Sul ajuda a entender isso com clareza. O problema gaúcho não parece ser o mesmo de outras partes do país. Ali, a dificuldade crescente está ligada à demografia. O estado envelhece, perde população jovem e vê parte relevante de sua população em idade ativa migrar, sobretudo para Santa Catarina e São Paulo. A própria apresentação mostra a saída de gaúchos em idade laboral, a redução do estoque de pessoas entre 15 e 60 anos e a concentração de crescimento em poucos espaços, como Serra Gaúcha, Litoral Norte e região metropolitana de Porto Alegre.
Esse quadro muda tudo.
Quando falta gente em idade de trabalhar, o mercado sente. Serviços ficam mais caros, empresas encontram mais dificuldade para contratar e o custo de expansão aumenta. O desafio deixa de ser apenas criar vaga. Passa a ser encontrar trabalhador, reter gente e adaptar cidades e empresas a uma população mais velha. Empresas gaúchas pagam mais caro por cada vaga aberta e veem o custo de operação subir à medida que a mão de obra qualificada escasseia.
São Paulo entra no debate por outro caminho.
O problema paulista não parece ser falta estrutural de gente nos mesmos termos do Rio Grande do Sul. O desafio tende a ser outro: escala, custo do crédito, mobilidade, qualificação, dificuldade de expansão das empresas e pressão crescente de uma economia mais complexa, intensiva em serviços e mais dependente de produtividade. Em outras palavras, São Paulo não pede a mesma resposta que o Rio Grande do Sul. O desafio aqui parece passar mais pela produtividade, pelo custo do crédito, pela mobilidade e pela capacidade de expansão de uma economia mais complexa.
A centralização da política nacional falha aqui.
A regra única imposta pelo governo federal insiste em tratar como iguais territórios que funcionam de formas diferentes. Mantém a mesma regra trabalhista, o mesmo desenho de incentivo, a mesma política de qualificação e a mesma lógica de assistência para realidades produtivas, culturais e demográficas completamente distintas.
Isso produz desequilíbrio entre escassez e abundância.
No Norte e no Nordeste, o desafio passa por informalidade alta, jovens “nem-nem”, grande contingente fora da força de trabalho e forte dependência de benefícios. Em partes do Sul, o desafio é envelhecimento, escassez de trabalhadores e reorganização do mercado diante da perda de população em idade ativa. Em São Paulo, a questão passa mais por produtividade, ambiente de negócios e capacidade de sustentar uma economia sofisticada sem travar a expansão.
A política uniforme embaralha o que já é um emaranhado de problemas.
É por isso que a saída passa por federalismo aplicado.
Estados e municípios precisam de mais margem para desenhar respostas conforme suas próprias realidades. Isso vale para formação profissional, atração de trabalhadores, ambiente de negócios, transporte, habitação, creches, assistência e desenvolvimento local. Um estado que envelhece precisa de uma estratégia. Um estado que expulsa jovens para a informalidade precisa de outra. Uma economia complexa que trava por custo e mobilidade precisa de outra ainda.
O Brasil tem vários mercados de trabalho. Continuar fingindo que uma política nacional única dará conta de todos eles é insistir no erro.
O problema não é que o Brasil tenha regiões diferentes. O problema é a regra única nacional continuar tratando realidades distintas como se fossem iguais. Enquanto isso, o custo de produzir, contratar e expandir segue subindo em todas as regiões.