
O cultivo de carinata, uma oleaginosa da família da canola originária da Etiópia, está transformando o agronegócio brasileiro, com projeção de alcançar 50 mil hectares plantados em 2025, ante 7 mil em 2024, segundo a Nufarm, líder no projeto de expansão no Brasil. Com 100% da produção contratada pela British Petroleum (BP) em parceria com a Nufarm, a carinata se destaca como matéria-prima para o Combustível Sustentável de Aviação (SAF), atendendo à meta global de neutralizar as emissões do setor aéreo até 2050. A cultura, que não compete com alimentos, oferece segurança financeira ao produtor e benefícios ambientais, mas enfrenta entraves regulatórios que precisam ser superados.
Em Chapadão do Sul (MS), o produtor Lauri Dalbosco, que cultiva carinata pelo segundo ano, comemora os resultados. “É uma cultura de fácil manejo, com mercado garantido e preço acima da soja. Além disso, melhora o solo para a próxima safra”, disse à Canal Rural. Com um ciclo de 120 dias, plantada entre abril e maio, a carinata atingiu produtividade média de 25 sacas por hectare em 2024, gerando lucro líquido de R$ 800/ha, segundo Philipp Minarelli, gerente de Carinata e Canola da Nufarm Brasil. O alto teor de ácido erúcico (38-42% de óleo) torna o grão ideal para SAF, com propriedades próximas ao querosene de aviação, sem exigir adaptações em motores ou infraestrutura.
A carinata é cultivada na entressafra, após a soja ou o milho, funcionando como cobertura vegetal que protege o solo contra erosão e recicla nutrientes com sua raiz pivotante de até dois metros. Estudos da Embrapa Agroenergia, liderados pelo pesquisador Bruno Laviola, mostram que a cultura controla nematoides, aumentando a produtividade da soja em até cinco sacas por hectare. “A carinata é sustentável e viável como segunda safra em regiões como Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Seu manejo é semelhante ao da canola, mas exige menos água que trigo ou milho”, afirmou Laviola à Globo Rural.
A Nufarm projeta que o Brasil, maior produtor mundial de carinata em 2025 com 100 mil toneladas (ante 10 mil em 2024), exportará para França e Bélgica, com planos de produzir bioquerosene localmente a partir de 2028. A construção de uma planta de SAF no Porto de Rio Grande (RS) deve impulsionar a demanda. No entanto, a Revista Oeste alerta que barreiras regulatórias, como a falta de zoneamento agrícola e registros de defensivos, travam a expansão. “O governo Lula precisa desburocratizar o agro para liberar o potencial da carinata. O setor não pode ser refém de entraves enquanto o mundo clama por sustentabilidade”, criticou um colunista.
Conservadores, como a Brasil Paralelo, veem na carinata uma chance de o Brasil liderar a transição energética global. “É uma cultura que une lucro, inovação e responsabilidade ambiental, mas exige liberdade econômica para crescer”, disse um analista. Com a demanda global por SAF estimada em 250 bilhões de litros até 2050, o Brasil, com seu clima favorável e expertise agrícola, pode se tornar a “Arábia Saudita dos biocombustíveis”, desde que supere a insegurança jurídica e a lentidão do governo.