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O VÉU DOS NÚMEROS

POR QUE O CRESCIMENTO DO PIB E A QUEDA DO DESEMPREGO NO BRASIL NÃO CONTAM A HISTÓRIA TODA

Maria Rosa M Pires
Por: Maria Rosa M Pires
07/04/2025 às 12h31
O VÉU DOS NÚMEROS
No início de 2025, o governo brasileiro anunciou com entusiasmo que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 3,4% em 2024, o maior salto desde 2021, enquanto a taxa de desemprego caiu para 6,8%, uma das mais baixas em anos. À primeira vista, os números sugerem um país em recuperação econômica, com mais empregos e prosperidade. Mas, para muitos analistas e cidadãos comuns, essas estatísticas são um espelho distorcido da realidade. Por trás dos dados oficiais, há uma narrativa menos otimista: o crescimento do PIB não reflete um aumento genuíno da riqueza da sociedade, e a redução do desemprego mascara uma dependência crescente de programas sociais, como o Bolsa Família, em vez de uma expansão real de oportunidades de trabalho. Vamos desmontar esses números, incluindo os dados reais sobre desemprego e o aumento alarmante de empresas pedindo falência ou fechando as portas, para que o brasileiro comum entenda o que está realmente acontecendo.
PIB: Um Crescimento de Fachada?
O PIB mede o valor total de bens e serviços produzidos no país em um ano — é como o termômetro da economia. Quando o governo diz que ele cresceu 3,4%, a impressão é de que o Brasil está mais rico, produzindo mais e avançando. Mas o diabo mora nos detalhes. Esse crescimento, segundo críticos, não vem de fábricas produzindo mais carros, fazendas colhendo mais soja ou empresas contratando mais funcionários. Ele vem, em grande parte, do bolso do próprio governo.
Imagine que você ganha um aumento no cartão de crédito e sai gastando em roupas, eletrodomésticos e viagens. Sua casa fica mais cheia de coisas, mas você não está mais rico — está apenas gastando dinheiro que não é exatamente seu. É mais ou menos isso que está acontecendo com o PIB brasileiro. Em 2024, o governo injetou bilhões de reais na economia por meio de gastos públicos, como transferências de renda (o Bolsa Família, por exemplo) e aumento de salários de servidores públicos. Esses gastos aquecem o consumo: as famílias compram mais no supermercado, as lojas vendem mais, e o PIB sobe. Mas isso não significa que a sociedade está produzindo mais riqueza de forma sustentável.
O problema é que esse "anabolizante econômico" tem um custo. O déficit primário — a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta, sem contar os juros da dívida — foi de 0,1% do PIB em 2024, mas só ficou baixo por causa de fatores temporários, como arrecadação extra e exclusão de gastos com desastres naturais do cálculo. Sem esses truques contábeis, o rombo seria maior. E a dívida pública, que já está em 76,5% do PIB, continua subindo. Isso é como financiar uma festa com empréstimos: a música toca alto agora, mas a conta chega depois.
Desemprego: Uma Ilusão de Progresso
O governo celebra que a taxa caiu para 6,8% em 2024, com 7,5 milhões de pessoas desocupadas, segundo o IBGE. Parece uma boa notícia, certo? Mas esses números não contam a história real. Primeiro, o desemprego — aquele que inclui quem desistiu de procurar trabalho ou está subempregado — é bem maior. Analistas independentes, com base em dados do próprio IBGE e outras pesquisas, estimam que a taxa de subutilização da força de trabalho, que soma os desocupados, os subempregados e os desencorajados, chegou a cerca de 16% em 2024, afetando aproximadamente 17 milhões de brasileiros. Isso significa que, enquanto o governo diz que só 6,8% estão desempregados, na verdade mais que o dobro da população economicamente ativa está em situação precária.
Além disso, muitos dos "empregados" registrados pelo IBGE não estão em empregos formais ou produtivos. O Bolsa Família e outros programas sociais, que beneficiam cerca de 21 milhões de famílias (quase 50 milhões de pessoas), muitas vezes são usados para inflar os números. Quem recebe esses auxílios não é contado como desempregado, mesmo que não tenha uma fonte real de renda. É como dizer que alguém está "empregado" porque recebe um vale da prefeitura — não é trabalho, é assistência social.
Empresas em Crise: Falências e Fechamentos em Alta
Se a economia estivesse tão robusta quanto o governo sugere, as empresas estariam prosperando, certo? Mas os números mostram o contrário. Em 2024, 2.273 empresas pediram proteção judicial contra falência, um aumento de 61,8% em relação a 2023, segundo a Serasa Experian. Isso é um recorde histórico, superando até a crise de 2016. Só em dezembro de 2024, o Brasil perdeu 545.500 postos de trabalho formais, o pior resultado desde o início da série histórica do Caged. Micro e pequenas empresas, que representam 73,7% dos pedidos de recuperação judicial, foram as mais atingidas, com um salto de 78,4% em relação ao ano anterior.
Os fechamentos também impressionam. Entre janeiro e abril de 2023, 736.977 empresas já haviam encerrado as atividades, e o ritmo não desacelerou. Em 2024, setores como serviços (41% dos pedidos de falência), varejo e agronegócio (295 empresas em recuperação judicial no último trimestre) foram duramente impactados. Nomes grandes como Americanas, Oi, Bombril e Agrogalaxy estão na lista, com dívidas que somam bilhões. A combinação de juros altos (Selic a 14,25%), crédito escasso e queda no consumo está sufocando os negócios. Especialistas preveem que 2025 será ainda pior, com mais falências e demissões à vista.
O Que Isso Significa para o Brasileiro Comum?
Para quem está no dia a dia, esses números oficiais podem parecer distantes. Mas o impacto é real: o pão na padaria sobe de preço porque a inflação, apesar de "controlada" em 5,06%, corrói o salário. O emprego que aparece nas estatísticas pode ser um bico informal, sem carteira assinada ou direitos. E quando uma empresa fecha as portas — seja a lojinha da esquina ou uma gigante como a Polishop —, são famílias inteiras que perdem sua renda.
O crescimento do PIB e a queda do desemprego alardeados pelo governo são como uma maquiagem que escondem as rugas de uma economia que depende de gastos públicos e assistencialismo, não de produção ou inovação. Enquanto o governo festeja, a dívida cresce, as empresas quebram e milhões de brasileiros seguem sem perspectiva de um futuro melhor. A realidade é dura, mas entendê-la é o primeiro passo para cobrar mudanças de verdade.
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