Um desastre que silenciou as armas – mas por quanto tempo?
Na sexta-feira, 28 de março de 2025, um terremoto de magnitude 7.7 abalou Mianmar, com epicentro a apenas 16 km de Mandalay, a segunda maior cidade do país. O tremor, o mais forte em um século na região, deixou um rastro de destruição. Até 3 de abril, a junta militar reporta mais de 3.840 mortos e 4.760 feridos, segundo a mídia estatal MRTV, mas estimativas do Serviço Geológico dos EUA (USGS) sugerem que o número de vítimas fatais pode ultrapassar 10 mil à medida que os escombros são vasculhados.
Imagens de Mandalay, outrora a "cidade de ouro" com seus pagodes reluzentes, mostram bairros inteiros reduzidos a pilhas de destroços, um contraste brutal com sua história como coração budista do país. "É o pior tremor que já vi", relata Aung, um morador local, à BBC. "Casas desabaram como castelos de cartas, e o cheiro de morte está por toda parte."
A tragédia forçou uma pausa nos combates que há quatro anos opõem a junta militar a grupos rebeldes. A junta declarou um cessar-fogo temporário, uma medida rara em um conflito que já deslocou 3,6 milhões de pessoas – quase metade delas na região de Mandalay e Sagaing, a mais afetada pelo terremoto.
"Resgatar sobreviventes virou prioridade", diz um oficial militar à Reuters. Mas a desconfiança reina - "A junta quer projetar controle, mas os rebeldes não vão ceder terreno", analisa Thiago Moreira, pesquisador de conflitos na Ásia da Universidade de São Paulo. O cessar-fogo, dizem especialistas, é uma trégua de conveniência, não de paz – as armas podem voltar a falar assim que as sirenes de resgate silenciarem.
Os impactos econômicos agravam uma crise já insustentável. Mianmar, que antes do golpe de 2021 tinha um PIB per capita de apenas US$ 1.400, viu sua economia encolher 20% nos últimos quatro anos devido à guerra civil e sanções internacionais. O terremoto agora ameaça empurrar o país ainda mais para o abismo. Em Mandalay, centro comercial e turístico, a destruição de infraestrutura – como a ponte Sagaing, que ligava a cidade ao interior, e trechos da rodovia para Yangon – paralisa o transporte de bens essenciais. "Perdemos tudo: estradas, mercados, hospitais", lamenta Htet Min Oo, um sobrevivente, à Reuters. O USGS estima perdas econômicas superiores a US$ 10 bilhões, um valor que excede a produção anual de Mianmar, já fragilizada por combates e falta de investimento.
A ajuda internacional chega lentamente, limitada pela guerra e pela repressão da junta, que controla o fluxo de informações e acesso. China e Índia enviaram equipes de resgate e suprimentos, mas em Mandalay, onde hospitais estão lotados e sem energia, pacientes são tratados ao relento. "Faltam água, comida e remédios", alerta a ONU, que estima que 1,5 milhão de pessoas na região precisam de assistência urgente. Para uma nação onde 40% da população já vivia abaixo da linha da pobreza antes do quake, o desastre é um golpe quase fatal. Pequenos comerciantes, como os ourives que faziam de Mandalay um polo de ouro, veem seus meios de subsistência soterrados, enquanto agricultores temem colheitas perdidas em áreas rurais devastadas.
Em meio à destruição, uma pergunta paira no ar: será que a natureza conseguiu o que a diplomacia não pôde? Por ora, o silêncio das armas é ensurdecedor, mas frágil. A trégua pode ter unido inimigos na busca por sobreviventes, mas o futuro de Mianmar permanece tão instável quanto o chão que ainda treme com réplicas. Para um povo já calejado por guerra, repressão e miséria, o terremoto é mais que uma catástrofe natural – é um teste de resiliência que poucos acreditam que o país, ou sua economia, possam suportar.