Tarifas duras, erros do governo e o preço nas prateleiras
Donald Trump não perdeu tempo. Empossado em 2025, ele sacou a arma das tarifas pesadas contra China, Japão e União Europeia, medidas que entram em vigor em 4 de abril. O Brasil, pego no fogo cruzado, corre contra o relógio para negociar com a Casa Branca, mas o horizonte já escurece. "Estamos na mira", alerta o economista Bruno Corano, da USP. Se as exportações de aço, soja e carne – pilares da nossa economia – forem atingidas, o real, que já perdeu 12% de valor em 2024, pode despencar ainda mais, jogando o país numa tempestade perfeita.
A estratégia de Trump é cristalina: fortalecer os EUA, nem que seja pisando nos outros. Mas o Brasil, vulnerável como nunca, sente o peso de anos de má gestão econômica.
O governo brasileiro, criticado por analistas por sua lentidão em diversificar a economia e por apostar todas as fichas em commodities, agora colhe os frutos de uma política míope. "Dependemos demais dos EUA e da China, e não temos plano B", dispara Maria Fernanda, da FGV. Em 2024, o país exportou US$ 31 bilhões para os EUA, mas a falta de acordos robustos e a demora em abrir novos mercados deixaram o Brasil de mãos atadas. Enquanto Trump aperta o cerco, China e UE prometem retaliar – e nós, no meio do tiroteio, viramos peões num jogo de xadrez que não controlamos.
Para o brasileiro comum, o impacto é cruel e imediato. Se as exportações caírem, a receita em dólar encolhe, o câmbio dispara e tudo fica mais caro, do pão na padaria, que depende de trigo importado, ao combustível na bomba, já que o petróleo segue o humor global. "O governo errou feio ao não blindar a economia", diz Corano. "Gastamos anos com promessas de ajuste fiscal que nunca vieram, e agora o consumidor paga a conta."
Em 2024, a inflação já fechou em 6,8%, e especialistas preveem que as tarifas de Trump podem empurrá-la para dois dígitos em 2025. Some a isso o desemprego, que teima em rondar os 8%, e o cenário é de um bolso espremido, com menos poder de compra, mais filas nos mercados e um governo que parece assistir de camarote.
Até onde vai essa guerra comercial, e quem sai ganhando? Para Trump, é uma aposta de alto risco que pode render votos em casa. Para o Brasil, é uma lição amarga, pois sem uma política econômica séria, o preço da inação recai sobre o trabalhador, a dona de casa e o pequeno empresário. "Estamos reféns de decisões alheias porque não fizemos o dever de casa", resume Maria Fernanda. Enquanto o Planalto negocia às pressas, o brasileiro já sabe que o próximo aumento na prateleira não vem com aviso prévio.