Por que o conflito reacendeu e o que está em jogo?
Na madrugada de 3 de abril de 2025, o silêncio da Síria foi quebrado pelo rugido de caças e explosões. Israel lançou ataques aéreos contra bases militares, matando militantes armados e reacendendo um conflito que parecia adormecido desde o cessar-fogo de novembro de 2024. O estopim foi um ataque surpresa em Beirute, o primeiro desde a trégua, que lançou uma sombra de incerteza sobre a frágil estabilidade regional. Fontes locais afirmam que os alvos eram posições ligadas a grupos apoiados pelo Irã, como o Hezbollah, mas Damasco classificou a ofensiva como "agressão injustificada", prometendo retaliação.
A região, um caldeirão de instabilidade há décadas, agora balança no fio da navalha. Os ataques não são um evento isolado, eles ecoam uma estratégia israelense de neutralizar ameaças antes que se consolidem, especialmente vindas de proxies iranianos que operam na Síria e no Líbano. "Israel quer mostrar que ninguém está fora do alcance", explica Fernando Brancoli, analista da UFRJ. "É uma mensagem para Teerã e seus aliados, de que qualquer movimento será respondido com força." Mas o custo humano é alto. Civis sírios, já exaustos por anos de guerra civil, relatam noites sem dormir, enquanto hospitais improvisados lutam para atender os feridos. A ONU, mais uma vez, tenta mediar, mas suas resoluções parecem se dissolver no ar quente do deserto.
O que está em jogo vai além de bases militares ou retórica inflamada. Para Israel, cercado por nações que historicamente rejeitam sua existência – muitas vezes motivadas por uma animosidade profunda contra os judeus, enraizada em disputas territoriais, religiosas e políticas desde 1948 –, cada ataque é uma questão de sobrevivência. Se o Hezbollah ou o Irã ganharem terreno na Síria, foguetes podem chover sobre Tel Aviv em questão de minutos. Mas o risco é bidirecional. Uma escalada pode arrastar o Líbano, já à beira do colapso, e até o Irã para um confronto aberto, com consequências globais devastadoras – petróleo a preços estratosféricos, rotas comerciais do Golfo bloqueadas e uma crise de refugiados que faria 2015 parecer um ensaio. "Israel sabe que é um alvo eterno na região", diz Brancoli. "Mas ao flexionar músculos, também provoca inimigos que não esquecem."
Será este o início de uma nova guerra regional ou apenas mais um capítulo de uma história sem fim?
Para os otimistas, é uma demonstração de força que pode restaurar a dissuasão. Para os realistas, é o tamborilar de uma marcha rumo ao caos, onde o ódio histórico, o petróleo e o poder decidem o próximo ato.
Num tabuleiro onde Israel é tanto jogador quanto peça vulnerável, o mundo prende a respiração – porque, aqui, o próximo movimento pode não ter volta.