
Entre a Colômbia e o Panamá, a selva de Darién é um corredor perigoso que milhares de migrantes cruzam todos os anos. Apesar dos números impressionantes, a crise humanitária na região não ganha os holofotes que merece. Relatórios da Human Rights Watch (HRW) mostram que, em 2023, mais de 520 mil pessoas enfrentaram o terreno hostil de 575 mil hectares, o dobro do registrado em 2022. Até outubro de 2024, o Serviço Nacional de Migração do Panamá contou 400 mil travessias, e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) prevê que 2025 pode bater novos recordes.
A travessia é marcada por riscos reais: rios traiçoeiros, animais selvagens e grupos criminosos como o Clã do Golfo, que exploram os migrantes, segundo a HRW. A Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta para a falta de ajuda suficiente, com casos de violência sexual — 16 por dia em média em fevereiro de 2024 — e mortes que muitas vezes não entram nas estatísticas. Mesmo assim, a cobertura global fica aquém, ofuscada por crises como a do Mediterrâneo, conforme apontou a BBC em agosto de 2023.
Quem atravessa e por quê?
O perfil dos migrantes é variado. Venezuelanos lideram, com 60% do total em 2023, de acordo com a OIM, seguidos por haitianos, equatorianos e até pessoas da China e do Afeganistão. Crianças são 20% do grupo, muitas sozinhas, enfrentando doenças e abusos, conforme dados da UNICEF. Em 2024, até meados do ano, 80 mil menores cruzaram a selva, 33% a mais que no mesmo período de 2023. Entre os haitianos, destaca-se um grupo que viveu no Brasil e no Chile após o terremoto de 2010 no Haiti. A crise econômica os empurrou rumo aos Estados Unidos, levando-os ao Darién.
Impactos locais e o caso dos filhos brasileiros
Nas aldeias do Darién, como as dos indígenas Emberá-Wounaan, a chegada constante de migrantes pressiona recursos e traz tensões com grupos armados, relata a HRW. O Panamá adota uma política de "fluxo controlado", enviando os migrantes à Costa Rica rapidamente, mas a Colômbia pouco atua na origem do problema. Enquanto isso, haitianos com filhos nascidos no Brasil — mais de 15,7 mil menores desde 2020, segundo a Folha de S.Paulo — seguem em busca de asilo nos EUA. Muitos ficam presos no México, em cidades como Tapachula, onde o ACNUR registra dezenas de milhares em condições difíceis. Em 2025, deportações mais rápidas nos EUA, noticiadas recentemente, complicam ainda mais a situação.
Por que o silêncio?
Três fatores explicam a pouca visibilidade, segundo especialistas. Primeiro, a selva é isolada, dificultando o trabalho de jornalistas e ONGs — a MSF, por exemplo, teve operações suspensas no Panamá em 2024. Segundo, a atenção mundial se volta a conflitos mais midiáticos, como na Ucrânia, diz a BBC. Terceiro, falta coordenação entre países, apesar de apelos como o do Papa Francisco, que chamou o Darién de "tragédia humanitária" em 2023, registrados pela OIM e pelo ACNUR.
A selva de Darién segue como um grito abafado. Sem rotas seguras ou mais ajuda, o problema cresce, conectando Colômbia, Panamá, México e além. Os números estão aí, mas as manchetes ainda não.