
Se Nelson Rodrigues estivesse entre nós hoje, certamente caminharia pela Avenida Paulista ou pelo centro do Rio, observando o desfile de almas como quem lê um romance tragicômico. Com seu olhar penetrante, ele veria, além das fachadas de vidro e dos rostos apressados, as hipocrisias, os desejos inconfessáveis e as tragédias cotidianas que permeiam a vida. Afinal, Nelson não era apenas um dramaturgo; era um cronista das verdades mais incômodas da alma humana.
Autor de obras como “Vestido de Noiva”, “Bonitinha, mas Ordinária” e “Toda Nudez Será Castigada”, Nelson destrinchou as camadas da sociedade brasileira, expondo seus vícios, tabus e contradições. Em “Vestido de Noiva”, ele introduziu uma dramaturgia inovadora ao misturar presente, passado e a mente de uma mulher em coma, mostrando que a verdade está em um emaranhado de percepções. Já em “Bonitinha, mas Ordinária”, escancarou o dilema entre moralidade e desejo, revelando que o certo e o errado, muitas vezes, se confundem. E em “Toda Nudez Será Castigada”, desnudou as repressões e hipocrisias da sexualidade, mostrando que os castigos vêm mais da sociedade do que da transgressão em si.
As lições dessas obras são claras: a vida é feita de máscaras, mas Nelson nos desafia a encará-las e, se possível, arrancá-las. Ele nos lembra que o humano é contraditório por natureza, movido por paixões, culpas e delírios que desafiam qualquer convenção social.
Mas talvez uma de suas contribuições mais icônicas ao vocabulário nacional seja o conceito de “cretino fundamental”. Para Nelson, o cretino fundamental não é simplesmente um ignorante, mas alguém cuja estupidez é adornada com autoconfiança. Ele fala, age e julga com a certeza inabalável de quem acha que detém a verdade, sem nunca questionar a si mesmo.
E aí está a grande sacada: o cretino fundamental sobreviveu e prosperou na contemporaneidade. Ele está nas redes sociais, nos debates rasos transformados em “verdades absolutas”, no uso de frases feitas para encobrir a falta de profundidade. É o comentarista de internet que opina sobre tudo sem ler nada, o político que simplifica questões complexas, o moralista que condena os outros enquanto ignora as próprias falhas.
Se Nelson Rodrigues tivesse um perfil no Instagram hoje, suas frases sobre a hipocrisia, o desejo e a tragédia humana seriam repostadas como legendas filosóficas por pessoas que talvez não entendessem o quanto ele as descrevia. Ele continuaria a rir desse teatro humano, pois sabia que a essência da vida — e da arte — está em reconhecer que somos, todos nós, personagens trágicos em busca de sentido.
E quem somos, afinal? Somos os nossos desejos, os nossos medos e as nossas contradições. Somos a soma de máscaras que tentamos sustentar e das verdades que lutamos para esconder. Somos, ao mesmo tempo, o autor e o espectador de nossa própria tragédia — e talvez, como Nelson nos ensinou, só nos tornemos verdadeiramente humanos quando tivermos coragem de encarar nossas falhas e rir delas.
Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista Político e Analista de Política
Porto Alegre 20/1/2025