
A Argentina e os Estados Unidos formalizaram na segunda-feira (1º de dezembro) um acordo de cooperação para intensificar a luta contra o crime organizado transnacional, com foco no narcotráfico e na lavagem de dinheiro. O Memorando de Entendimento foi assinado pela saliente ministra da Segurança argentina, Patricia Bullrich, e pelo embaixador norte-americano em Buenos Aires, Peter Lamelas, marcando a incorporação de um representante da Polícia Federal Argentina à El Dorado Task Force, uma força-tarefa sediada em Nova York.
A El Dorado Task Force é um grupo de trabalho multinacional, integrado por agências como o Departamento de Segurança Interna (DHS), o Departamento de Justiça (DOJ) e o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) dos EUA. O objetivo é fortalecer investigações conjuntas sobre redes criminosas que operam na América Latina, rastreando fluxos financeiros ilícitos oriundos do tráfico de drogas e outros delitos. "Esta colaboração fortalecerá os esforços da Argentina e dos Estados Unidos para investigar organizações criminosas envolvidas na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico e outros crimes", afirmou a Embaixada dos EUA em postagem na rede X.
A reunião entre Bullrich e Lamelas, que contou com a presença da futura ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, definiu novas linhas de cooperação, incluindo a troca de inteligência, treinamento conjunto e operações coordenadas. Do lado argentino, o Ministério da Segurança destacou o acordo como parte de uma "doutrina clara: Lei e Ordem", enfatizando o combate a organizações que ameaçam a estabilidade regional. A iniciativa avança discussões iniciadas em 2024, quando Bullrich se reuniu com a Homeland Security Investigations (HSI) para alinhar estratégias bilaterais.
O acordo ocorre em um contexto de crescente preocupação com o crime organizado na América do Sul. A Argentina, vizinha do Brasil – epicentro de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) –, reforçou patrulhamento em fronteiras e já classifica esses grupos como terroristas desde maio de 2025. Nos EUA, sob o governo Trump, há pressão para designar cartéis latino-americanos como organizações terroristas estrangeiras, o que facilitaria sanções e ações militares, como discutido em negociações com México, Colômbia e Venezuela. Analistas apontam que a parceria pode estender-se a rastreamento de rotas de drogas para o Norte, com impacto em fluxos que afetam a segurança pública dos dois países.
Especialistas em segurança, como o pesquisador Benjamin Lessing, da Universidade da Califórnia, veem o memorando como um passo pragmático, mas alertam para o risco de sobreposição entre crime organizado e terrorismo. "É um fenômeno recente na América Latina classificar gangues como terroristas, mas isso pode legitimar intervenções mais agressivas", comentou Lessing em entrevista recente à BBC. No Brasil, o tema ganha relevância: o PL 1.283/2025, que equipara facções a terroristas, avança no Congresso, mas enfrenta resistência do governo Lula, que rejeita a equiparação por diferenciar crime lucrativo de atos políticos.
O acordo entra em vigor imediato e prevê avaliações anuais de resultados. Para Bullrich, é um marco na transição para o novo governo Milei, que prioriza alinhamento com Washington em temas de segurança. A Embaixada dos EUA celebrou o pacto como "um passo adiante na aliança contra o crime transnacional", enquanto fontes argentinas estimam que operações conjuntas possam desmantelar redes que movimentam bilhões em lavagem de ativos.