
Uma revelação polêmica veio à tona nesta segunda-feira (1º), jogando lenha na fogueira das investigações sobre o Banco Master: a desembargadora Solange Salgado da Silva, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que revogou a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro na semana passada, foi defendida no passado pelo mesmo escritório de advocacia que representa o executivo hoje. A conexão levanta graves suspeitas de conflito de interesses e questiona a imparcialidade de decisões judiciais em casos sensíveis de fraudes financeiras.
Tudo começou com a Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 17 de novembro, que prendeu Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos (SP) enquanto ele tentava embarcar para Dubai – supostamente para fechar negócios relacionados à venda do banco. A investigação apura um suposto esquema de fraudes contra o sistema financeiro nacional, com créditos falsos que movimentaram cerca de R$ 12 bilhões, incluindo irregularidades na tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB), ligado ao governo do Distrito Federal. Além de Vorcaro, outros quatro executivos – Augusto Ferreira Lima, Luiz Antônio Bull, Alberto Felix de Oliveira Neto e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva – foram detidos na ação.
Inicialmente, a própria desembargadora Salgado negou um habeas corpus em 20 de novembro, citando indícios robustos de gestão fraudulenta e organização criminosa. No entanto, na sexta-feira (28), ela reconsiderou a decisão, concedendo liberdade aos investigados com medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, proibição de contato entre si e suspensão de atividades financeiras. "Não mais subsistem os requisitos para a manutenção da prisão preventiva", justificou a magistrada, com base em "fatos novos" apresentados pela defesa. Vorcaro deixou o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos no dia seguinte, mas o alívio durou pouco: a Procuradoria Regional da República da 1ª Região recorreu, alegando risco de continuação de atividades ilícitas.
Foi nesse contexto que surgiu a bomba. Documentos revelam que, em 2010, Solange Salgado enfrentou acusações graves de fraude na Associação dos Juízes Federais da 1ª Região (Ajufer). Uma auditoria interna identificou 45 empréstimos simulados junto à Fundação Habitacional do Exército (FHE/Poupex), totalizando R$ 6 milhões, com contratos fraudulentos e uso indevido de dados de colegas juízes. Quarenta magistrados pediram investigação disciplinar, e a desembargadora – então presidente da entidade – foi denunciada por cinco crimes, incluindo gestão fraudulenta, o mesmo delito imputado agora a Vorcaro.
Quem assumiu a defesa dela? O escritório Bottini & Tamasauskas Advogados, liderado por Pierpaolo Cruz Bottini. E o mais grave: dois advogados do mesmo escritório, incluindo Bottini, integram atualmente a equipe que representa Vorcaro no caso do Banco Master. A conexão temporal e profissional é inegável, e fontes jurídicas consultadas apontam para um possível viés: como uma juíza que já precisou de auxílio do mesmo time de advogados poderia julgar com total isenção um cliente deles em um crime similar?
O episódio não é isolado no histórico de Salgado. Em 2011, o então corregedor do TRF-1, desembargador Cândido Ribeiro, instaurou processo administrativo contra ela por "contratos classificados como fraudulentos". As acusações, embora não tenham resultado em condenação criminal, permanecem como mancha em seu currículo funcional. Críticos veem nisso um padrão preocupante: decisões que beneficiam investigados em esquemas financeiros, ecoando as próprias sombras do passado da magistrada.
A defesa de Vorcaro nega qualquer irregularidade, afirmando que a soltura se baseou em "premissas incorretas" da PF e que não há fraude de R$ 12 bilhões – apenas "fatos inexistentes". Já o Banco Central, que decretou a liquidação extrajudicial do Master, afastou ameaças sistêmicas, mas mantém a apuração. A Procuradoria-Geral da República e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) foram acionados por entidades da sociedade civil para investigar o suposto conflito, exigindo a redistribuição do caso a outro relator.
Para especialistas em direito processual, o caso expõe fragilidades no sistema: tratados internacionais e normas éticas demandam transparência absoluta em conexões como essa. Sem ela, a confiança no Judiciário – já abalada por episódios recentes – corre o risco de ruir ainda mais. O desfecho pode chegar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde um pedido de liberdade de Vorcaro ainda pende de análise. Até lá, o Brasil assiste a mais um round de um jogo onde interesses privados e públicos se entrelaçam perigosamente.