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A GLOBO E O ESPELHO HIPNÓTICO

QUANDO A VERDADE VIRA NARRATIVA

Rodrigo Schirmer Magalhães
Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
21/09/2025 às 20h24
A GLOBO E O ESPELHO HIPNÓTICO

 Dias atrás, sentado na sala de espera de um consultório médico, fui obrigado a assistir à Rede Globo. Há anos não tenho o hábito de ligar a televisão aberta, e a experiência foi como encarar uma velha máquina que nunca parou de funcionar. Não me chamou a atenção o conteúdo imediato, mas a forma como tudo estava organizado: o enquadramento das notícias, a escolha das palavras, as expressões faciais dos apresentadores, a música de fundo, os cortes de câmera, até a paleta de cores. Era como ver uma engrenagem de manipulação em movimento, uma espécie de ritual hipnótico. E lembrei imediatamente do que Walter Lippmann e Edward Bernays escreveram há quase um século.

Lippmann, em Opinião Pública (1922), afirmava: “As pessoas vivem em um mundo que não conseguem ver, compreender ou tocar, mas que lhes é apresentado por meio de símbolos artificiais.” A televisão não mostra a realidade, mas imagens cuidadosamente construídas da realidade. Bernays, em Propaganda (1928), complementa: “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões das massas é um elemento importante da sociedade democrática.” O que vi na tela da Globo era exatamente isso: manipulação consciente, mas disfarçada de jornalismo imparcial.

Esse mecanismo ficou ainda mais claro durante a pandemia de covid-19. A cada edição do Jornal Nacional, o enquadramento era sempre o mesmo: Bolsonaro era o vilão. Quando ele defendia a liberdade do trabalhador para manter seu sustento, a Globo enquadrava como “negacionismo”. Quando pedia cautela com medidas autoritárias, era taxado de “inimigo da ciência”. O uso da cloroquina virou um espetáculo: ridicularizado diariamente, mesmo quando diversos estudos internacionais ainda estavam em andamento. Já figuras como Mandetta ou governadores alinhados à Globo eram tratados como estadistas, sempre com aura de racionalidade e responsabilidade.

Os números de mortos eram apresentados em contadores dramáticos, acompanhados de imagens de caixões, covas abertas e famílias em pranto. Era a técnica do choque emocional: não bastava informar, era preciso induzir indignação seletiva. Quando hospitais de cidades governadas por aliados da Globo entravam em colapso, a ênfase era no “caos global da pandemia”; quando o problema ocorria em estados governados por adversários de Bolsonaro, a culpa era personalizada no presidente. Nenhuma análise estrutural, nenhum equilíbrio na atribuição de responsabilidades. O framing era sempre: “Bolsonaro mata, a ciência salva.”

Esse tipo de narrativa lembra muito o que Orwell descreveu em 1984: “Se todos aceitassem a mentira imposta pelo Partido, se todos os registros contassem a mesma história, a mentira passava a ser história e, assim, se tornava verdade.” Durante a pandemia, a Globo transformou cada edição em um tribunal diário contra Bolsonaro, martelando a mesma história até que se tornasse a versão “oficial” dos fatos.

Mas esse poder não se limita à pandemia. Ele atravessa décadas de manipulação. No debate entre Lula e Collor em 1989, a edição do Jornal Nacional distorceu a percepção dos telespectadores e ajudou a definir a eleição. No impeachment de Collor, deu palco às “caras-pintadas”, transformando jovens em ícones de uma narrativa moral. Na Lava Jato, elevou Sérgio Moro à condição de herói, para depois descartá-lo quando o jogo mudou. A engrenagem é sempre a mesma: fabricar consensos convenientes.

Esse método não atua na razão, mas no inconsciente. Jung falava de arquétipos que habitam o inconsciente coletivo; Pavlov mostrou que respostas emocionais podem ser condicionadas por estímulos repetidos; Fromm descreveu em O Medo à Liberdade a tendência das pessoas a buscar modelos prontos para não encarar o peso da autonomia. A Globo sintetiza tudo isso: apresenta arquétipos (o “líder autoritário”, o “cientista responsável”, o “cidadão consciente”), reforça respostas automáticas (palavras como “retrocesso” ou “extremismo” já carregam rejeição) e entrega modelos de comportamento prontos (o espectador é ensinado a pensar, a sentir, a se indignar ou aplaudir).

No Brasil, esse poder se torna ainda mais devastador. Somos um país de analfabetos funcionais e semi letrados. Milhões não têm acesso à internet, TV a cabo ou qualquer meio alternativo. Para eles, a Globo é a única janela para o mundo. Mas mesmo quem usa celular e redes sociais não está livre: falta formação crítica para buscar fontes diversas. As bolhas digitais fragmentam, mas não libertam. No momento decisivo de formar uma opinião, muitos recorrem inevitavelmente à “versão oficial” da mídia tradicional. Assim, a Globo continua moldando o pensamento da massa inteira, enquanto as redes sociais atingem apenas nichos.

Não é por acaso que o dramaturgo Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. O que temos no Brasil é a tentativa de fabricar unanimidade: uma só narrativa, repetida até parecer inevitável. O sociólogo Jessé Souza tem insistido que as elites brasileiras manipulam símbolos para manter as classes populares em posição submissa, criando consensos falsos. Já Gustavo Barroso, décadas atrás, denunciava como a grande imprensa atuava a serviço do capital financeiro internacional, funcionando mais como ferramenta de colonização cultural do que como veículo de informação. Essas críticas, cada uma a seu modo, convergem para o mesmo ponto: a mídia tradicional não apenas informa, mas molda consciências de acordo com os interesses de quem a financia.

E é impossível não lembrar da frase atribuída a Orwell, que resume o ciclo perverso: “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.” No Brasil, a Globo encarna esse ciclo. A massa consome seus símbolos, reforça seu poder econômico e político, e, em troca, recebe uma narrativa cuidadosamente construída para manter tudo como está.

Sair daquela sala de espera me deixou a sensação de que resistir à televisão aberta não é apenas uma opção pessoal, mas um ato de sobrevivência mental. Porque o que a Globo faz não é jornalismo, é engenharia social. E enquanto o brasileiro médio não despertar para essa engrenagem, continuará prisioneiro de uma narrativa única, que não nasce do interesse público, mas da conveniência dos mesmos grupos que sempre controlaram o país.

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Dirceu AntunesHá 11 meses BrightonParabéns Rodrigo, ontem à noite comentava à minha esposa que ia pais dela em Caxias do Sul deixaram de ver 100 à Globo porque ela ensinou à ver Auriverde e outros canais alternativos no youtube. Vc deveria fazer vídeos narrativos com teus maravilhosos texto já lhe disse. Tenta, tenta e faz Fight , fight and fight. Vc fez algum sobre Charlie Kirk? Abraços Deus abençoe
André Há 11 meses Joinville Muito bom
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Rodrigo Schirmer Magalhães
Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) e um dos fundadores do canal GUERRA da INFORMAÇĀO.
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