
A informação nunca foi neutra. Desde o início do século XX, teóricos como Walter Lippmann e Edward Bernays já denunciavam que os meios de comunicação não apenas transmitem fatos, mas moldam percepções, estruturam narrativas e constroem uma versão aceitável da realidade. Para Lippmann, em Opinião Pública (1922), vivemos em um mundo mediado por “pseudoambientes” — imagens mentais fabricadas pela mídia e pelo discurso político, que filtram e distorcem a realidade bruta. Ele alerta: “A ilusão é, para muitos, mais real que a realidade.”
Já Bernays, em Propaganda (1928), descreve como as elites, conscientes dos mecanismos psicológicos do inconsciente coletivo, utilizam a comunicação como engenharia social, conduzindo massas inteiras sem que estas percebam a manipulação: “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizadas das massas é um elemento importante na sociedade democrática.”
Essa arquitetura da persuasão sempre esteve a serviço de interesses específicos. Governos, partidos e corporações compreenderam cedo que controlar a narrativa é mais eficaz do que controlar diretamente as pessoas. Como resumiu George Orwell décadas depois: “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”
O Império da Comunicação no Brasil: um histórico de manipulação
No Brasil, a manipulação ideológica pela mídia tem longa trajetória. Desde o Império, jornais eram instrumentos de disputa política entre monarquistas e republicanos, atuando como verdadeiros panfletos ideológicos.
Na República Velha (1889–1930), a chamada “imprensa de aluguel” servia a oligarquias regionais, moldando manchetes conforme interesses dos coronéis. Notícias não eram apenas filtradas — eram fabricadas para sustentar estruturas de poder.
Durante o Estado Novo (1937–1945), Getúlio Vargas criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que controlava o conteúdo dos jornais, rádios e cinemas, promovendo sua imagem como “pai dos pobres” e censurando adversários. Como lembrou Sérgio Buarque de Holanda, o Brasil sempre teve dificuldade de separar “o público do privado”, e Vargas explorou isso com maestria política e comunicacional.
No regime militar (1964–1985), a censura formal e o alinhamento de grandes grupos de mídia — como a Rede Globo, que se beneficiou de concessões e apoio estatal — garantiram a difusão da narrativa oficial, especialmente após o AI-5. Um episódio marcante foi a edição do debate entre Lula e Collor em 1989, quando o Jornal Nacional apresentou um recorte que favoreceu Collor, influenciando o voto de milhões de brasileiros.
Na redemocratização, a grande imprensa teve papel decisivo nas Diretas Já (1984): inicialmente resistente, aderiu à causa quando se tornou inevitável politicamente. No impeachment de Collor (1992), a atuação de veículos como a Folha de S.Paulo e a revista Veja foi central na denúncia do “Esquema PC”.
Durante os governos petistas, conglomerados como Globo, Estadão e Veja tiveram atuação ambígua: criticando escândalos como Mensalão e Petrolão, mas também se beneficiando de verbas publicitárias milionárias. No impeachment de Dilma Rousseff (2016), a cobertura intensiva da crise econômica e das manifestações de rua consolidou a perda de legitimidade da presidente.
Nos anos de Lula e Bolsonaro, a guerra de narrativas atingiu seu auge. Lula, historicamente, sempre contou com um tratamento preferencial da grande mídia, sofrendo apenas períodos pontuais de crítica, geralmente quando a pressão popular ou a gravidade dos escândalos tornava impossível o silêncio. Já Bolsonaro foi, de forma sistemática, alvo de ataques incisivos da mídia e enfrentou uma pressão inédita do Judiciário, numa combinação de cobertura negativa intensa e ações institucionais que moldaram o cenário político em torno de sua figura. A pandemia e as eleições de 2022 evidenciaram um ambiente informativo completamente polarizado, em que fatos eram secundários diante da necessidade de sustentar a “versão” de cada lado.
A virada digital e o novo campo de batalha
A chegada das redes sociais parecia prometer um rompimento com o monopólio narrativo da mídia tradicional. Pela primeira vez, indivíduos e grupos poderiam difundir ideias sem depender de jornais ou canais de TV. A chamada “direita brasileira” percebeu uma brecha e a ocupou com força: YouTube, Instagram, Facebook e Twitter se tornaram trincheiras digitais para difundir pautas e mobilizar seguidores.
O fenômeno, inicialmente saudado como democratização da informação, logo revelou sua face menos nobre. As plataformas digitais são construídas sobre algoritmos de engajamento, que privilegiam conteúdo capaz de gerar reações emocionais intensas — indignação, raiva, medo ou euforia. Isso cria um ambiente em que o valor de uma mensagem não é medido por sua veracidade ou profundidade, mas por sua capacidade de provocar cliques, comentários e compartilhamentos. Como aponta Cass Sunstein em #Republic (2017): “A arquitetura das redes sociais incentiva o extremismo e a homogeneidade de pensamento, pois o algoritmo entrega ao usuário mais do que ele já quer ouvir.”
Nesse contexto, surgem as bolhas ideológicas: grupos digitais onde as pessoas interagem quase exclusivamente com conteúdos que confirmam suas crenças, filtrando — consciente ou inconscientemente — informações divergentes. O efeito, conhecido como viés de confirmação, reforça convicções pré-existentes e torna quase impossível o diálogo construtivo com quem pensa diferente.
Exemplos concretos no Brasil:
• Durante as eleições de 2018 e 2022, vídeos e postagens viralizavam dentro de bolhas específicas, muitas vezes com conteúdo distorcido ou incompleto, circulando milhares de vezes sem jamais serem confrontados por informação contrária.
• Canais de direita, ao se apresentarem como “antídoto” contra a velha mídia, passaram a blindar certas figuras políticas e atacar seletivamente adversários, repetindo a lógica da imprensa partidária do século XIX.
• Canais de esquerda, igualmente, criaram ecossistemas fechados, onde críticas internas ao campo progressista são desestimuladas e líderes são tratados com devoção quase religiosa.
Esse mecanismo não apenas cria distorções cognitivas, mas também empobrece o debate público. Discussões complexas sobre economia, educação ou segurança se reduzem a memes, slogans e frases de efeito. Em vez de análise séria, há lacração; em vez de ponderação, há “mitadas”. Isso produz o que Neil Postman chamou em Amusing Ourselves to Death (1985) de cultura do entretenimento, em que até a política é tratada como espetáculo — ou pior, como um reality show.
O Brasil, nesse cenário, tornou-se um campo fértil para a política performática: personagens midiáticos que encenam indignação, produzem vídeos calculados para viralizar e criam identidades digitais que, embora eficazes para manter seguidores fiéis, pouco ou nada contribuem para resolver problemas reais. É a aplicação prática da tese de Bernays: “As pessoas raramente agem com base no conhecimento direto, mas com base em imagens e impressões artificiais cuidadosamente criadas para elas.”
A esquerda, por sua vez, adaptou-se ao novo cenário e passou a operar com igual eficiência nas redes, criando suas próprias bolhas e estratégias de engajamento emocional. Essa simetria estratégica torna o ambiente político brasileiro um ringue de narrativas em que, mais do que convencer o adversário, o objetivo é manter o próprio público mobilizado e fiel, mesmo que para isso seja necessário distorcer ou omitir informações.
O resultado é um ecossistema digital que não apenas fragmenta a sociedade, mas também a superficializa:
• O cidadão médio passa horas consumindo conteúdo político sem, de fato, entender como funcionam as instituições ou quais são as causas estruturais dos problemas.
• O senso de urgência é deslocado para pautas episódicas e infladas, enquanto temas de longo prazo (reforma tributária, educação de base, infraestrutura) são ignorados.
• A hostilidade entre grupos cresce, alimentada por caricaturas do “outro lado”, que deixam de ser adversários para se tornarem inimigos.
Como advertiu Sérgio Buarque de Holanda, essa incapacidade de ver o país para além de figuras e facções faz com que o Brasil continue refém de um “personalismo” estéril, agora amplificado pela tecnologia.
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O hospício ideológico e a superficialidade do debate
Esse fenômeno não apenas distorce o debate político, mas também anestesia o pensamento crítico. A política se transforma em espetáculo, e o cidadão, em espectador cativo de uma novela ideológica. Distraído por escândalos fabricados, conflitos superficiais e figuras caricatas, o público se afasta dos problemas estruturais — desigualdade, corrupção sistêmica, fragilidade institucional — que permanecem intocados.
Como alertou Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala, as estruturas hierárquicas e relações de poder no Brasil não mudam com trocas de líderes ou modismos ideológicos; elas apenas se adaptam e se revestem de novas roupagens. E Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu um país dominado por uma “burocracia proprietária” que captura o Estado para servir a si mesma, pouco importando a ideologia do momento.
Para além das trincheiras
Compreender esse ciclo exige reconhecer que esquerda e direita usam o mesmo manual. A diferença está apenas na bandeira que carregam, não na lógica que aplicam. É preciso, como sugerem Faoro, Freyre e Buarque de Holanda, olhar para as estruturas históricas e culturais do Brasil, e não apenas para o espetáculo imediato.
Se a mídia tradicional construiu um “pseudoambiente” para o século XX, as redes sociais criaram um hiperambiente para o século XXI — mais dinâmico, mais acessível, mas igualmente manipulado. Romper com o hospício ideológico não significa escolher um lado, mas recuperar a capacidade de enxergar a realidade para além da lente deformada das narrativas.
Enquanto não fizermos isso, continuaremos vivendo num país onde cada facção habita sua própria fantasia — e onde a verdade, sempre inconveniente, é a primeira a ser esquecida.