
Vi, na manhã desta segunda-feira pela Auriverde Brasil e através do excelente Pittoli, matéria sobre a tentativa frustrada de agricultores de Santa Catarina em realizarem protestos contra a atual narco-ditadura, seus desmandos, omissões e favorecimentos.
Participou da mesma o senhor Guilherme Sampaio, do Movimento Reforma Brasil, revelando que o principal impedimento para o exercício deste claro e límpido direito à manifestações foram as ameaças proferidas por um delegado local da Polícia Federal, o qual afirmou que “se os agricultores colocarem suas máquinas na pista (passeata de tratores pela rodovia, até a cidade), levarão multas milionárias”. Obviamente os protestos, neste momento, pendem flácidos e desmotivados e toda a indignação destes agricultores será usada como adubo em suas plantações – isso, se ainda conseguirem trabalhar, atolados financeiramente que estão.
Tal caso, convém lembrar, é apenas mais um dos incontáveis e cotidianos esbulhos sofridos pelos brasileiros em seus direitos mais básicos e que, para piorar, nos agride sob uma poderosa anestesia cultural típica, que é o “já me acostumei”.
Sim, o brasileiro médio “se acostuma” com tudo, para o bem ou para o mal: desde comer a perigosa carne do peixe baiacu – “só não faz mal para quem está acostumado” – até os inaceitáveis estupros diários – processos judiciais fajutos, censura nas redes sociais, prisões ilegais e até tortura e morte nas cadeias da narco-ditadura – tudo isso, rapidamente, “nos acostuma” e paramos de reclamar e protestar, digerindo absurdos cotidianos como fossem ônibus lotados, na volta do trabalho: inevitáveis, “fazer o quê, né?”
Hanna Arendt, filósofa política alemã de origem judaica e que notabilizou-se por suas reflexões sobre o totalitarismo e pela criação do conceito de “banalidade do mal”, o qual deu origem ao seu famoso livro após o julgamento de Nüremberg, dizia que “banalizar o mal é quando entramos em um estado de normose social, não nos questionando as ações coletivas e não buscando compreender a extensão dos atos individuais” – um demolidor soco na cara de carrascos nazistas neste já citado julgamento e que também poderá nos valer, futuramente, para quando sombras como a juíza Cristina Yukiko Kusahara, ex-chefe de gabinete do ministro Alexandre de Moraes, alegarem novamente que “apenas cumpriam ordens” – tal como ela já o fez recentemente, sem nenhum pudor, replicando a argumentação dos carrascos nazistas do passado.
Temos, de um lado, criaturas que tentam se defender alegando que “apenas cumpriam ordens” e, de outro, todo um povo contaminado pelos efeitos desta mesma anomia, “acostumando-se” a tudo – conveniente para os carrascos, péssimo para nós.
O requinte de sado-masoquismo quase hereditário do brasileiro torna-se visível quando, em raros momentos de inconformismo, ele bufa e resmunga que “se isso acontecesse nos Estados Unidos ou na Europa acabaria em guerra”. Sim, provavelmente uma imensa revolta popular se levantaria para depor os déspotas ocasionais mas… por que não nós? E a resposta vem pronta, embrulhada para presente: “Por que aqui ninguém faz nada, todos esperam que alguém vá na frente e a gente se acostuma com tudo, é só ter um carnaval, churrasco, praia e pronto”.
O brasileiro tem verdadeiro horror a “ser herói”. Foge de tomar qualquer iniciativa como o diabo da cruz – este impulso foi banido de nossos genes – e sempre esperamos para ver o que acontece se alguém resolver agir: se der certo, vamos juntos. Se não, ficamos quietos e ainda alegamos: “eu falei pra ele ficar quieto, mas não me ouviu…”.
No frigir dos ovos, jamais teremos um Julgamento de Nüremberg por aqui. Jamais os assassinos responsáveis pela morte de Clezão serão presos. Jamais a quadrilha – quadrilha não, a família mafiosa que se instalou no estamento burocrático brasileiro – será deposta, perseguida e presa pois “não somos vingativos”. Em suma, algumas peças mudarão, a fachada será reformada mas o jogo viciado permanecerá, tal como é desde o advento desta infeliz e inviável República.
Graças a Deus, já nos acostumamos…
Walter Biancardine