
A Justiça chilena revelou uma rede criminosa que operava durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), envolvendo a venda de crianças para adotantes estrangeiros por valores que chegavam a US$ 50 mil. A investigação, conduzida pelo juiz Mario Carroza, expôs um esquema que sequestrava bebês de mães pobres ou dissidentes políticas, muitas vezes declarados mortos ao nascer, para serem vendidos a famílias nos Estados Unidos, Europa e Austrália. O caso, que chocou o país, reacende o debate sobre os crimes da ditadura e a necessidade de reparação às vítimas.
Documentos desclassificados e testemunhos apontam que hospitais, orfanatos e até membros da Igreja Católica estavam envolvidos. As mães, frequentemente enganadas, eram informadas de que seus filhos haviam falecido, enquanto os bebês eram registrados com identidades falsas e entregues a agências de adoção internacionais. Estima-se que milhares de crianças tenham sido traficadas entre as décadas de 1970 e 1980. “É uma ferida que o Chile precisa enfrentar. Famílias foram destruídas por interesses financeiros e políticos”, afirmou o advogado Eduardo Contreras, que representa vítimas.
A investigação ganhou força com denúncias de chilenos adotados no exterior, que buscam suas origens biológicas. A Justiça agora analisa arquivos de hospitais e do Serviço Nacional de Menores (Sename) para identificar os responsáveis. O caso expõe a face cruel de um regime que, além de violações aos direitos humanos, lucrou com a dor de famílias vulneráveis. A sociedade chilena cobra punições e medidas para reunir as vítimas com suas famílias biológicas, enquanto o governo enfrenta pressão para abrir todos os arquivos da ditadura.