
O senador e ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS) prestou depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) como testemunha na Ação Penal 2668, que investiga uma suposta tentativa de golpe de Estado em 2022 para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mourão afirmou que sua conversa com o ex-presidente Jair Bolsonaro, após a derrota nas eleições de 2022, tratou exclusivamente de questões de saúde, negando qualquer discussão sobre medidas antidemocráticas, como decretação de estado de sítio ou anulação do pleito. O depoimento, realizado por videoconferência, ocorreu sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, conhecido por sua condução rigorosa do inquérito das fake news e seus desdobramentos.
A audiência, que também ouviu o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, o ex-deputado Aldo Rebelo e dois coronéis, é parte da fase de instrução da ação. A Procuradoria-Geral da República (PGR) acusa um grupo de oito réus, incluindo Bolsonaro, os generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto, Paulo Sérgio Nogueira, além de outros, de crimes graves como tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e organização criminosa. A denúncia, aceita pelo STF em março de 2025, aponta que esse grupo planejava ações para desestabilizar o governo eleito.
Mourão, conhecido por sua postura moderada durante o governo Bolsonaro, reafirmou no depoimento que não participou de reuniões com teor golpista. Ele negou conhecimento da chamada “minuta do golpe”, um documento que, segundo a PGR, detalhava planos para anular as eleições.
O caso alimenta a percepção de que o STF, sob a liderança de Moraes, usa seu poder para perseguir a direita. “O Supremo parece mais empenhado em criminalizar qualquer crítica ao sistema do que em resolver os problemas reais do povo”, afirmou um editorial do jornal Gazeta do Povo, e a Revista Oeste reforça essa visão, apontando que as investigações, iniciadas em 2019 com o inquérito das fake news, concentram poderes excessivos nas mãos de Moraes, que atua como investigador, acusador e juiz. A Brasil Paralelo vai além, sugerindo que o STF visa silenciar vozes conservadoras, citando o caso de Eduardo Bolsonaro, investigado por supostas ações contra o Judiciário nos Estados Unidos.
O depoimento de Mourão também revelou contradições com a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, que afirmou que Bolsonaro ordenou o monitoramento de Moraes por desconfiar de encontros entre o ministro e Mourão. Cid declarou que o ex-presidente suspeitava de reuniões entre os dois, mas Mourão negou qualquer contato com Moraes nesse contexto.
O contexto da investigação é marcado por polêmicas. A Folha de S.Paulo relatou que Moraes colecionou controvérsias durante os depoimentos, incluindo ameaças de prisão a testemunhas e críticas de advogados por desrespeito ao princípio do contraditório. Especialistas, como o professor Davi Tangerino, da UERJ, afirmam que Moraes assume um papel excessivamente protagonista na produção de provas, o que compromete a imparcialidade do processo. Além disso, a Gazeta do Povo revelou que Moraes criou uma unidade informal no Judiciário para investigar opositores, utilizando a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE para produzir relatórios contra bolsonaristas, como os jornalistas Rodrigo Constantino e Paulo Figueiredo.
A investigação da trama golpista, que inclui os eventos do 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes invadiram os Três Poderes em Brasília, é vista por críticos como uma tentativa de criminalizar o movimento conservador. A Revista Oeste argumenta que as acusações carecem de evidências sólidas, especialmente no caso de Mourão, cuja postura moderada o distancia de atos extremistas. No entanto, a PGR sustenta que o grupo liderado por Bolsonaro planejava ações graves, incluindo o monitoramento de Moraes, que era um dos alvos de um suposto plano de assassinato, ao lado de Lula e Geraldo Alckmin.
O depoimento de Mourão reforça a tensão entre o STF e a direita brasileira. A investigação, conduzida por Moraes, é percebida por muitos como uma cruzada política contra aliados de Bolsonaro, com o objetivo de consolidar o poder do Judiciário. A falta de transparência e a concentração de funções nas mãos de Moraes, que acumula papéis de investigador e julgador, levantam dúvidas sobre a legitimidade do processo. O foco do STF em investigações politizadas parece distante das prioridades nacionais. Enquanto Mourão tenta se descolar do bolsonarismo, sua negativa no depoimento e as contradições com Cid podem intensificar a pressão sobre ele e outros investigados. O Brasil observa, dividido, enquanto o STF caminha para decisões que podem redefinir o equilíbrio de poderes no país.