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VENEZUELA ENFRENTA ‘TEMPESTADE PERFEITA’

CRISE ECONÔMICA SE AGRAVA COM PETRÓLEO EM QUEDA E SANÇÕES DOS EUA

Maria Rosa M Pires
Por: Maria Rosa M Pires
24/04/2025 às 12h26
VENEZUELA ENFRENTA ‘TEMPESTADE PERFEITA’

A Venezuela, outrora um gigante petrolífero, está à beira do abismo. Economistas alertam para uma “tempestade perfeita” que ameaça afundar ainda mais a economia do país, já devastada por anos de crise. A combinação de queda nos preços do petróleo, saída de empresas estrangeiras, sanções reforçadas pelos Estados Unidos e instabilidade política após a reeleição contestada de Nicolás Maduro em 2024 forma um cenário sombrio. Com o bolívar em queda livre e a inflação projetada para superar 200% em 2025, a população venezuelana enfrenta escassez, desemprego e um futuro incerto. É Caracas no olho do furacão, lutando para não sucumbir.

A Queda do Petróleo: O Golpe na Veia da Economia

A Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo do mundo, depende da commodity para 96% de suas exportações. No entanto, os preços do petróleo tipo Brent e WTI, principais referências globais, estão em declínio, com projeções do Barclays prevendo médias de US$ 63 e US$ 59 por barril, respectivamente, em 2025, caindo para US$ 58 e US$ 55 em 2026. Essa redução, combinada com descontos aplicados ao petróleo venezuelano devido à sua qualidade extrapesada, reduz drasticamente as receitas do governo.

 

A produção, que já foi de 3 milhões de barris por dia em 1998, está hoje em cerca de 900 mil barris, segundo a Bloomberg. A estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), marcada por má gestão e corrupção, enfrenta dificuldades para manter os campos operacionais após a saída de petroleiras internacionais, como a Chevron, que respondia por 25% da produção. “Sem investimento e diluentes importados, a PDVSA vai penar para processar o petróleo”, alerta Francisco Monaldi, diretor do programa de energia latino-americana do Instituto Baker, em Houston.

 

Saída de Empresas Estrangeiras: Um Êxodo Econômico

A revogação de licenças para petroleiras estrangeiras pelo governo de Donald Trump, em fevereiro de 2025, foi um golpe duro. A Chevron, que operava na Venezuela desde 2022 sob um acordo especial, teve sua licença cancelada até 27 de maio, assim como a Shell e a British Petroleum (BP), que desenvolviam projetos de gás com Trinidad e Tobago. Empresas como a italiana Eni e a espanhola Repsol também enfrentam restrições, limitando a capacidade da Venezuela de atrair investimentos.

 

A ausência dessas companhias não só reduz a produção, mas também a entrada de dólares, essencial para importações. “A Chevron era uma das principais fontes de moeda estrangeira. Sem ela, o Banco Central da Venezuela (BCV) terá menos recursos para intervenções cambiais”, explica Luis Aristimuño, da consultoria Aristimuño Herrera & Asociados. O resultado é a disparada do “dólar clandestino”, que atingiu 100 bolívares no mercado paralelo em abril, contra 69,5 bolívares na taxa oficial, pressionando preços e agravando a inflação.

 

Sanções dos EUA: O Cerco se Fecha

As sanções americanas, intensificadas após a reeleição de Maduro em 28 de julho de 2024, considerada fraudulenta pela oposição e não reconhecida por países como EUA, Brasil e Colômbia, limitam o acesso da Venezuela aos mercados financeiros e ao comércio de petróleo. Em abril de 2024, os EUA retomaram sanções ao setor petroleiro, revogando a Licença Geral 44, que permitia transações com o setor de óleo e gás, após Maduro descumprir o Acordo de Barbados, que previa eleições livres.

 

As medidas proíbem empresas americanas de negociar com a PDVSA e exigem autorizações específicas para outras companhias, desencorajando o comércio internacional. “As sanções agravam uma crise que já existia, mas a má gestão da PDVSA e a dependência do petróleo são as raízes do problema”, afirma José Manuel Puente, economista da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB). Desde 2017, as sanções contribuíram para a queda nas exportações e importações, intensificando a escassez de alimentos, medicamentos e combustíveis.

 

Reeleição Controvertida de Maduro: A Crise Política

A reeleição de Nicolás Maduro em 2024, anunciada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) com 51,2% dos votos contra 44,2% de Edmundo González Urrutia, foi marcada por denúncias de fraude. A oposição, liderada por González e María Corina Machado, apresentou atas eleitorais indicando vitória do candidato opositor, mas o CNE não divulgou os resultados completos, gerando protestos que deixaram 25 mortos e 2,4 mil presos, segundo a ONU.

 

A repressão aos protestos, com uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha, foi condenada internacionalmente. A comunidade internacional, incluindo EUA, UE e países latino-americanos, questionou a legitimidade do pleito, aumentando o isolamento de Maduro. “Sem transparência, Maduro enfrenta uma crise de legitimidade que afasta investidores e agrava a instabilidade”, diz Laura Dib, da WOLA. O governo, apoiado por aliados como Rússia, China e Irã, mantém-se firme, mas a incerteza política desencoraja a recuperação econômica.

 

Impactos na Vida dos Venezuelanos

A “tempestade perfeita” descrita por economistas como José Manuel Puente tem consequências diretas para a população. A UCAB prevê uma inflação acima de 200% em 2025, com o bolívar desvalorizando 24,6% no primeiro trimestre, atingindo 82,38 bolívares por dólar em 23 de abril. A retração econômica é estimada em 2,05%, com exportações de petróleo caindo 20%.

 

A crise, que já fez o PIB encolher 80% entre 2014 e 2021, levou 7,7 milhões de venezuelanos a emigrar desde 2015, segundo a ONU. A pobreza multidimensional, que considera privações além da renda, afeta 50% da população, com os 10% mais ricos ganhando 70 vezes mais que os 10% mais pobres. “Não temos comida, remédios, nada. O governo fala em guerra econômica, mas quem sofre somos nós”, desabafou Carmen Rojas, moradora de Caracas, à BBC.

 

Resposta do Governo e Perspectivas

No início de abril, Maduro decretou “emergência econômica”, ampliando seus poderes para adotar medidas excepcionais, como intervenção em empresas e controle de preços. Ele atribui a crise às sanções dos EUA e à “guerra tarifária” de Trump, mas críticos apontam a má gestão e a corrupção como causas centrais. O governo tenta diversificar a economia, com arrecadação de impostos alcançando US$ 11 bilhões em 2024, mas a dependência do petróleo persiste.

 

Maduro mantém laços com Rússia, China e Irã, que fornecem apoio econômico e militar. A China, maior compradora de petróleo venezuelano, e a Rosneft russa, que adiantou US$ 8 bilhões à PDVSA, ajudam a contornar sanções, mas não o suficiente para reverter a crise. Economistas como Puente alertam que, sem renegociação da dívida externa, investimentos estrangeiros e apoio do FMI, a recuperação é improvável.

 

Um Futuro Incerto

A Venezuela enfrenta um 2025 desafiador. A combinação de sanções, queda do petróleo, êxodo de empresas e instabilidade política cria um ciclo vicioso que sufoca a economia. Enquanto Maduro promete resistir, a população clama por alívio. “Estamos cansados, mas ainda temos esperança”, diz José Luis, comerciante de Maracaibo. Resta saber se Caracas conseguirá navegar essa tempestade ou se afundará ainda mais no caos.

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