
Istambul, a maior cidade da Turquia e um dos centros culturais do mundo, foi sacudida na quarta-feira (23) por um terremoto de magnitude 6,2, que espalhou pânico entre os 16 milhões de habitantes. O tremor, centrado no Mar de Mármara, a cerca de 40 km a sudoeste da cidade, deixou pelo menos 236 feridos, a maioria por saltos de prédios em desespero ou ataques de pânico. Apesar do susto, não há registros de mortes ou danos estruturais graves, mas a sequência de mais de 50 réplicas, incluindo uma de 5,9, mantém a população em alerta. É Istambul enfrentando seus medos sísmicos, com o coração na mão e os olhos voltados para o futuro.
O Tremor: Um Susto no Feriado
O terremoto atingiu Istambul às 12h49 (9h49 GMT) de 23 de abril, durante o feriado do Dia da Soberania Nacional e das Crianças, quando muitas famílias estavam nas ruas celebrando. Com epicentro no Mar de Mármara, próximo ao distrito de Silivri, o tremor teve uma profundidade rasa de 10 km, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o que intensificou sua percepção. A agência turca de gerenciamento de desastres (AFAD) confirmou que o abalo durou 13 segundos, seguido por 51 réplicas até o fim do dia, a maior delas de magnitude 5,9.
O impacto foi sentido não só em Istambul, mas também nas províncias vizinhas de Tekirdağ, Yalova, Bursa e Balıkesir, e até em Izmir, a 550 km ao sul. Em Bucareste, na Romênia, e Sofia, na Bulgária, a 300 km de distância, relatos indicaram tremores leves. “Foi como se o chão dançasse. Corri para a rua com meu cachorro, sem pensar”, contou Neslisah Aygoren, moradora de Istambul, à agência Reuters.
Feridos e Pânico nas Ruas
A principal consequência do terremoto foi o pânico generalizado. Segundo o gabinete do governador de Istambul, 236 pessoas foram atendidas em hospitais, sendo 173 na própria cidade e o restante em províncias vizinhas. A maioria dos ferimentos ocorreu quando moradores, em desespero, pularam de janelas ou varandas, sofrendo fraturas ou contusões. Outros foram internados por crises de ansiedade e ataques de pânico. “Ninguém está em estado crítico, mas o medo foi avassalador”, afirmou o ministro da Saúde, Kemal Memisoglu.
Imagens capturadas por câmeras de segurança e compartilhadas em redes sociais, como um vídeo postado por @QUSAY_NOOR_
, mostram pessoas abandonando cafés e lojas às pressas. Em Beşiktaş, um distrito central, gritos ecoaram enquanto moradores corriam para as ruas, muitos em pijamas, carregando pets e crianças. “Foi aterrorizante. Meu pai, que tem mobilidade reduzida, ficou preso no elevador por minutos”, relatou uma residente à BBC.
Um prédio abandonado no bairro histórico de Fatih, que abriga a Mesquita Azul e a Hagia Sophia, desabou parcialmente, mas não houve vítimas. Autoridades confirmaram que nenhum edifício residencial sofreu danos significativos, e a infraestrutura de energia, gás, água e esgoto permaneceu intacta. O ministro dos Transportes, Abdulkadir Uraloglu, informou que rodovias, aeroportos, trens e metrôs não apresentaram problemas após inspeções iniciais.
Istambul e o Trauma Sísmico
A Turquia é um dos países mais sismicamente ativos do mundo, cortada por duas grandes falhas geológicas: a Falha da Anatólia do Norte, que passa a 20 km de Istambul, e a Falha da Anatólia Oriental. O terremoto de 23 de abril reacendeu temores de um “grande terremoto” previsto por especialistas, como o geólogo Naci Görür, que alerta para uma probabilidade de 65% de um tremor de magnitude 7,0 ou superior até 2030. Em 1999, um terremoto de 7,6 em Izmit, próximo a Istambul, matou mais de 17.000 pessoas, e em 2023, um abalo de 7,8 no sul do país deixou mais de 53.000 mortos.
“Istambul vive sob a sombra de um desastre. Muitos prédios antigos não resistiriam a um tremor maior”, disse Kemal Cebi, prefeito do distrito de Kucukcekmece, à emissora NTV. O governo turco e a prefeitura têm investido em projetos de reconstrução urbana e reforço de edifícios, mas a densidade populacional e a infraestrutura antiga ainda são desafios. Em 2023, o então ministro do Meio Ambiente, Murat Kurum, alertou que 1,5 milhão de casas em Istambul são estruturalmente vulneráveis.
O pânico de quarta-feira foi agravado pelo feriado, com crianças nas ruas e eventos públicos lotados. A prefeitura cancelou celebrações e abriu ginásios esportivos e mesquitas para abrigar moradores receosos de voltar para casa. Escolas permanecerão fechadas até sexta-feira (25), e áreas abertas, como parques e praças, foram designadas como zonas seguras. “Muitos estão montando barracas nos parques. O medo de réplicas é real”, relatou a professora Selva Demiralp, da Universidade Koc, à BBC.
Reações e Medidas Oficiais
O presidente Recep Tayyip Erdogan, em evento pelo feriado, tranquilizou a população: “Graças a Deus, não parece haver problemas graves por enquanto. Que Deus proteja nosso país de desastres”. O ministro do Interior, Ali Yerlikaya, informou que mais de 6.100 chamadas de emergência foram recebidas, a maioria pedindo informações. “Não baixem a guarda contra possíveis réplicas”, alertou Yerlikaya no X, onde postagens de @anadoluagency e @Reuters detalharam a ausência de danos graves, mas reforçaram a cautela.
Equipes de resgate foram mobilizadas, e a AFAD realizou varreduras em áreas afetadas. O prefeito de Fatih, Mehmet Ergun Turan, confirmou que monumentos históricos, como a Hagia Sophia, não sofreram danos. Apesar do alívio inicial, moradores como Cihan Boztepe, que viveu os terremotos de 2023 no sul da Turquia, expressaram preocupação: “Estamos seguros agora, mas e se vier um maior?”.
Um Alerta para o Futuro
O terremoto de 6,2, embora não tenha causado destruição significativa, serviu como um lembrete da vulnerabilidade de Istambul. A transmissão ao vivo da âncora Meltem Bozbeyoğlu, da CNN Turk, que se agarrou à mesa enquanto o estúdio tremia, viralizou, capturando o medo coletivo. “Peço desculpas se causei pânico, mas foi assustador”, disse ela aos telespectadores.
Enquanto a cidade retoma a rotina, o governo enfrenta o desafio de acelerar a preparação sísmica. Projetos como a demolição de prédios em risco e a construção de moradias resistentes seguem em andamento, mas o tempo é curto. Istambul, com sua história milenar e energia pulsante, agora olha para o chão sob seus pés com um misto de respeito e apreensão.
Para mais informações, acompanhe os boletins da AFAD ou do Serviço Geológico dos EUA (USGS).