
A Basílica de São Pedro, coração do Vaticano, está tomada por uma onda de emoção e fé. Desde quarta-feira (23), milhares de fiéis enfrentam filas de até três horas na Praça São Pedro para se despedir do Papa Francisco, cujo velório marca o início de um período de luto e transição para a Igreja Católica. O pontífice, falecido aos 88 anos na segunda-feira (21) por um AVC e insuficiência cardíaca, deixa um legado de defesa dos marginalizados, especialmente imigrantes e refugiados. Enquanto o caixão permanece exposto até sexta-feira (25), o cardeal Kevin Farrell, camerlengo da Igreja, conduz os rituais fúnebres e prepara o conclave que escolherá o próximo papa. É um momento histórico, e o mundo está de olho.
O Velório: Uma Homenagem Global
O velório de Francisco começou oficialmente às 9h (4h de Brasília) de 23 de abril, após uma procissão solene que levou o caixão da Casa Santa Marta, residência do papa, até a Basílica de São Pedro. Liderado pelo cardeal Kevin Farrell, o cortejo passou pela Praça dos Protomártires Romanos e pelo Arco dos Sinos, acompanhado por mais de 20 mil fiéis que aplaudiram e rezaram. O corpo de Francisco, vestido com uma simples batina branca e vestes vermelhas, repousa em um caixão aberto de madeira, refletindo as orientações do próprio pontífice para um funeral sem ostentação, conforme atualizações do livro litúrgico Ordo Exsequiarum Romani Pontificis aprovadas por ele em 2023.
A Basílica de São Pedro abriu suas portas para visitas públicas às 6h (horário de Brasília) de quarta-feira, e a expectativa é que cerca de 250 mil pessoas passem pelo local até o funeral, marcado para sábado (26) às 5h (horário de Brasília). Líderes mundiais, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente dos EUA, Donald Trump, o presidente da Argentina, Javier Milei, e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, confirmaram presença na cerimônia fúnebre, que será presidida pelo cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio de Cardeais.
Na sexta-feira (25), às 20h (15h de Brasília), Farrell conduzirá o rito de fechamento do caixão, encerrando as visitas públicas. O corpo de Francisco será sepultado na Basílica de Santa Maria Maggiore, fora do Vaticano, atendendo a um pedido expresso no testamento do papa, que desejava uma inscrição simples: Franciscus. A escolha rompe com a tradição de sepultamentos na cripta de São Pedro, reforçando o estilo humilde de seu pontificado.
O Legado de Francisco: Um Papa dos Marginalizados
Nascido Jorge Mario Bergoglio em Buenos Aires, Argentina, em 17 de dezembro de 1936, Francisco foi o primeiro papa latino-americano e jesuíta da história. Eleito em 13 de março de 2013, seu pontificado de 12 anos foi marcado por um discurso de inclusão e simplicidade. Filho de imigrantes italianos, ele fez da defesa de migrantes e refugiados uma bandeira central. Em 2013, sua primeira viagem papal foi à ilha de Lampedusa, onde criticou a “globalização da indiferença” ao encontrar refugiados africanos resgatados no Mediterrâneo.
Francisco também abordou questões como a crise climática, a inclusão de pessoas LGBTQIA+ e a luta contra abusos sexuais na Igreja, embora suas reformas tenham gerado debates entre progressistas e conservadores. “Ele nos ensinou a viver os valores das Escrituras com coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres”, declarou o cardeal Farrell durante o anúncio da morte, às 7h35 de 21 de abril (2h35 de Brasília).
Kevin Farrell e a Sé Vacante: A Transição da Igreja
Com a morte de Francisco, a Igreja Católica entrou no período de Sé Vacante (trono vazio), administrado pelo cardeal camerlengo Kevin Joseph Farrell, irlandês de 77 anos nomeado por Francisco em 2019. Farrell, homem de confiança do papa, é responsável por atestar a morte, destruir o Anel do Pescador – símbolo do pontificado – e organizar o funeral e o conclave. Na segunda-feira (21), ele removeu o anel de prata de Francisco e o cortou com uma tesoura cerimonial, marcando o fim oficial do pontificado.
Farrell, que também preside a Suprema Corte do Vaticano e o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, tem um perfil discreto e gerencial. Sua trajetória cosmopolita – nascido em Dublin, com passagens pelo México, Espanha e EUA – alinha-se às ideias de Francisco, mas sua idade avançada (78 anos em 2025) o exclui das listas de possíveis papas. “Farrell é um administrador, não um candidato”, afirma o teólogo Gerson Leite de Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
O Conclave: A Escolha do Novo Papa
O conclave, reunião secreta dos cardeais eleitores na Capela Sistina, está previsto para começar entre 6 e 11 de maio, conforme as normas da Igreja, que estipulam 15 a 20 dias após a morte do papa. Dos 252 cardeais, 135 com menos de 80 anos são aptos a votar, incluindo sete brasileiros: Odilo Pedro Scherer, João Braz de Aviz, Orani Tempesta, Sergio da Rocha, Leonardo Steiner, Paulo Cezar Costa e Jaime Spengler.
As votações, regidas pela constituição Universi Dominici Gregis, ocorrem até que um candidato alcance dois terços dos votos. As cédulas são queimadas após cada sessão, produzindo fumaça preta (sem eleição) ou branca (papa eleito), visível na chaminé da Capela Sistina. Se necessário, pausas de 24 horas para oração podem ser feitas após três dias ou sete votações sem consenso. Em casos extremos, após 34 votações, os dois mais votados disputam um “segundo turno”. O eleito escolhe seu nome papal e é apresentado na sacada da Basílica com o anúncio Habemus Papam.
Entre os nomes cotados para suceder Francisco estão o italiano Pietro Parolin (70 anos, secretário de Estado), o filipino Luis Antonio Tagle (67 anos, conhecido como “Francisco Asiático”), o húngaro Peter Erdo (72 anos, conservador), e o francês Jean-Marc Aveline (66 anos, defensor da imigração). A escolha refletirá o futuro da Igreja em temas como secularização, inclusão e crises globais.
Desafios e Expectativas
O próximo papa herdará uma Igreja em transformação, com desafios como a secularização na Europa, o crescimento do catolicismo na África e Ásia, e tensões internas sobre reformas. O funeral de Francisco, no sábado, e os nove dias de luto (Novendialis) darão o tom para as discussões do Colégio de Cardeais, que já se reúne em Congregações Gerais para planejar o conclave.
Enquanto Roma chora Francisco, a Praça São Pedro pulsa com fiéis de todo o mundo. “Ele foi um pastor que caminhou com os pobres”, disse Maria Elena, uma peregrina argentina, em meio às filas. O legado de Francisco, com sua mensagem de acolhimento, ecoará no conclave que definirá o rumo da Igreja Católica.