
País da Ásia Central vira polo renovável, mas segue fora do radar global
Enquanto conflitos e disputas comerciais dominam as manchetes, o Uzbequistão avança como um protagonista improvável na energia solar, atraindo €22 bilhões em investimentos estrangeiros para o setor. Em 4 de abril de 2025, líderes da Ásia Central e da União Europeia se reúnem em Samarcanda para negociar parcerias que podem consolidar o país como um fornecedor estratégico. Apesar do impacto econômico e geopolítico, o movimento recebe pouca atenção, ofuscado por crises mais ruidosas.
Transição energética focada em resultados
Com 330 dias ensolarados por ano, o Uzbequistão tem condições naturais favoráveis para a energia solar, mas até recentemente dependia do gás natural, que responde por 85% de sua matriz energética, segundo o Banco Mundial. Desde 2017, reformas econômicas abriram o setor a investidores internacionais, resultando em 11 usinas solares operacionais, com capacidade combinada de 1.500 MW. Projetos como a planta de 1.000 MW da SkyPower, em fase final com financiamento canadense, sinalizam a ambição do país.
O governo mira 54% de energia renovável até 2030, contra os 15% de 2024, conforme dados do Ministério da Energia. “Buscamos competitividade e novas receitas”, afirmou o ministro Jurabek Mirzamakhmudov em comunicado recente. Um exemplo é a usina de Tutly, inaugurada em 2022 com €100 milhões da francesa Total Eren, que gera 131 MW e abastece 140 mil residências. A meta não é apenas reduzir custos internos, mas posicionar o Uzbequistão como exportador de energia e certificados de carbono.
Samarcanda como epicentro de negócios
O summit de Samarcanda, marcado para amanhã, reúne o presidente Shavkat Mirziyoyev, representantes da UE e delegações de Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão. O evento reflete o interesse europeu em diversificar fontes energéticas após a crise do gás russo em 2022. O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) já investiu €3 bilhões em projetos locais desde 2020. “O Uzbequistão oferece estabilidade e potencial”, declarou Alkis Drakinos, representante do BERD, à imprensa.
Embora a redução de emissões – 190 milhões de toneladas de CO2 em 2023, segundo a Agência Internacional de Energia – seja um argumento de venda, o foco está nos ganhos econômicos. Cada usina nova fortalece a posição do país em um mercado global que ainda privilegia combustíveis fósseis.
Falta de visibilidade
Apesar dos números expressivos, o avanço uzbeque não ganha destaque. “Crises como o Oriente Médio e as tarifas de Trump têm mais apelo”, explica João Pedroso, analista da Euronews. A ausência de conflitos ou narrativas dramáticas mantém o tema fora do radar, mesmo com implicações significativas para a região e além.
Impactos concretos
No Uzbequistão, a energia solar já reduz custos para pequenas empresas, como fazendas de algodão em Jizzakh e indústrias em Samarcanda. O governo vê na expansão uma chance de aliviar a dependência energética e atrair divisas. Para a UE, é uma alternativa viável em um cenário de incertezas. Se o summit render acordos sólidos, o país pode se firmar como um polo renovável na Ásia Central, desafiando a narrativa de que apenas nações ricas lideram essa transição.
O Uzbequistão avança com pragmatismo, priorizando lucros sobre discursos. Enquanto o mundo olha para outro lado, o sol da Ásia Central segue gerando resultados – com ou sem aplausos.