
Retorno a esta coluna com uma provocação necessária: até quando a narrativa oficial de "recuperação econômica" conseguirá mascarar o rastro de destruição financeira nos lares brasileiros? Enquanto os comunicados governamentais celebram números macroeconômicos abstratos, a realidade que emerge das ruas e dos balanços do Banco Central é a de uma nação sufocada pelo endividamento e pela falta de perspectivas.
Os dados recentes são mais do que estatísticas; são um grito de alerta para o que eu chamo de "Aritmética do Desespero".
Estamos falando de uma magnitude sem precedentes. Segundo dados do Banco Central e levantamentos da Datafolha, cerca de 130 milhões de brasileiros possuem algum tipo de débito bancário. Em termos práticos, 2 em cada 3 brasileiros estão com o orçamento comprometido.
Deste total, 101 milhões de pessoas carregam dívidas específicas no cartão de crédito. Não estamos falando de investimentos ou alavancagem produtiva; estamos falando de famílias que usam o plástico para custear o básico, transformando o consumo de sobrevivência em uma bola de neve impagável.
O centro do problema reside no Rotativo do Cartão de Crédito. Com um volume que se aproxima dos R$ 400 bilhões, essa modalidade tornou-se uma máquina de moer patrimônio. As taxas, que chegam a inacreditáveis 436% ao ano, são uma anomalia global.
Manter juros nesse patamar em uma economia que se diz "em recuperação" é uma contradição técnica. Como esperar que o consumo das famílias impulsione o PIB se a renda disponível é drenada por juros que quadruplicam uma dívida em doze meses?
O programa governamental "Desenrola" foi vendido como a panaceia para a inadimplência. No entanto, os números recentes da CNN mostram a fragilidade dessa solução: apenas alguns meses após o fim do programa, o Brasil registrou 9 milhões de novos inadimplentes.
Isso prova a tese que sempre defendi nesta coluna: limpar o nome sem educar o bolso e sem reformas estruturais que baixem o custo do crédito é apenas adiar o colapso. O governo ofereceu um curativo para uma hemorragia arterial. Sem renda real e com juros proibitivos, o cidadão "limpo" volta a se endividar para pagar a conta de luz ou o mercado.
Talvez o sinal mais alarmante do esgotamento financeiro seja a fuga de recursos da caderneta de poupança. Só em março de 2026, houve uma saída líquida de R$ 11,1 bilhões.
Embora o governo tente argumentar que o poupador está migrando para investimentos melhores, a realidade da classe média e das classes mais baixas é outra. O saque da poupança em massa representa o uso das últimas reservas para o consumo imediato ou para o pagamento de dívidas. As famílias estão "comendo o milho da semeadura" para sobreviver ao mês.
Não é surpresa que a pesquisa Quaest aponte que metade dos brasileiros acha que a economia piorou. A percepção popular não é moldada por planilhas de Brasília, mas pela capacidade de fechar o mês.
Quando o Datafolha confirma que o endividamento atinge a maioria esmagadora da população, fica claro que vivemos em dois Brasis: o Brasil dos discursos otimistas e o Brasil real, onde o cartão de crédito é o carrasco e a poupança é a última boia de salvação que está afundando.
A economia brasileira em 2026 tornou-se um sistema de transferência de renda reversa: do bolso do cidadão comum diretamente para o serviço da dívida e para a manutenção de um Estado que se recusa a reduzir seu próprio custo.
Sem uma política séria de redução de juros na ponta e, principalmente, sem um choque de educação financeira que impeça o cidadão de cair nas armadilhas do rotativo, continuaremos a ver o recorde de endividamento ser quebrado mês após mês. A propaganda pode durar uma eleição, mas a aritmética do desespero é implacável.