Sábado, 11 de Abril de 2026
16°C 25°C
São Paulo, SP
Publicidade

A MARCHA, O MITO E O PODER

QUANDO O BRASIL TRANSFORMA PASSOS EM DESTINO

Rodrigo Schirmer Magalhães
Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
25/01/2026 às 12h38
A MARCHA, O MITO E O PODER

Toda marcha grande começa pequena. Antes de virar símbolo, é só gente. Antes de ser manchete, é quase invisível. A chamada Marcha da Liberdade não nasceu como epopeia: nasceu como gesto. Um deputado, Nikolas Ferreira, alguns poucos aliados, meia dúzia de rostos conhecidos e outros anônimos, caminhando não com a certeza do triunfo, mas com a intuição de que algo precisava ser encenado.

Não havia multidões. Não havia aparato histórico. Havia corpo, passo, risco e exposição. Havia mais dúvida que estratégia. Mais vontade que cálculo. É nesse ponto que os movimentos começam a ser humanos antes de serem políticos.

Nikolas não saiu como mito — saiu como homem. Saiu com amigos, com equipe reduzida, com a sensação de quem testa o chão antes de atravessar o rio. Nenhuma revolução nasce pronta; ela começa como ensaio. Como escreveu Camus, “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. Marchar, no fundo, é isso: recusar a imobilidade.

O que parecia apenas uma caminhada virou cena. O que era deslocamento virou linguagem. O que era pequeno começou a pedir interpretação. Porque, no instante em que alguém decide andar publicamente contra algo, ele deixa de ser só indivíduo e começa a virar personagem. E é aí que o gesto simples entra no território do símbolo.

A política, antes de ser projeto, é sempre gesto. Antes de ser plano, é símbolo. Antes de ser razão, é imaginação. O homem não se move apenas por argumentos — move-se por narrativas, por cenas, por imagens que tocam aquilo que Carl Jung chamou de inconsciente coletivo: o território invisível onde mitos, arquétipos e expectativas moldam a forma como enxergamos o mundo. É nesse terreno que nasce o sentido profundo da Marcha da Liberdade que começa a ganhar corpo no Brasil.

À primeira vista, uma marcha é apenas deslocamento. Pessoas andando, cartazes, palavras de ordem. Mas, filosoficamente, ela é outra coisa: é performance social. É teatro político. É aquilo que Guy Debord chamaria de “sociedade do espetáculo”, não no sentido vulgar, mas no sentido simbólico — onde a ação não serve só para pressionar o poder, mas para organizar emoções, criar personagens e produzir percepção. A marcha não fala apenas ao Estado; ela fala ao imaginário. Por isso, todo movimento que vai às ruas, mesmo sem estratégia clara, já está fazendo algo decisivo: ensinando o povo a sentir antes de pensar.

A história mostra que marchas raramente produzem resultados imediatos — mas quase sempre produzem efeitos duradouros. Em 1930, Gandhi caminhou até o mar na Marcha do Sal. O gesto parecia pequeno: recolher sal proibido pelo Império Britânico. Politicamente, não derrubou o colonialismo no dia seguinte. Mas simbolicamente, inaugurou a imagem do indiano comum enfrentando o império com o próprio corpo. A independência começou ali no plano do mito antes de nascer no plano jurídico.

Nos Estados Unidos, Martin Luther King liderou marchas que não aboliram o racismo por decreto instantâneo, mas criaram o que Hannah Arendt chamaria de espaço público da ação, onde o cidadão deixa de ser estatística e vira presença. O direito civil veio depois do símbolo.

Na Alemanha, as marchas de Leipzig em 1989 não derrubaram o Muro na primeira noite, mas ensinaram milhões a perder o medo. Primeiro o corpo se move. Depois o sistema treme.

No Brasil, não foi diferente. As Diretas Já começaram como ritual coletivo antes de virarem força institucional. Em 2013, as jornadas de junho também não resolveram o país, mas mudaram sua gramática emocional: o brasileiro descobriu que podia ocupar a rua como linguagem política. Marchas são sementes. Algumas morrem. Outras crescem devagar. Mas todas mexem no solo psicológico da sociedade.

O Brasil, mais que outros países, não cultua projetos — cultua personagens. Nossa política é menos contratual e mais dramática. O brasileiro responde àquilo que Joseph Campbell chamou de Jornada do Herói: alguém sai do anonimato, enfrenta o sistema, sofre, cai, retorna transformado.

Desde Canudos, com Antônio Conselheiro, passando por Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Lula e Bolsonaro, o país fabrica líderes como se fossem protagonistas de romance. Mesmo na cultura popular isso se repete: do Capitão Nascimento, em Tropa de Elite, ao João Grilo de Ariano Suassuna, o herói brasileiro não é o técnico — é o improvável, o emocional, o messiânico. Aqui, política não nasce no papel: nasce no drama.

Por isso o brasileiro não reage só a ideias — reage a gestos simbólicos. Prisões viram martírio. Exílios viram epopeia. Marchas viram capítulos épicos. Como diria Nietzsche, não são os fatos que nos movem, mas as interpretações que fazemos deles.

A Marcha da Liberdade entra exatamente nesse campo: não como plano de governo, mas como rito de passagem coletivo.

A Marcha da Liberdade não é apenas protesto: é encenação da jornada do herói. O povo não vê apenas pessoas andando; vê alguém enfrentando o sistema, suportando ataques, resistindo e retornando “purificado”. Isso gera identificação emocional. A razão observa. O imaginário se apaixona.

Quando ações assim são quase santificadas, o debate vira fé. O líder vira símbolo. O símbolo vira mito. E o mito começa a organizar a percepção da realidade. Jung explicava que, quando o arquétipo domina, a consciência individual se curva ao roteiro coletivo. No Brasil, primeiro acreditamos — depois pensamos. Por isso marchas moldam mais consciências que programas de governo.

O que se percebe por trás da Marcha da Liberdade não é só mobilização: é substituição simbólica dentro da direita brasileira. O bolsonarismo cumpriu sua função histórica: rompeu a ordem emocional do sistema, criou antagonismo, despertou paixões. Mas todo símbolo político tem prazo.

Agora emerge outra persona: Nikolas Ferreira.

Não é só um deputado. É uma estética política. Jovem, comunicador, performático, moralmente polarizador. Ele não representa ainda um projeto consolidado, mas ocupa um espaço psicológico: o do novo herói narrativo. O bolsonarismo era o pai rebelde; o “nikolismo” se vende como o filho audacioso.

O povo não troca de ideia — troca de personagem. Como escreveu Vilfredo Pareto, as elites mudam menos por razão e mais por circulação simbólica: o público precisa sentir que há alguém novo na cena, mesmo que a estrutura permaneça a mesma. A Marcha da Liberdade funciona, então, como batismo simbólico dessa transição.

Mas quem entra na jornada do herói precisa aprender cedo uma verdade incômoda: o jogo do poder não ama ninguém — ele usa. A nova direita empolgou multidões, levantou nomes como Bolsonaro, Nikolas e outros. Mas quando o tabuleiro balança, os mesmos que aplaudem hoje descartam amanhã. Olavo de Carvalho já alertava: popularidade é anestesia, não é força. Ela embriaga o líder e adormece sua prudência.

Maquiavel foi ainda mais claro em O Príncipe: ser amado é instável; ter poder real é estrutural. Amor depende do humor das massas. Poder depende de posição, alianças, instituições e controle do tempo.

O herói de verdade não vive de curtidas nem de gritos de apoio. Vive de consciência, estratégia e coragem para atravessar o deserto quando os seguidores somem. Porque, no fim, quem confunde aplauso com poder descobre — tarde demais — que fama não sustenta revolução, só vaidade.

A marcha serve para inflar emoções. E isso não é pequeno. Emoção é combustível. Fé e paixão movem mais que estatísticas. Mas emoção sem estrutura vira fogueira: aquece rápido e apaga cedo. Como dizia Ortega y Gasset, “a massa não quer entender, quer sentir”. O problema não é sentir — é parar aí.

A Marcha da Liberdade mexe nas estruturas simbólicas do país. Isso já é algo. Mas eficácia política não nasce só da mística: nasce da combinação entre narrativa, organização e leitura fria do tabuleiro.

No final, vale recorrer à alegoria. Em Game of Thrones, há uma cena célebre entre Cersei Lannister e Petyr Baelish. Mindinho diz: “Conhecimento é poder”. Cersei responde mandando seus guardas o prenderem pelo pescoço. Depois os manda soltá-lo. E então diz: “Poder é poder.”

Ali está a aula que toda marcha deveria lembrar. Não é discurso, não é carisma, não é performance. É capacidade real de decidir o jogo quando o espetáculo acaba.

Na ficção e na política, é igual. Marchas inflamam. Narrativas arrebatam. Emoções organizam multidões. Mas, quando o barulho some, o que resta é quem controla posições, alianças, instituições e tempo histórico.

A Marcha da Liberdade pode ser o início de algo maior — ou apenas mais um capítulo emocional da política brasileira. Ela já cumpriu uma função: mexer no imaginário, trocar símbolos, reacender paixões.

Mas quem entra na jornada do herói precisa saber: o aplauso é vento. O mito é chama. O poder, porém, é estrutura.

E estrutura não nasce na rua — nasce quando o herói aprende a caminhar sozinho, mesmo quando a multidão já foi embora.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
DirceuHá 2 meses Brighton - Inglaterra Parabéns como sempre deveria fazer um vídeo com seus textos pra atingir um numero maior de pessoas
Mostrar mais comentários
Rodrigo Schirmer Magalhães
Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) e um dos fundadores do canal GUERRA da INFORMAÇĀO.
Ver notícias
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,01 +0,19%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 387,868,77 -0,18%
Ibovespa
197,323,88 pts 1.12%
Publicidade
Publicidade
Publicidade