O Brasil discute o risco de se tornar uma Venezuela, mas frequentemente foca apenas na tirania política. A verdadeira ameaça, no entanto, é a venezuelização silenciosa da nossa economia: o colapso gradual causado por escolhas fiscais imprudentes e pela dependência crônica do Estado.
Após o alerta sobre o custo da tirania em Cuba, é imperativo olhar para a Venezuela não como um espelho de fumaça ideológico, mas como um alerta fiscal e institucional sobre a rota que o Brasil insiste em seguir.
1. A Espiral Viciosa: Dependência e Rigidez Inegociável
O ponto de inflexão mais alarmante do nosso cenário é a dependência social: hoje, cerca de 94 milhões de brasileiros, aproximadamente 44% da nossa população, já dependem de algum programa social federal.
Este dado, por si só, indica uma crise estrutural:
- Rigidez Política: O gasto social, uma vez alcançado este patamar, torna-se intocável, garantindo o déficit crônico.
- Fragilidade Fiscal: A dimensão da rede de proteção garante que o gasto primário não possa ser cortado sem uma crise política de grandes proporções.
- Máquina Inflacionada: Em paralelo, a máquina estatal continua superdimensionada, consumindo uma Dívida Bruta que beira os 80% do PIB e que o Arcabouço Fiscal, por desenho, garante que continuará crescendo.
Na Venezuela, a receita do petróleo foi usada para financiar um Estado inchado até o colapso. No Brasil, estamos usando a alta carga tributária e a emissão de dívida para manter uma estrutura que cria dependência e destrói a capacidade de investimento.
2. O Risco Real: Inflação Gerada Pelo Governo
O pânico da hiperinflação do Governo Sarney reside na memória institucional. Contudo, o risco do Brasil hoje não é o de uma inflação por demanda (causada pelo crescimento acelerado), mas sim de uma inflação por má gestão governamental.
Nossa inflação é cada vez mais um reflexo de choques de custos e de desconfiança fiscal:
- A Desvalorização do Real: O mercado global enxerga o crescente risco fiscal do Brasil (a Dívida subindo sem controle e a gestão temerária do governo). O resultado é a desvalorização do Real em relação ao Dólar, que encarece insumos, combustíveis e produtos importados, gerando uma inflação de custos.
- O Custo Brasil Insuportável: Com a segunda taxa de juros mais alta do mundo e o segundo maior custo tributário do mundo, o Brasil se torna um lugar onde é proibitivo produzir e investir. Essa combinação viciosa garante que a inflação seja estrutural.
3. A Armadilha da Estagflação para a Recessão Inflacionária
O Banco Central mantém a taxa Selic elevada para tentar conter essa inflação. Mas como a inflação é de custos e desconfiança (e não de demanda), o juro alto falha em resolver o problema e cria uma armadilha:
O juro elevado apenas derruba o crescimento, empurrando o país para a Recessão. Como o risco fiscal persiste, a desconfiança continua injetando pressão inflacionária.
O resultado é o pior dos mundos: a Recessão com Inflação (ou Recessão Inflacionária). A economia encolhe, o desemprego sobe, mas os preços continuam subindo por causa dos custos e da insegurança fiscal.
4. Não Seremos Venezuela Se...
Não seremos uma Venezuela no sentido da tirania total, pois o Brasil ainda possui âncoras institucionais importantes. Mas corremos o risco de um empobrecimento crônico e da perda de competitividade global.
O único caminho para reverter essa rota é fazer o oposto do que levou a Venezuela ao abismo:
- Reforma do Gasto: Desvincular e cortar a despesa primária, atacando o problema estrutural do Arcabouço.
- Liberdade Econômica: Redução da burocracia e do custo tributário para o setor produtivo.
- Credibilidade Fiscal: Respeito inegociável às regras e compromisso real com o equilíbrio das contas públicas.
A crise da Venezuela foi feita em casa. O Brasil precisa urgentemente parar de construir a sua própria, antes que seja tarde demais.
Por: Prof. Sílvio Levada
Administrador, contador e especialista em finanças. Criador do método “Como Sair das Dívidas e Conquistar Paz e Tranquilidade”, atua nos canais Prof. Sílvio Levada | Finanças & Afins, Notícias do Brasil e do Mundo, Canal de Brasília e Jornal Bunker Oficial
