
O Brasil vive um debate fiscal permanente, equilibrando a Dívida Bruta em patamares perigosos (próximos aos 80% do PIB) e a incessante busca por mais arrecadação para cobrir déficits que não param de crescer. É um cenário de risco lento, mas progressivo.
No entanto, para entender a velocidade e a virulência que a irresponsabilidade fiscal pode alcançar, é preciso olhar para o nosso vizinho. A Venezuela, uma nação que já foi uma das mais ricas do hemisfério, não é apenas um exemplo de fracasso político; é um alerta fiscal de que a Dívida Pública e o gasto descontrolado, quando ignorados, transformam a riqueza potencial de uma nação em pobreza real.
O que conecta a estagnação brasileira à tragédia venezuelana não é o nível de desespero, mas sim a doença fiscal crônica de seus Estados.
O primeiro ponto de convergência é a maldição da riqueza natural.
A Venezuela possuía as maiores reservas de petróleo do mundo. Sob o regime chavista, e com o barril de petróleo a preços astronômicos (chegando a $100), a receita foi vista como eterna. Essa bonança deu carta branca para o Estado venezuelano:
Hipertrofia do Gasto Social: Expansão de programas sociais não lastreados em produtividade.
Nacionalizações e Estatismo: Expansão do papel do Estado na economia, com má gestão e corrupção sistêmica.
Renda Fixa e Rigidez Orçamentária: O gasto se tornou rígido, insensível às variações do preço do petróleo.
O descontrole venezuelano não começou na crise; começou na bonança. A receita era usada para financiar uma máquina estatal gigante e insustentável, que não tinha capacidade de se bancar sem a injeção contínua e farta do petróleo.
No Brasil, temos uma dinâmica semelhante: nossa dependência das commodities (minério, soja) e dos picos de arrecadação criam a mesma ilusão do dinheiro fácil. A cada superávit primário pontual ou a cada nova medida de aumento de receita, o governo brasileiro resiste em fazer o que é necessário: cortar o gasto pela raiz.
O momento da verdade venezuelana veio quando o preço do petróleo despencou após 2014. A receita sumiu, mas a estrutura de despesa, a máquina inchada permaneceu.
Sem receita, e incapaz de cortar o gasto por rigidez política e constitucional, o governo recorreu ao único caminho disponível: financiar o déficit por meio do Banco Central, ou seja, imprimir dinheiro.
O resultado foi imediato e destrutivo: a Dívida Pública, já alta, foi monetizada, levando a taxas de hiperinflação que ultrapassaram 1.000.000% ao ano em 2018. A moeda nacional foi pulverizada, e com ela, a poupança, o poder de compra e o contrato social básico.
O Brasil não está imprimindo moeda para cobrir seu déficit (graças, em parte, à independência do Banco Central), mas o nosso risco está na trajetória da Dívida Bruta e na institucionalização do gasto. O Brasil não imprime o papel moeda, mas emite títulos da dívida pública com juros altos tornando um investimento atratitvo para o mercado internacional o que só atrai o capital especulativo.
O atual arcabouço fiscal, ao permitir que o gasto cresça junto com a receita, garante que o Estado brasileiro continue inchando, perpetuando a ineficiência.
Enquanto a Venezuela optou por um colapso inflacionário rápido, o Brasil opta por um colapso por endividamento lento, onde:
O Brasil está trocando o risco da hiperinflação pelo risco da estagnação perpétua ("stagflation"), onde a dívida crescente drena a capacidade de investimento do país, travando o crescimento e condenando o cidadão a pagar impostos cada vez mais altos por serviços cada vez piores.
A reação mais clara ao descontrole fiscal, seja ele lento ou rápido, é a fuga de capital e de pessoas.
Na Venezuela, a resposta da população foi a dolarização informal da economia e a massiva emigração (mais de 7 milhões de pessoas), levando consigo o capital humano. O cidadão comum perdeu a fé no Bolívar e no próprio país.
No Brasil, o voto de desconfiança é mais sutil, mas igualmente alarmante. A saída líquida de capital estrangeiro da Bolsa e da Renda Fixa em 2024 (cerca de US$ 18 bilhões) mostra que, embora as instituições brasileiras ainda funcionem, o mercado global não confia na nossa capacidade de resolver o problema fiscal de forma definitiva.
O capital procura segurança e previsibilidade. Se o país vizinho implode com uma doença fiscal, e o Brasil segue um caminho de descontrole, o capital simplesmente busca outros lugares, elevando o risco-país e, por consequência, o custo de vida e o custo do crédito para todos os brasileiros.
A grande lição de Caracas é que o Estado não pode viver acima de suas possibilidades sem consequências. A irresponsabilidade fiscal é um vírus que se manifesta de forma diferente (hiperinflação lá, estagnação cá), mas cujo resultado final é a pobreza generalizada.
A única forma de o Brasil garantir um futuro de prosperidade é quebrando este ciclo vicioso. Isso exige:
Austeridade Real: Cortes profundos e permanentes nas despesas correntes do Estado.
Credibilidade Fiscal: Uma âncora que seja respeitada, e que não permita o crescimento do gasto apenas para acomodar a receita.
Precisamos cortar o gasto pela raiz. O Brasil tem uma janela de oportunidade, protegida por instituições mais sólidas. Mas a persistência no erro fiscal é a única ponte que nos liga a destinos que prometem riqueza, mas entregam ruína. Olhemos para o espelho de Caracas, antes que o nosso futuro seja escrito com as mesmas letras.
Por: Prof. Sílvio Levada
Administrador, contador e especialista em finanças. Criador do método “Como Sair das Dívidas e Conquistar Paz e Tranquilidade”, atua nos canais Prof. Sílvio Levada | Finanças & Afins, Notícias do Brasil e do Mundo, Canal de Brasília e Jornal Bunker Oficial