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O NARCO-ESTADO DA FARIA LIMA

Não há crime organizado em nenhum país do mundo sem que o governo local seja, de alguma forma, sócio.

Walter Biancardine
Por: Walter Biancardine
28/08/2025 às 14h57
O NARCO-ESTADO DA FARIA LIMA

O Brasil não foge à regra da sociedade do Estado com o crime organizado – apenas a torna obscena. A “Operação Carbono Oculto”, deflagrada pela Polícia Federal no dia 28 de agosto, revelou a face que muitos ainda insistem em negar: o crime não se limita mais à periferia, ao tráfico nas bocas-de-fumo (ou “biqueiras” para vocês aí de São Paulo) ou ao cárcere de alta segurança. O Primeiro Comando da Capital (PCC) já não é apenas uma facção criminosa: é uma holding empresarial com assento na Avenida Faria Lima, o coração financeiro do país.

A operação mobilizou 1.400 agentes, cumpriu 200 mandados em dez estados e atingiu 350 pessoas físicas e jurídicas. O alvo: uma rede de 40 fundos de investimento controlados pelo PCC, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões. A engrenagem servia como mecanismo de lavagem e blindagem patrimonial, com fundos fechados, cotistas ocultos e estruturas montadas para dar aparência de legalidade ao dinheiro do crime.

Não se trata de cifras abstratas. O dinheiro do PCC comprou um terminal portuário, quatro usinas de etanol, mais duas em processo de aquisição, uma frota de 1.600 caminhões para transporte de combustíveis, além de mais de 100 imóveis, entre eles seis fazendas no interior paulista avaliadas em R$ 31 milhões e uma mansão em Trancoso (BA) adquirida por R$ 13 milhões. É o crime organizado ocupando não apenas territórios, mas setores inteiros da economia.

O esquema não parava aí. O BK Bank, uma fintech apontada como “banco paralelo” do PCC, movimentou cerca de R$ 46 bilhões em operações suspeitas. Mil postos de combustíveis espalhados por vários estados do país giraram mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com impostos sistematicamente sonegados. O prejuízo fiscal estimado ultrapassa R$ 7,6 bilhões.

Entre os principais alvos da ofensiva estão a Reag Investimentos, gestora listada na B3, e holdings financeiras sediadas na própria Faria Lima. O Banco Genial, parceiro da empresa de pesquisas Quaest, responsável por levantamentos que invariavelmente favorecem o governo Lula e a imagem do STF, também foi citado. O detalhe incômodo é que a mesma Genial aparece como patrocinadora das pesquisas eleitorais da Rede Globo – prova de que o sistema financeiro, o sistema político e o sistema de comunicação caminham juntos, em linha reta, para o mesmo lamaçal.

E o que dizer do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, ex-STF? Sua súbita perda do visto americano não é acaso. Washington já enxerga nele um símbolo do enfraquecimento da cooperação judicial e das investigações anticorrupção. Quando crimes de lavagem e conexões com organizações criminosas têm impacto internacional, entram no radar não apenas do FBI, mas também do USTR – a esfera comercial que regula as relações de mercado entre países. Ou seja: não estamos diante de um problema doméstico, mas de um risco sistêmico de ordem global.

Eis o ponto crucial: se você recebe um simples pix acima do normal, seu banco aciona alertas, exige reconhecimento facial, documentação extra, comprovação de origem. Mas se o PCC movimenta bilhões, adquire usinas, portos e caminhões, nada acontece. A explicação é óbvia: há instituições financeiras cúmplices, conscientemente associadas ao crime. A pergunta inevitável emerge: quais bancos, corretoras, fintechs e fundos sabiam que lavavam dinheiro do PCC? Quais gigantes nacionais do mercado fecharam os olhos, permitindo que transações desse porte passassem despercebidas?

A manchete é clara: o crime organizado tomou conta do Estado e da economia formal. O PCC já não depende de becos e presídios; ele dita rumos da macroeconomia, distorce o mercado, infiltra-se em pesquisas de opinião, financia campanhas e se blinda sob a proteção das elites jurídicas e políticas.

Quem ainda acredita que o Brasil é apenas um país com criminalidade elevada não entendeu nada. Vivemos sob uma narco-ditadura, viabilizada pela omissão calculada do poder público e pela parceria dissimulada das elites. A cada operação policial, descortina-se não apenas a ousadia do crime, mas a podridão de um sistema que deixou de combater o mal para transformá-lo em sócio.

E o que acontecerá agora, diante de tamanha revelação? Muito provavelmente, nada. Pois em uma narco-ditadura a notícia é apenas uma anedota, e a indignação, mero espetáculo.

Algumas empresas e grupos envolvidos na teia criminosa do PCC

1. Estão sob investigação (fonte: Infomoney)
Fintechs e instituições de pagamento:

  • BK Bank

  • Bankrow
    Gestoras e DTVMs:

  • Reag

  • Trustee

  • Altinvest

  • Banvox

  • Libertas

  • Actual

  • Ello
    Distribuidoras de combustíveis:

  • Aster

  • Copape

  • Duvale

  • Arka

  • Rodopetro

  • Rede Sol Fuel

  • Port Brazil
    Usinas:

  • Carolo

  • Virgolino de Oliveira

  • Itajobi

  • Furlan

  • Rio Pardo

  • Comanche

  • Goiás Bioenergia
    Transporte e logística:

  • G8 Log

  • TLOG

  • Rio Log

  • Liquipar

2. Empresas químicas, logísticas e fintechs citadas pela Band

  • ALIANÇA BIOCOMBUSTÍVEL EIRELI

  • ARARAS QUÍMICA DO BRASIL EIRELI

  • BRASLIMP QUÍMICA INDÚSTRIA E COMÉRCIO EM GERAL LTDA.

  • DIAMOND CHEMICAL SOLVENTES LTDA.

  • GPC QUÍMICA S/A

  • INDÚSTRIA DE COSMÉTICOS VALE PETRO LTDA.

  • INDÚSTRIA DSW LOGÍSTICA EM GERAL LTDA

  • IPÊ BIOCOMBUSTÍVEL LTDA.

  • LOG FUEL TRANSPORTES LTDA.

  • MALTA TRANSPORTES RODOVIÁRIOS

  • MANNABIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO, PRODUÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO LTDA.

  • QUANTIQ DISTRIBUIDORA LTDA.

  • OREONN IND. E COMÉRCIO DE ÓLEOS VEGETAIS E QUÍMICAS LTDA.

  • QUÍMICA ARAGUAYA INDÚSTRIA, COMÉRCIO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA.

  • QUIMICOLOR INDÚSTRIA E COMÉRCIO EM GERAL LTDA.

  • ROYAL QUÍMICA LTDA.

  • BK INSTITUIÇÃO DE PAGAMENTO S.A. (BK Bank)

  • CATTALINI TERMINAIS MARÍTIMOS S.A. Band

3. Informações gerais e contexto das investigações

  • Foram atingidos cerca de 350 alvos, entre pessoas físicas e jurídicas, em 8 a 10 estados. A Faria Lima concentrou 42 desses alvos, entre fintechs, corretoras e fundos de investimento.

  • A Justiça decretou a indisponibilidade de quatro usinas, cinco administradoras de fundos e cinco redes de postos de gasolina. Os cinco postos alvo estão em operação em 300 endereços.

E então fica a interrogação que ninguém ainda perguntou: por que justamente agora? Na semana em que os Estados Unidos deslocam um grupo naval para o entorno do Caribe e da costa venezuelana, em operação “anticartéis” com destróieres, cruzador e navio-anfíbio, elevando a pressão militar sobre Maduro – a quem Washington vincula ao chamado Cartel de los Soles e já submeteu a novas sanções do Tesouro – o Brasil amanhece com a maior ofensiva da PF contra a infiltração do crime no sistema financeiro. Coincidência? Ou gesto calculado de alinhamento, quando a Casa Branca também abre uma investigação comercial contra o Brasil sob a Seção 301, com audiência já marcada?

E há mais um travo amargo nesse cálice: Ricardo Lewandowski, ministro da Justiça e ex-STF, teve o visto americano revogado nesta mesma quadra de tensões – fato publicamente confirmado pelo próprio presidente da República. Um recado? Uma sinalização de desconfiança sobre a cooperação anticorrupção e antilavagem no Brasil?

Por fim, a figura que paira sobre a Polícia Federal: Alexandre de Moraes. Não há prova de que tenha sido “advogado do PCC” – as checagens sérias desmentem essa versão. Mas é fato que, na advocacia privada, ele atuou em causa de cooperativa de transporte depois citada em investigações por suposta ligação com a facção. Num país de ambiguidades institucionais, isso basta para alimentar a percepção de tutela política sobre órgãos de Estado – percepção que, verdadeira ou não, corrompe a confiança pública; afinal, à mulher de César não basta ser honesta: é preciso, também, parecer honesta.

Então, por quê agora? Porque é preciso mostrar serviço a Washington quando a maré sobe no Caribe? Porque convém erguer uma cortina de fumaça enquanto se poupam certos circuitos “respeitáveis” do mercado? Ou porque, enfim, o narco-Estado percebeu que a vista do xerife está apontada para cá – e decidiu organizar o cenário antes da batida?

Escolha a resposta que melhor explica o Brasil de hoje.

Qualquer uma delas é terrível.



Walter Biancardine





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Walter Biancardine
Walter Biancardine é jornalista, ex-aluno de Olavo de Carvalho, autor de seis livros e já trabalhou em jornais, revistas, rádio e TV.
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