
Nelson Rodrigues, esse cronista implacável da alma brasileira, dizia que a maior utopia do nosso povo não é o amor, nem o dinheiro, nem a revolução. É um ouvinte. Sim, alguém capaz de escutar sem a pressa de interromper, sem o vício da réplica, sem a ansiedade de aparecer. Alguém que nos conceda a graça de sermos, simplesmente, ouvidos.
Esse detalhe aparentemente banal carrega uma força descomunal. Porque ser ouvido é mais do que um gesto de cortesia: é o reconhecimento da nossa dignidade. É a validação de que existimos. Nelson repetia: “santo é o que ouve”. E talvez seja por isso que a própria imagem de Deus, em tantas tradições, é a de um ouvido absoluto, aquele que não perde um só rumor de nossa vida profunda.
Mas a sociedade contemporânea parece ter perdido essa noção elementar. Hoje, confundimos falar com existir. Daí o desespero que se vê nas redes sociais: todos gritam, ninguém escuta. Cada um falando para dentro da sua bolha, a esquerda para a esquerda, a direita para a direita, e no meio um silêncio ensurdecedor. O diálogo morreu, substituído por uma guerra de monólogos.
O mesmo Nelson, que não temia chamar o Brasil de “uma pátria de idiotas”, provavelmente olharia para esse espetáculo digital e concluiria que nos tornamos um país de surdos — e de surdos que falam demais. Nunca fomos tão capazes de nos expor e, paradoxalmente, nunca estivemos tão distantes de nos escutar. Não por acaso, ele dizia: “Toda unanimidade é burra.” O que vemos nas redes é exatamente isso: a busca ansiosa por unânimes curtidas, ainda que à custa da inteligência.
Essa lógica da performance, em que importa mais aparecer do que compreender, não se limita ao universo virtual. O mundo profissional a reproduz com perfeição. O tão exaltado networking virou teatro. O que deveria ser espaço de encontro autêntico, tornou-se ritual de encenação. Nos eventos, as pessoas não se encontram: se exibem. Não dialogam: trocam performances. É o espetáculo da autopromoção, onde cada conversa vira oportunidade calculada, cada sorriso vira ferramenta de ascensão.
E, quando todos aceitam as regras desse jogo, instala-se a doença. Ninguém confia em ninguém. Colaboração se transforma em competição disfarçada. O genuíno passa por ingênuo, a transparência por fraqueza. Todos interpretam personagens, mas ninguém ousa mostrar o rosto. O custo invisível é imenso: ambientes tóxicos, profissionais emocionalmente distantes, vidas drenadas pela performance contínua.
O mais trágico, porém, é perceber que essa mesma lógica contaminou a política. Nossos representantes, tanto de esquerda quanto de direita, converteram-se em atores de uma tragicomédia interminável. Nas tribunas e nas redes sociais, vivem de frases ensaiadas, indignações coreografadas, virtudes sinalizadas para as suas bolhas. Não buscam o diálogo, mas o aplauso imediato. Não falam com o povo, mas com seus seguidores. É a política reduzida a marketing, as instituições transformadas em cenários, os discursos em roteiros.
Nelson, com sua ironia ferina, provavelmente diria que o Congresso se tornou uma novela ruim, e que os políticos, “canalhas metafísicos”, fazem do país um palco de tragicomédias sem fim. E não estaria errado. O debate público brasileiro hoje não é debate: é espetáculo. Não se procura a verdade, mas a melhor atuação. Ele mesmo já alertava: “A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa.” E o que vemos hoje é a impunidade disfarçada de espetáculo moralista.
E aqui está a raiz do problema: quando a sociedade se organiza em torno da performance, a escuta se torna um ato revolucionário. Escutar é subversivo porque interrompe o teatro. Escutar é devolver humanidade ao outro. É dizer: você não é apenas mais uma voz no ruído, você é alguém que merece ser levado a sério.
Isso vale para as redes sociais, para o trabalho, para a política e para a vida pessoal. Escutar exige coragem, porque implica baixar a guarda. É mais fácil fingir interesse do que se abrir ao outro. É mais confortável performar do que se arriscar na vulnerabilidade de uma escuta verdadeira. Mas é apenas no espaço do silêncio atencioso que nascem a confiança, a colaboração e até a fé.
Talvez seja essa a lição de Nelson que esquecemos: a dignidade começa quando alguém se dispõe a nos ouvir. Sem isso, tudo o que nos resta são encenações baratas, redes de contatos sem contato, discursos sem interlocutores, políticas sem povo. Como ele próprio ironizou: “Sem paixão, não dá nem para chupar um picolé.” E talvez possamos adaptar: sem escuta, não dá nem para começar uma democracia.
E a pergunta que nos sobra, a cada dia, é quase infantil: estamos realmente ouvindo alguém? Ou apenas esperando a nossa vez de falar?
O país dos surdos talvez ainda tenha salvação. Mas só se descobrirmos, antes que seja tarde demais, que santo não é quem fala bonito. Santo é o que ouve.