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ELEIÇÕES 2026: O IMPASSE BRASILEIRO ENTRE O SISTEMA, A JURISTOCRACIA E A HISTÓRIA PERDIDA

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Rodrigo Schirmer Magalhães
Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
25/08/2025 às 10h57 Atualizada em 25/08/2025 às 11h59
ELEIÇÕES 2026: O IMPASSE BRASILEIRO ENTRE O SISTEMA, A JURISTOCRACIA E A HISTÓRIA PERDIDA
1. A conjuntura brasileira: crise múltipla e repetição da tragédia
 
O Brasil de 2025 caminha para as eleições de 2026 com o peso de suas próprias contradições. A economia patina: carga tributária crescente, inflação persistente, endividamento público fora de controle e desindustrialização acentuada. O campo político se mantém refém de uma polarização estéril: de um lado, o lulismo sustentado pela máquina estatal; de outro, o bolsonarismo combalido pela perseguição institucional e pela provável inelegibilidade de seu líder.
 
No meio, uma sociedade cansada, sem confiança em partidos ou instituições, assistindo a um Judiciário que assumiu a centralidade política da nação. Trata-se daquilo que juristas chamam de juristocracia: quando tribunais deixam de ser árbitros para se tornarem protagonistas da vida política, convertendo o voto em mera liturgia sem consequência prática.
 
O Brasil parece encenado num ciclo que se repete: crises econômicas que se desdobram em crises políticas, estas em rupturas institucionais, e o país, mais uma vez, se afasta de qualquer possibilidade de projeto nacional. Como observou Sérgio Buarque de Holanda, nossas crises não são eventos isolados, mas sintomas da falta de raízes profundas: “Nossa história é feita mais de começos interrompidos do que de realizações contínuas.”
 
2. O poder real e a captura institucional
 
Para entender o presente, é preciso retornar ao conceito de poder real, trabalhado por Olavo de Carvalho: não governa quem ocupa a cadeira, mas quem controla as instituições permanentes que definem as regras do jogo. No Brasil, esse núcleo é formado pelo STF, Ministério Público, burocracia federal e grandes grupos de mídia.
 
Max Weber já indicava que um Estado moderno se consolida pela dominação legal-racional; mas no Brasil, o que impera é a lógica patrimonialista: a máquina estatal como extensão de grupos privados. Raymundo Faoro mostrou que somos governados por um estamento burocrático que sobrevive a governos e regimes. Troca-se o inquilino do Planalto, mas o senhorio permanece o mesmo.
 
Essa é a chave para compreender por que, mesmo após eleições sucessivas, o país continua imóvel. O poder não está no Palácio do Planalto, mas em instituições blindadas, inamovíveis e, hoje, inclinadas ideologicamente a um projeto de tutela política.
 
3. Economia em frangalhos: o Estado que consome o país
 
A política econômica atual reflete o mesmo patrimonialismo. O Estado consome riqueza antes mesmo que ela exista. A elevação de impostos sob o discurso de justiça social não corrige desigualdades, apenas sustenta a máquina. Como já dizia Roberto Campos, “o Brasil não perde oportunidade de perder oportunidades”.
 
O empresariado, sem horizonte de segurança jurídica, prefere especulação a investimento produtivo. O capital externo olha o país com desconfiança, sabendo que qualquer governo terá de se curvar ao centrão e ao STF, o que gera instabilidade institucional permanente.
 
4. O novo cenário geopolítico: Brasil na contramão da história
 
No tabuleiro global, o Brasil se encontra em posição delicada. A reconfiguração da ordem mundial, ainda sob a hegemonia dos EUA, mas com a emergência de polos alternativos (China, Rússia, BRICS), exige clareza estratégica.
 
Enquanto potências médias aproveitam o redesenho para ganhar autonomia, o Brasil permanece refém de disputas internas. Pior: o governo petista e o STF assumiram postura de enfrentamento direto com os EUA sob a liderança de Donald Trump. Esse embate é desastroso: não temos musculatura para desafiar a maior potência do planeta. O que se apresenta como bravura anti-imperialista é, na prática, suicídio diplomático e isolamento econômico.
 
Ao não se organizar internamente, o Brasil perderá mais uma vez uma oportunidade histórica. Desde o golpe republicano de 1889, passando por 1930, 1964 e 1988, nossa história é marcada por rupturas e reformas que, em vez de consolidar um projeto nacional, serviram para manter a nação sob tutela de elites internas e interesses externos. Como em um destino trágico, sistematicamente deixamos escapar o momento de afirmação soberana.
 
5. O avanço do crime organizado: o risco do narcoestado
 
À crise institucional soma-se um fator cada vez mais explosivo: o avanço do crime organizado. Segundo dados recentes, 26% do território nacional já é controlado por facções criminosas. O narcotráfico se expandiu além das periferias e fronteiras, infiltrando-se nas próprias instituições.
 
Após quase três décadas de hegemonia da esquerda no poder, o crime se enraizou na máquina estatal, seja pela leniência, seja pela conivência ativa de agentes públicos. O Brasil, caso nada mude, caminha para se tornar um narcoestado: um país onde o poder paralelo não só compete com o Estado, mas se associa a ele.
 
A falência do monopólio da força — que Weber apontava como condição mínima do Estado moderno — já é realidade em grandes regiões do país. E nenhum projeto de governabilidade conseguirá prosperar num cenário em que a lei é fragmentada e submetida a poderes paralelos.
 
6. A alternativa de centro: governadores e o pacto com o sistema
 
Com Bolsonaro enfraquecido, surge a possibilidade de uma candidatura de centro: Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ratinho Júnior ou Ronaldo Caiado.
• Tarcísio de Freitas combina perfil técnico com capacidade de execução, mas sua origem militar e ligação inicial com Bolsonaro ainda pesam.
• Romeu Zema apresenta-se como gestor liberal, mas demonstra dificuldades em articulação política, essencial num país dominado pelo presidencialismo de coalizão.
• Ratinho Júnior, habilidoso no Paraná, é conciliador, mas reproduz práticas tradicionais de poder regional.
• Ronaldo Caiado, veterano da política, alia discurso moralizador à experiência, mas está mergulhado há décadas na lógica do sistema.
 
Todos eles têm acertos e falhas. São bons gestores em microcosmos, mas o Brasil é um labirinto degenerado por séculos de patrimonialismo. E nenhum governará sem se curvar ao centrão — hoje mais forte do que nunca, capitaneado por PSD, MDB, Republicanos e, mais recentemente, pela União Progressista, federação que une União Brasil e Progressistas. Como dizia Victor Nunes Leal, o coronelismo apenas muda de roupagem: antes a enxada, agora as emendas parlamentares, que institucionalizam a corrupção.
 
O fiador desse arranjo será inevitavelmente Michel Temer e sua rede de influência, símbolo do pragmatismo fisiológico. Assim, mesmo com discursos renovados, o pacto com o centrão perpetuará a velha engrenagem da corrupção sistêmica.
 
7. O bolsonarismo no interregno e o risco do lulismo
 
A única saída tática para Bolsonaro seria recuar e apoiar uma candidatura de centro, ganhando tempo para reorganizar sua base e amadurecer como movimento político. Essa postura estratégica pode garantir sobrevida ao bolsonarismo, mesmo fora do poder formal.
 
O grande risco para o Brasil seria um quarto mandato de Lula. Isso consolidaria definitivamente a captura institucional do país: aparelhamento do Estado, dependência de programas assistenciais, aliança promíscua com o STF e enfrentamento imprudente com os EUA. Mais quatro anos de lulismo seriam a cristalização da tragédia nacional.
 
8. O Brasil real e o eterno impasse estrutural
 
Mesmo diante dessa hipótese de “candidatura de centro”, é preciso clareza: nada disso resolverá os problemas estruturais. Sérgio Buarque de Holanda mostrou a força da cordialidade e do personalismo. Faoro expôs a dominação do estamento burocrático. Nunes Leal revelou o coronelismo como lógica de poder. Gilberto Freyre lembrou como a herança de Casa Grande e Senzala continua moldando nossa mentalidade política.
 
Agora soma-se a isso o elemento novo: o crime organizado como poder paralelo e enraizado, ameaçando não apenas a política, mas a própria existência do Estado.
 
As eleições apenas legitimam, a cada quatro anos, um sistema que se mantém intocado. Como disse Hannah Arendt, “onde todos são culpados, ninguém é”. A corrupção é estrutural, dilui responsabilidades e perpetua o círculo vicioso.
 
9. Conclusão: a alternativa menos pior e a necessidade de um projeto de nação
 
As eleições de 2026 podem oferecer uma saída momentânea ao caos, através de uma candidatura de centro que acalme o mercado e diminua a polarização. Mas isso não será solução: apenas um remendo de superfície.
 
A verdade incômoda é que só haverá soberania quando o Brasil se tornar efetivamente uma nação — com identidade cultural, continuidade histórica, cultivo de heróis e, sobretudo, um projeto de futuro. Sem isso, permaneceremos reféns de agendas externas, da tutela de uma juristocracia e da infiltração de um narcoestado.
 
Como lembrava Olavo de Carvalho, “o poder real é aquele que permanece quando todos os outros já passaram”.
E no Brasil, as eleições de 2026 não mudarão esse fato: serão apenas mais uma ondulação na superfície de um oceano profundo de permanências.
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Rodrigo Schirmer Magalhães
Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) e um dos fundadores do canal GUERRA da INFORMAÇĀO.
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