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ADULTIZAÇÃO E SEXUALIZAÇÃO INFANTIL NO BRASIL

UMA LINHA TÊNUE ENTRE O ONTEM E O HOJE

Rodrigo Schirmer Magalhães
Por: Rodrigo Schirmer Magalhães
19/08/2025 às 16h41
ADULTIZAÇÃO E SEXUALIZAÇÃO INFANTIL NO BRASIL
“Cada época fabrica sua infância.” — Philippe Ariès
 
A infância nunca foi um conceito fixo. Ela é um produto histórico, cultural e social. No Brasil, desde os tempos coloniais até os dias atuais, a linha que separa a criança do adulto foi, muitas vezes, tênue — por vezes inexistente. O fenômeno da adultização infantil não é novidade: ele acompanha a formação da sociedade brasileira, ora naturalizado, ora contestado.
 
O que se torna ainda mais grave no presente é quando essa adultização se mistura com a sexualização precoce, prática que atravessou séculos em silêncio, mas que hoje assume formas sofisticadas, midiáticas e globalizadas.
 
1. Brasil Colônia: infância breve, adultização precoce
 
Nos séculos XVI e XVII, a infância não era entendida como um período protegido da vida. Filhos eram força de trabalho e continuidade da família. Crianças de 7, 8 ou 9 anos já executavam tarefas domésticas, cuidavam dos irmãos menores ou ajudavam os pais na roça e nos ofícios.
 
Meninas se casavam cedo, muitas vezes entre 12 e 15 anos, como registrado em crônicas e inventários coloniais.
 
Quem nunca ouviu falar de uma avó ou bisavó que casou aos 15 anos? Não era exceção absoluta, mas um costume socialmente aceito em várias regiões. Não se tratava de “perversidade”, mas de uma mentalidade em que a infância não era concebida como temos hoje.
 
Como lembra o historiador Philippe Ariès, a infância era vista apenas como um “vir a ser” adulto em construção, não como uma fase autônoma. A maturidade era antecipada pela necessidade, não pelo desejo.
 
2. Séculos XIX e XX: trabalho, educação e gravidez precoce
 
Com a urbanização e a industrialização, o trabalho infantil se tornou presença marcante. Crianças eram operárias, engraxates, vendedoras ambulantes. A escola começava a ganhar importância, mas não anulava o peso das responsabilidades precoces.
 
O Brasil manteve até hoje uma chaga ligada à gravidez precoce, especialmente em áreas mais pobres. Meninas que, pela falta de orientação e proteção, tornam-se mães ainda na adolescência, perpetuando ciclos de vulnerabilidade.
 
O jurista Rui Barbosa já denunciava o trabalho infantil no início do século XX:
 
“As crianças são exploradas como engrenagens vivas de uma máquina social que as devora.”
 
Somente na segunda metade do século XX a infância ganhou centralidade como direito. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990) marcou a consagração da proteção integral.
 
Mas, em paralelo, a cultura popular abria espaço para uma exposição perigosa.
 
3. A sexualização infantil na cultura brasileira
 
A sexualização de crianças não é fenômeno contemporâneo. Sempre existiu. Mas foi na cultura de massa que se naturalizou e ganhou formas explícitas.
• Décadas de 1980 e 1990: programas infantis com Xuxa, Angélica e Mara Maravilha mostravam crianças dançando coreografias sensualizadas em rede nacional.
• Concursos de Silvio Santos exibiam meninas em trajes e poses que hoje seriam considerados abusivos.
• O filme “Amor Estranho Amor” (1982), estrelado por Xuxa ainda no regime militar, é prova de que não houve uma era “inocente”: a exploração sempre esteve presente, apenas não denunciada.
• O quadro “Banheira do Gugu” (anos 90) colocava adolescentes em disputas de conotação sexual transmitidas como entretenimento.
• O programa “H” de Luciano Huck (fim dos anos 90) introduziu personagens como Tiazinha e Feiticeira, símbolos de fetiche sexual exibidos em horário nobre. Seus quadros expunham adolescentes em situações constrangedoras e normalizavam a pornografia leve como humor televisivo. As HZetes, dançarinas do programa, seguiam a mesma lógica: mulheres-objeto diante de milhões de espectadores — entre eles, incontáveis adolescentes em formação.
• Poucos anos depois, o Pânico na TV levou isso ao paroxismo com as Panicats, que passaram a encarnar a caricatura da mulher-mercadoria, celebrada em trajes mínimos em horário aberto.
 
E aqui um depoimento pessoal: nasci na década de 80 e vivi minha adolescência nos anos 90. Cresci assistindo a tudo isso. Vi Paquitas vestidas como “mini-adultas”, Madonna escandalizando o mundo com sua erotização explícita, o axé e o “É o Tchan” invadindo as casas com letras e coreografias carregadas de duplo sentido. Depois vieram Anitta e cantoras de hip hop, que transformaram a sexualização em produto de exportação.
 
Tudo isso entrava no inconsciente infantil sem filtro.
 
Se na Colônia a adultização vinha pelo trabalho e pelo casamento precoce, no fim do século XX ela vinha pela cultura midiática e musical, que introduzia crianças e adolescentes num universo erotizado antes mesmo que entendessem o significado do desejo.
 
4. A exploração sexual: uma ferida aberta
 
O Brasil é reconhecido internacionalmente como um dos países mais críticos no tema da exploração sexual infantil. O arquipélago do Marajó (PA) é símbolo de uma realidade brutal, onde redes criminosas exploram meninas e meninos de forma sistemática.
 
Com a chegada da internet, a violência ganhou novos contornos. Redes de pedofilia se organizam em plataformas digitais, utilizando desde avatares até influencers infantis para atrair crianças.
 
O filme “Sound of Freedom” (2023) expôs ao mundo essa indústria invisível, mas no Brasil ela é diária, cotidiana e banalizada.
 
E aqui um ponto importante: o recente vídeo do Felca sobre esse tema não é uma denúncia inédita. É apenas mais uma tentativa — necessária, mas insuficiente — de mostrar que esse problema é antigo e permanece sem solução.
 
5. A infância nos ambientes de massa: carnaval e paradas
 
Além da mídia e da internet, há outros espaços em que a infância é exposta à adultização e sexualização:
• Carnaval: meninas e meninos são fantasiados com roupas erotizadas, expostos em desfiles e blocos que giram em torno de símbolos sexuais. O ambiente de hipersexualização, onde corpos são mercadoria visual, não poupa os pequenos.
• Paradas LGBT: é inegável que seu ambiente é explicitamente sexualizado — e a liberação de crianças nesses espaços representa uma exposição precoce a práticas e símbolos de ordem adulta.
 
Esses ambientes não são pensados para crianças, mas a cultura do “vale tudo” normaliza a presença delas, sem qualquer discernimento sobre os impactos psicológicos e sociais.
 
6. O hoje: a infância colonizada pelo mercado
 
Hoje, a adultização e a sexualização não acontecem mais somente no trabalho ou no casamento precoce. Elas são fabricadas pelo mercado do entretenimento, da moda e da internet.
 
Crianças têm acesso irrestrito a celulares, redes sociais e conteúdos de natureza sexualizada. Músicas de funk e hip hop, clipes de artistas como Anitta ou Cardi B, e danças viralizadas no TikTok expõem corpos e gestos antes mesmo que os pequenos compreendam sua identidade.
 
O filósofo Byung-Chul Han resume o fenômeno da sociedade da exposição:
 
“O excesso de visibilidade não liberta, mas oprime.”
 
Nunca houve tanta visibilidade infantil — e nunca houve tanta vulnerabilidade.
 
7. Conclusão: um chamado aos pais
 
A adultização infantil sempre existiu, mas a sexualização precoce é uma praga que se reinventa a cada geração. Ontem, nos engenhos e fábricas. Depois, nos programas de auditório, no carnaval, nas músicas populares. Hoje, nas telas e nos algoritmos.
 
Pais, não se enganem: o Estado não protegerá seus filhos. O Estado legisla, investiga, pune — mas só os pais podem proteger, orientar e vigiar.
 
“É mais fácil construir crianças fortes do que consertar adultos quebrados.” — Frederick Douglass
 
Se não protegermos a infância agora, a sociedade do futuro será formada por adultos mutilados em sua essência. A inocência não é um luxo: é a condição primeira da humanidade.
 
E aqui uma distinção essencial: não é ruim — ao contrário, é saudável — que crianças e adolescentes participem das tarefas domésticas e, eventualmente, exerçam algum tipo de trabalho apropriado à idade. Isso sempre existiu na história humana e ajudou a moldar habilidades práticas, senso de responsabilidade e aprendizado real sobre a vida. O problema não está no trabalho saudável e formativo, mas na exploração e na sexualização.
 
O que ocorreu nas últimas décadas foi a transformação desse tema em escândalo, resultado de uma mudança de paradigma na psicologia infantil, muito influenciada por teorias pedagógicas como o construtivismo de Jean Piaget. Ao colocar a criança como ser quase intocável, frágil e sem deveres, a pedagogia moderna acabou criando uma geração menos preparada para a vida real, ao mesmo tempo em que fechou os olhos para a verdadeira perversão: a colonização da infância pela indústria cultural e pela erotização precoce.
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Rodrigo Schirmer Magalhães
Rodrigo Schirmer Magalhães
Cientista político pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) e um dos fundadores do canal GUERRA da INFORMAÇĀO.
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