Em Peaky Blinders, há um diálogo emblemático entre Thomas Shelby e Alfie Solomons que sintetiza uma verdade dura e universal na guerra pelo poder. Diante da ameaça de Luca Changretta, Shelby busca o apoio de Alfie, que o confronta com cinismo britânico:
“Tommy, você sabe como funciona: os grandes ganham dos pequenos. Sempre foi assim.”
Thomas, astuto, compreende que para derrotar um inimigo maior, precisa se associar a outro grande, ainda que essa aliança seja perigosa e custosa. E assim, forja um pacto com Alfie para enfrentar Luca.
O preço? Traições, mortes e dívidas políticas que moldariam o destino de todos os envolvidos.
Essa alegoria, embora ficcional, ecoa de forma perturbadora na realidade política do Brasil contemporâneo.
Afinal, quem seriam hoje os “Shelbys”, os “Alfies” e os “Lucas Changretta” em nosso cenário? E, mais importante, quem tem o tamanho necessário para enfrentar o “Foro de São Paulo” e a hegemonia progressista que domina a engrenagem político-institucional do país?
A Estratégia e Suas Armadilhas
Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo parecem vislumbrar uma resposta: alianças internacionais e aproximação com movimentos e figuras políticas estrangeiras que se contrapõem à agenda globalista. É uma tentativa de buscar um “Alfie” capaz de rivalizar com os “Changretta” da vez.
Mas, como Alfie bem sabia, alianças casuais cobram um preço: “No fim, Tommy, você terá que me pagar. Todos sempre pagam.”
A história brasileira é pródiga em exemplos dessa lógica. De Vargas a Lula, de militares a civis, alianças táticas resolveram crises momentâneas, mas deixaram cicatrizes profundas. Carl Schmitt, em sua teoria do inimigo, lembra que “a política é definida pela distinção entre amigo e inimigo”. No Brasil, todavia, a linha entre ambos sempre foi turva: os “inimigos” de ontem se tornam os aliados convenientes de hoje, e vice-versa.
Já Samuel Huntington, em O Choque de Civilizações, nos alerta que conflitos não são apenas políticos ou econômicos, mas culturais e civilizacionais. O Brasil, sem clareza de identidade política e refém de um estamento burocrático patrimonialista, parece lutar sem sequer saber a qual civilização pertence.
O Poder no Brasil: Uma Ilusão?
A charada de Varys em Game of Thrones ressoa aqui com força:
“Três homens estão em uma sala: um rei, um cavaleiro e um homem rico. Há também um mercenário com uma espada. Quem vive e quem morre? Onde está o poder?”
Varys conclui: “O poder reside onde os homens acreditam que ele reside. É um truque. Uma sombra na parede.”
No Brasil, essa sombra se materializa em instituições disfuncionais. Como diagnosticou Raymundo Faoro em Os Donos do Poder, nosso Estado é dominado por um patrimonialismo crônico, onde elites políticas e econômicas confundem o público com o privado, perpetuando clientelismo e privilégios.
• O Judiciário, hoje ator político central, age como poder moderador não previsto pela Constituição.
• O Legislativo negocia favores e emendas, reduzido a moeda de troca.
• O Executivo tornou-se refém de coalizões instáveis e barganhas.
• A mídia, em grande parte, funciona como correia de transmissão dos interesses dominantes.
• A Igreja, fragmentada, serve ora como legitimadora de poder, ora como espaço de resistência.
• O Exército, outrora visto como “reserva moral”, parece reduzido a uma instituição protocolar.
Nesse tabuleiro, o povo é mero espectador, aplaudindo ou vaiando conforme o roteiro previamente escrito.
E aqui é emblemática a postura de figuras como Caiado, Ratinho Jr., Tarcísio e Zema. Sua ausência das manifestações recentes e sua postura cautelosa revelam que, embora se apresentem como opções de direita moderada, estão profundamente integrados ao estamento burocrático, preferindo preservar posições dentro do sistema a confrontá-lo de frente.
As Manifestações e o Sentimento Difuso de Injustiça
A recente manifestação contra o regime Lula/STF demonstrou algo visceral: há um sentimento popular de que algo está profundamente errado.
A multidão foi às ruas não por lideranças – que, notoriamente, se ausentaram – mas por instinto. A ausência de presidenciáveis como Caiado, Ratinho Jr., Tarcísio e Zema foi gritante e reveladora: não porque “discordassem do ato”, mas porque fazem parte do estamento burocrático denunciado por Faoro, cuja sobrevivência depende de manter o jogo como está.
Por outro lado, a ausência forçada de Jair Bolsonaro, fruto de evidente perseguição política, teve um peso simbólico enorme. Gostem ou não dele, é inegável que Bolsonaro permanece sendo o que o povo acredita ser a direita no Brasil, uma figura emblemática de resistência ao sistema. Sua ausência não apenas reforçou seu papel como perseguido político, mas também expôs a orfandade de representação popular genuína nas ruas.
Essa distância entre povo e elites reflete o estágio avançado da teoria da subversão de Yuri Bezmenov, ex-agente da KGB:
1. Desmoralização: valores e instituições corroídos.
2. Desestabilização: polarização extrema e descrédito generalizado.
3. Crise: um gatilho gera caos controlado.
4. Normalização: um “novo normal” autoritário se impõe.
Estamos entre o 2º e o 3º estágio. E aqui surge a questão crucial: o povo ainda tem poder de mudar algo, ou a participação popular tornou-se apenas uma alegoria, uma catarse ritualística?
Hannah Arendt, ao falar da banalidade do mal, nos alerta: regimes não se sustentam apenas pela força, mas pela passividade e pela aceitação tácita das massas. O perigo não é só a tirania, mas a normalização da tirania.
Conclusão: Quem Será o Nosso Alfie?
Voltamos à lição de Peaky Blinders: Thomas Shelby venceu Luca Changretta não sozinho, mas escolhendo um aliado grande o suficiente para equilibrar a balança.
O Brasil precisa de um “Alfie Solomons” – não uma pessoa, mas um projeto civilizacional robusto, que articule poder interno e alianças externas capazes de rivalizar com a máquina hegemônica que hoje nos governa.
Mas é preciso lembrar: toda aliança cobra um preço. E, enquanto não entendermos que o poder é antes de tudo uma ilusão alimentada por crença coletiva, continuaremos reféns dessa sombra na parede que nos paralisa.
“Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado.” — George Orwell
O futuro do Brasil depende de romper com o estamento burocrático, superar a ilusão do poder popular desprovido de instrumentos reais e compreender que, em política, os grandes sempre ganham dos pequenos.
Resta decidir: queremos continuar pequenos, ou ousaremos nos tornar grandes?