
A cidade grande não olha para ninguém.
Ela contabiliza.
O homem comum aprende cedo que não é presença, é registro.
Um número que entra, outro que sai.
Se falha, é excluído.
Não há drama,
apenas atualização de sistema.
A cidade não odeia;
isso seria pessoal demais.
Ela simplesmente não se importa.
O desempregado descobre algo pior que a miséria:
a irrelevância.
Não falta apenas dinheiro –
falta lugar.
Ele continua acordando cedo
porque o corpo não desaprende a servidão tão facilmente.
Caminha entre prédios altos demais,
feitos para esmagar qualquer pretensão
de singularidade.
Passa por gente que o atravessa com o olhar
como se ele fosse fumaça.
A pobreza extrema ainda causa incômodo;
a inutilidade social, não.
Quando arruma trabalho,
não sente alegria.
Sente alívio,
que é a forma mais triste
de felicidade.
Volta a existir oficialmente.
Recupera o direito de ser
explorado,
cobrado,
pressionado.
Aprende rápido a calar certas perguntas. Questionar demais
não combina com folha de pagamento.
A lucidez é um luxo que o expediente não tolera.
Então começa a farsa
da individualidade.
O sujeito precisa acreditar que é único,
caso contrário enlouquece.
Compra uma roupa que “diz quem ele é”,
mas diz o mesmo sobre milhões.
Veste a própria uniformização com orgulho.
Escolhe músicas repetitivas,
batidas hipnóticas,
feitas não para escutar,
mas para ocupar espaço mental.
A música não eleva;
ela abafa.
É trilha sonora
para evitar o encontro consigo mesmo –
encontro sempre constrangedor.
Financia um carro em sessenta,
setenta parcelas.
O banco chama isso de conquista;
o tempo chama de hipoteca da juventude.
O sujeito dirige feliz nos primeiros meses,
depois dirige cansado,
depois dirige resignado.
O carro envelhece
antes dele terminar de pagar.
Como quase tudo.
É símbolo de sua liberdade
estacionada.
Ele dirige muito,
chega sempre atrasado
e nunca chega a lugar
algum.
O volante gira,
mas o destino é fixo.
Nos encontros com amigos,
o teatro atinge seu auge.
Todos chegam
tensos demais para serem sinceros.
Falam de sucesso
porque admitir fracasso exige intimidade consigo mesmo,
coisa rara.
Mentem com educação.
Sorriem com técnica.
Cada um exibe a versão
socialmente aceitável
do próprio naufrágio.
A felicidade virou um dever cívico,
uma norma de etiqueta e convívio:
quem não aparenta estar bem
é visto como ameaça.
Ninguém diz que acorda vazio.
Que trabalha sem acreditar.
Que sente inveja de quem morreu cedo demais.
Essas confissões não combinam com cerveja
nem com as selfies para o Instagram.
A verdade estraga o convívio.
Melhor seguir com frases prontas,
risadas ensaiadas
e histórias infladas.
A mentira coletiva mantém o grupo unido.
A sinceridade o dissolveria.
À noite,
quando o barulho baixa e sobra apenas
o teto e o cansaço,
algo escapa.
Uma sensação sem nome.
Não é tristeza clara, nem desespero teatral.
É uma percepção seca:
isso não vai a lugar nenhum.
A vida não se revela,
não se explica,
não se justifica.
Ela apenas continua,
como um erro que ninguém se deu ao trabalho
de corrigir.
O homem comum sente isso por segundos.
Logo empurra para baixo.
Amanhã tem trabalho. Amanhã tem conta. Amanhã tem mais uma rodada.
Pensar demais não muda nada
e ainda atrapalha o sono.
A lucidez não paga aluguel.
A cidade ajuda a empurrar. Oferece distração contínua,
ruído permanente,
estímulo infinito.
Tudo para evitar o silêncio –
porque o silêncio faz perguntas.
E algumas perguntas não têm resposta,
apenas constatação.
Que a vida não prometeu nada.
Que não há propósito oculto.
Que sobreviver talvez seja
o máximo que se pode exigir.
Não há redenção
esperando no fim da linha.
Não há sentido guardado
para quem “aguenta firme”.
Isso é consolo barato
para manter o sujeito funcional.
A existência não recompensa,
não pune,
não explica.
Ela apenas
consome tempo
e corpos,
um após o outro,
com eficiência admirável.
E ainda assim – ironia final – o homem continua.
Não por esperança,
mas por hábito.
Não por fé, mas por inércia.
Vive porque parar exige um gesto
que quase ninguém tem coragem de fazer.
Segue adiante com pequenas anestesias diárias:
café,
ruído,
tarefas,
promessas vagas.
Talvez haja uma dignidade mínima nisso tudo.
Não a dignidade heroica
dos discursos,
mas uma dignidade seca:
atravessar a vida
sem acreditar nas mentiras oficiais,
sem esperar que ela faça sentido,
sem pedir que seja justa.
Aceitar que viver é suportar,
e suportar já é trabalho suficiente.
Amanhã o despertador toca.
E o homem levanta.
Não porque acredita –
mas porque ainda não caiu.
Walter Biancardine