
A deputada federal licenciada Carla Zambelli (PL-SP) foi presa na terça-feira (29) pela polícia italiana em Roma, em mais um capítulo da perseguição política orquestrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra opositores do regime. A prisão marca um precedente grave na extensão internacional da caça às bruxas promovida pelo ministro Alexandre de Moraes.
Prisão em Apartamento Romano
Segundo fontes com conhecimento do caso ouvidas pela BBC News Brasil, Zambelli foi capturada no apartamento onde residia em Roma, localizado no bairro de Aurelio, a cerca de 11 quilômetros do Coliseu. A parlamentar estava na Itália desde o início de junho, após ser condenada pelo STF a dez anos de prisão por supostas invasões de sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A Polícia Federal confirmou a prisão em nota oficial: "Autoridades italianas prenderam na tarde desta terça-feira (29/7), em Roma, uma brasileira que se encontrava foragida no país. A medida é resultado de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal, a Interpol e agências da Itália".
A defesa de Zambelli, porém, afirmou que a deputada decidiu se entregar às autoridades italianas.
"Na tarde de hoje, minha cliente, a deputada Carla Zambelli, decidiu se entregar às autoridades italianas, a fim de colaborar administrativamente com os pedidos das autoridades, mostrando o seu endereço, mostrando que nunca foi foragida na Itália e estava esperando um posicionamento oficial para que ela pudesse se apresentar", disse o advogado Fabio Pagnozzi. Ela tenta não ser extraditada ao Brasil.
A PF, no entanto, informou em nota que "a presa era procurada por crimes praticados no Brasil e será submetida ao processo de extradição, conforme os trâmites previstos na legislação italiana e nos acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário".
Condenação Baseada em Depoimento de Hacker
Zambelli foi condenada pelo STF por supostamente coordenar, junto ao hacker Walter Delgatti, uma invasão ao sistema do CNJ no início de 2023. A acusação, que a deputada sempre negou veementemente, baseou-se exclusivamente nos depoimentos contraditórios de Delgatti, que a própria Polícia Federal classificou como "mitômano".
"A própria Polícia Federal, quando esteve na casa dele, o classificou como mitômano, que mente e inventa histórias", declarou Zambelli em sua defesa. O hacker alterou sua versão dos fatos em pelo menos seis depoimentos diferentes, demonstrando a fragilidade das acusações.
Cidadania Italiana Não Garante Proteção
Contrariando expectativas, a cidadania italiana de Zambelli não a protege da extradição. O precedente do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, extraditado da Itália para o Brasil em 2015 após condenação no caso mensalão, demonstra que a legislação italiana permite a entrega de cidadãos italianos em casos específicos.
O advogado e professor Frederico Glitz, da UFPR, explica: "Existe uma falsa sensação de que um nacional italiano não seria deportado. Existem exceções e, inclusive, um precedente envolvendo o Brasil". O caso se enquadra tanto no tratado bilateral Brasil-Itália quanto na Convenção de Budapeste sobre crimes cibernéticos.
Processo de Extradição em Andamento
A Justiça italiana tem agora 48 horas para decidir se Zambelli permanece presa ou se será liberada com medidas de monitoramento, como tornozeleira eletrônica, enquanto aguarda o trâmite do processo de extradição. O governo de Giorgia Meloni, considerada próxima ao ex-presidente Bolsonaro, terá a palavra final sobre a extradição.
Especialistas alertam que o processo pode se arrastar por anos, com possibilidade de recursos e reversões de decisões. "Não é rápido e nem fácil. Existem certos obstáculos a vencer", explica o procurador Vladimir Aras.
Declaração de Exílio Político
Em vídeo divulgado após a prisão, Zambelli reafirmou sua condição de exilada política: "Não vou voltar ao Brasil pra cumprir pena no Brasil. Se eu tiver que cumprir qualquer pena, vai ser aqui na Itália, que é um país justo e democrático". A declaração evidencia a percepção internacional sobre o autoritarismo do sistema judiciário brasileiro.
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante, confirmou que Zambelli iniciará pedido de asilo político e não extradição, reconhecendo oficialmente a perseguição política sofrida no Brasil.
Análise da Revista No Ponto Do Fato
A prisão de Carla Zambelli na Itália representa um marco sombrio na história da democracia brasileira: pela primeira vez, a perseguição política do STF alcança território europeu através de cooperação internacional. O caso expõe ao mundo a natureza autoritária do regime judiciário brasileiro sob Alexandre de Moraes.
É fundamental destacar que toda a acusação contra Zambelli baseia-se exclusivamente no depoimento de um hacker confesso, classificado pela própria Polícia Federal como "mitômano". Não existem provas técnicas ou documentais que comprovem o envolvimento da deputada nos supostos crimes. Trata-se de uma condenação política disfarçada de processo judicial.
A coragem de Zambelli em buscar asilo político na Itália, declarando publicamente que não retornará ao Brasil por considerá-lo um país sem garantias democráticas, ecoa internacionalmente e expõe a verdadeira face do regime autoritário instalado no STF.
O precedente é gravíssimo: se uma deputada federal pode ser perseguida, condenada sem provas e ter sua prisão solicitada internacionalmente, nenhum opositor do regime está seguro. A cooperação da Interpol neste caso demonstra como o STF conseguiu internacionalizar sua agenda de perseguição política.
A situação de Zambelli simboliza a resistência democrática contra o autoritarismo judiciário. Sua recusa em se submeter a um sistema judicial corrompido pela vingança política representa a dignidade de quem prefere o exílio à submissão ao arbítrio.
O caso também revela a estratégia do STF de usar a cooperação internacional para ampliar seu alcance persecutório, transformando opositores políticos em "fugitivos internacionais" através de processos viciados e condenações sem base probatória sólida.