
Ciro Gomes, ex-governador do Ceará e eterno presidenciável, está causando um terremoto político com uma aliança que ninguém viu chegar: um pacto com a direita cearense, de mãos dadas com bolsonaristas.
Após amargar 3% dos votos em 2022, Ciro mira 2026, seja para o governo do Ceará, seja, em “situação extrema”, para a Presidência. Sua nova estratégia é apoiar Alcides Fernandes, deputado estadual do PL, pastor evangélico de 57 anos e aliado de Jair Bolsonaro, para o Senado. Em troca, recebe elogios de André Fernandes, deputado federal do PL, de 29 anos, líder conservador que quase venceu a prefeitura de Fortaleza em 2024, conquistando 705 mil votos — apenas 11 mil a menos que Evandro Leitão (PT).
Essa aproximação, selada em maio de 2025 durante encontros na Assembleia Legislativa do Ceará, é um divisor de águas. Ciro, que já chamou Bolsonaro de “bandido” e celebrou sua inelegibilidade em 2023, agora senta à mesa com seus aliados. Em um café com deputados de oposição, incluindo Cláudio Pinho (PDT) e Capitão Wagner (União Brasil), Ciro elogiou Alcides como “homem decente, de fé”, contrastando-o com adversários petistas, que acusou de terem “folha corrida”. André, por sua vez, chamou Ciro de “inteligente” e “corajoso”, vendo nele um trunfo para derrotar o governador Elmano de Freitas (PT) em 2026. Mas o que une esses antigos inimigos? A resposta está no desespero para tirar o PT do poder no Ceará, onde Camilo Santana e Elmano consolidaram uma hegemonia de duas décadas.
Ciro mantém a artilharia contra Lula, chamando o governo de “decepção” e criticando, por exemplo, a troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz no Ministério da Previdência, que envolveu denúncias de fraudes de R$ 6 bilhões no INSS. No Ceará, o racha com seu irmão Cid Gomes, agora aliado do PT no PSB, enfraqueceu o PDT, que perdeu nomes como Roberto Cláudio para o União Brasil.
Ciro, que já negou publicamente candidaturas (Diário do Nordeste, 29/05/2025), admite nos bastidores disputar o governo estadual se for o nome mais competitivo contra Elmano de Freitas (PT). Sua aproximação com PL e União Brasil, inimigos de outrora, sugere pragmatismo ou oportunismo? O eleitor conservador, que valoriza coerência, se pergunta: Ciro é confiável? Sua história de rompimentos — com o PT em 2018, com Cid em 2022 — e o flerte com a direita levantam dúvidas. No meio político, sua movimentação é vista com ceticismo: aliados do PDT temem uma debandada, e o PT o acusa de trair o trabalhismo de Brizola.
Para a sociedade civil, Ciro é um enigma. Sua experiência como gestor e discurso articulado atraem, mas a falta de consistência ideológica frustra. Uma pesquisa Atlas dá a ele apenas 7,4% em um cenário sem Lula, longe de Tarcísio de Freitas (35%). Ciro, com sua “faca nos dentes” contra o PT, pode unir oposições no Ceará, mas sua credibilidade depende de clareza: é oposição genuína ou apenas um camaleão político? Ciro mexe com as estruturas porque é imprevisível. Sua guinada à direita pode atrair eleitores desiludidos com Lula e Bolsonaro, mas sua aceitação é limitada por um histórico de vaidades. Ciro pode ser um risco, capaz de governar bem, mas incapaz de se manter fiel a uma causa.
A aliança choca porque Ciro rompeu com o PT em 2022, brigou com seu irmão Cid Gomes (PSB), que apoia Lula, e viu o PDT desmoronar, perdendo 62 prefeituras no Ceará desde 2020 e por estreitar relacionamento com André e Alcides, figuras do bolsonarismo puro-sangue que representam uma direita evangélica e conservadora que Ciro antes criticava.
No meio político, a manobra é vista com ceticismo: o PDT teme a expulsão de Ciro, e o PL, em Brasília, resiste, com Bolsonaro incomodado pela aproximação. Para o eleitor, a dúvida é clara: Ciro é um estrategista ou um oportunista? Sua experiência pode unir a oposição, mas sua guinada à direita convence? Em 2026, o Ceará decidirá se essa aliança é salvação ou traição. Fiquemos atentos, pois o tabuleiro está pegando fogo.