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Eleição não basta ser honesta, tem que parecer honesta.

Eleição

Está frase não foi dita sobre uma eleição. Aproveitei a profundidade do pensamento, porque trata-se da mesma coisa.

Quem não conhece a história, vou tentar resumir. A mulher de César estava em uma festa só de mulheres e um tarado se disfarçou de mulher para entrar de penetra mas foi descoberto pela mãe de César antes de conseguir participar da festa. Um opositor espalhou o boato e César simplesmente se divorciou da mulher, sem que nada tivesse acontecido para isso.

Chamado a depor no senado César disse que não tinha absolutamente nada nem prova de nada que comprometesse sua mulher. Então perguntaram a ele porque estava se divorciando da mulher, e ele disse “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”. E essa frase deu origem ao ditado que parafraseei no título: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta“.

Justiça, seja ela qual for, tem compromisso com a publicidade e transparência. Sem a existência de uma justiça honesta o próprio princípio da honestidade perde o sentido.

Não é de 2020 a primeira reclamação ou suspeita da confiabilidade e honestidade das eleições eletrônicas. Até hoje me convenço cada vez mais de que a única coisa honesta para a qual elas realmente servem é dar resultados mais rápidos. Já para possíveis utilizações desonestas parece que urnas eletrônicas são capazes de oferecer muitos benefícios, até mesmo uma eleição.

Se já havia muita desconfiança antes das eleições americanas, depois delas, as suspeitas aumentaram muito, não bastando o contágio psicológico do evento, mas também o fato de possíveis fraudes terem sido cometidas em urnas eletrônicas que têm as digitais da mesma Smartimatic que há cerca de duas décadas frequenta nossas eleições e nossas suspeitas.

Nessa eleição o TSE deu duas demonstrações gravíssimas para alimentar nossas suspeições e preocupações. Primeiro, o próprio TSE ter sido hackeado. Segundo, se o TSE não é capaz de impedir acesso ao seu próprio sistema, como pode continuar garantindo a inviolabilidade das urnas eletrônicas?

O voto impresso ainda parece o processo mais seguro e verdadeiramente auditável. Testar o funcionamento de uma urna eletrônica não dá garantia alguma de que ela não é violável. Seria o mesmo que o simples fato de ligar um carro garantisse que ele não vai sofrer nenhum acidente.

A eleição tem que ser honesta. Não podem haver suspeitas, dúvidas, falhas grosseiras, deslizes. E não adianta vir com boca de veludo dar explicações que explicam, mas não apagam a má impressão. Não dá para explicar o fracasso do investimento de 2 bilhões de reais do contribuinte para que o sistema falhasse no único momento para o qual ele existe.

O que foi observar o ministro Barroso nas eleições americanas? Antes disso, como se define observar? O que ele observa que eu ou você não observaríamos? Que tipo de prerrogativa poderia ter tido um observador brasileiro na eleição americana se nem mesmo os observadores republicanos tiveram acesso às apurações? Tem que acabar com essa babaquisse de gastar dinheiro, fazer turismo eleitoral na pandemia, pra ver americano com a barriga encostada na urna eletrônica.

E se a eleição já não nos parece honesta com urnas eletrônicas, após as eleições americanas e a falha no TSE isso toma ar mais grave, e piora ainda mais quando o presidente do TSE que não conseguiu conter ataque hacker em seus sistemas anuncia que na próxima eleição poderemos votar por telefone.

Continuamos assistindo o poste mijar no cachorro. E esse é o nosso novo normal. Afinal, o que tem de errado no poste mijar no cachorro? Não tem nada. A gente se acostumou que isso é o normal.

Votar errado seria menos grave se os eleitores tivessem o habito de monitorar e cobrar daqueles que receberam seus votos. Mas como não funciona assim, vemos tantos escândalos que a palavra escândalo não escnadaliza mais ninguém.

Tem muita coisa errada que não está certa na justiça eleitoral, e eu, particularmente, sou contra até mesmo a existência de justiça eleitoral, como também da justiça trabalhista. Penso que justiça é justiça. E ponto.

Eleição é coisa muito séria. Quando o cidadão não acredita mais no seu voto, ele parte para desacreditar do mais importante pilar social, que é a justiça. E, convenhamos, ela não tem parecido honesta, ainda que possa ser.

História da mulher de César

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Eleição sem candidato é golpe. O povo brasileiro merece mais respeito.

Estamos há 5 meses da eleição que vai definir o futuro imediato do Brasil, quiçá pelo menos os próximos 20 anos, e as apostas das pessoas ainda estão presas a critérios imprecisos sobre suas escolhas, inclusive os que já tem seus votos definidos. Muitos decidem pendendo pelo fanatismo, outros pelo desprezo, e uma imensa maioria pela incapacidade de compreender a realidade que a cerca.

Tudo o que a política nos oferece, no momento, está contaminado pelo radicalismo. A escolhas se dão por exclusão e não por preferências concretas. Vota-se naquilo que é oposto ao que não se quer, sem uma análise mais detalhada para decidir pela melhor decisão coletiva. E aqui a crítica vai ao processo e não apenas para as pessoas. O embate político não permite e tem exatamente essa função.

O que é melhor para o Brasil, afinal? Esta é a questão a ser respondida na eleição em outubro. E não vai adiantar apenas ficar choramingando que continuarão sendo as famosas urnas eletrônicas smartmatic, e que não terá voto impresso em todas elas, porque quando chegar a data, todo mundo vai lá e vai votar e sair xingando. O momento de protestar seriamente sobre isso já está até minguando.

Penso que, hoje, o TSE já seria capaz de alegar, inclusive, que não há tempo hábil para colocar o voto impresso em todas as urnas; uma deixa que nós mesmos demos, só reclamando sem praticidade e objetividade, só no choramingo. Não estou desconsiderando o imenso colóquio que se impõe nas redes sociais, mas em termos de resultado esperado esse movimento não é prático e nem objetivo. Faz barulho? Faz, muito. Mas não interfere objetivamente, tanto que os ministros do STF, execrados nas redes sociais por qualquer um independentemente da opção política, continuam pouco se lixando para o povo, para as leis e para a própria Constituição Federal.

A polarização das diferenças não está permitindo chegar em consenso nem nas coisas que são consensuais. Vivemos uma crise de “amigo do meu amigo é meu amigo” e de “amigo do meu inimigo é meu inimigo”. Parece briga de rua, das antigas gangues rivais de bairros vizinhos. Só que eleição não é isso.

A profusão de candidatos que se apresenta, já vi números que variam de 16 a 23, é uma imensa covardia com a democracia. A subdivisão de tendências, correntes e candidaturas tem a função de não permitir um cenário de escolha segura na próxima eleição. Em um debate com 10 candidatos, no qual todos perguntam e todos respondem ao menos uma pergunta, ninguém será capaz de dar uma resposta que seja profundamente convincente, nem os que eventualmente tenham boas propostas.

A ridícula reforma política manteve absurdos sem a menor serventia à democracia. O fim das coligações foi empurrado para 2020, favorecendo claramente dezenas, se não centenas, de políticos que não teriam sido eleitos na última eleição e que não seriam eleitos na próxima sem esse critério.

SÓ 35 DOS 513 DEPUTADOS APENAS 35 SE ELEGERAM COM OS PRÓPRIOS VOTOS, 6,8%.  OS OUTROS 478 FORAM ELEITOS POR COLIGAÇÕES.

O tempo proporcional de televisão para propaganda eleitoral é outro escracho. Cabe aqui perguntar a quem serve a propaganda eleitoral, aos partidos ou aos eleitores, que encontrar nesse espaço uma exposição de candidatos que facilitasse sua escolha e não que impusesse uma tendência ou candidato específico. Temos que nos perguntar se é justo que um partido tenha mais tempo que outro para apresentar suas propostas, independentemente do tamanho da sua bancada. Toda eleição projeta para o futuro e não para o presente ou passado.

Vejam que a coisa é tão ilógica que quando se vai para a propaganda no segundo turno os tempos de televisão ficam iguais. Mas antes não. Ou seja, a maneira com que o tempo de televisão é distribuído no primeiro turno serve exatamente para tornar invisíveis quem não tem poder na mão. Isso é um escracho.

Eleição com até 23 candidatos à presidência da república, recheada de pseudo-candidatos que só estão ali para dividir o eleitorado e depois se reunir novamente no segundo turno, com a manutenção das coligações partidárias, com tempo proporcional de televisão absurdamente mal dividido, é uma eleição sem candidatos. Como se diz no futebol, estão jogando com a regra debaixo do braço. E como diria Michel Temer, “tem que manter isso, viu?”.

Eleição sem candidato é golpe, e seremos golpeados mais uma vez por um processo eleitoral viciado, com regras malfeitas e mal-intencionadas, capazes de levar ao Palácio do Planalto o melhor ou o pior para o país, porque não dá para saber o que é melhor ou é pior porque é impossível descontaminar os candidatos do tipo de radicalismo que representam.

Infelizmente, o momento só nos oferece nomes, mas não nos oferece candidatos. São todos postulantes, uns melhores outros piores, mas sem dar para dizer quem é melhor em que ou quem é pior em que, todos representam algum extremo de pensamento ideológico, econômico ou social, mas nenhum consegue congregar uma “caixa de ferramentas” que represente um caminho no qual se possa apostar com segurança.

O povo brasileiro foi condicionado, como os macacos da experiência da jaula que no fim tem um tipo de comportamento reativo a uma coisa que eles não viveram. Se você não conhece essa experiência, pode ver clicando aqui, vídeo de 2 minutos e 12 segundos. A teoria é reveladora sobre condicionamento e comportamento, ajuda a entender como somos e como agimos enquanto eleitores. Não vai ser difícil perceber o quanto não somos respeitados. Há anos fazem isso conosco.

Um bom sábado!

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