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Brasileiro não é patriota por essência. É, sim, um eterno apaixonado.

Brasileiro não é patriota por essência. É, sim, um eterno apaixonado.

Dizem que o brasileiro deveria ser estudado. E é difícil não concordar com essa frase, que já virou clichê, pois conseguimos ser únicos mesmo quando, necessariamente, deveríamos ser iguais a outros povos.

Mas, a despeito de todas as improbabilidades que nos unem, e de conseguirmos cumprir os preceitos básicos par nos considerarmos uma nação (Nação é a reunião de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, que falam o mesmo idioma e tem os mesmos costumes, formando assim, um povo), ainda não atingimos o grau de patriotismo (Patriotismo é o sentimento de orgulho, amor, devolução e devoção à pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino, brasão, riquezas naturais e patrimônios material e imaterial, dentre outros) e ao seu povo. É razão do amor dos que querem servir o seu país e ser solidários com os seus compatriotas), exceto quando a seleção brasileira entra em campo.

E por que isso?

Bem, eu não sou sociólogo ou antropólogo para que a minha opinião tenha validade científica ou assertividade comprovada. Sou um opinólogo e palpitólogo por natureza, ajudado pela formação em comunicação, administração, marketing e recursos humanos, e por um interesse natural pela observação da vida, das pessoas, do cotidiano. Tive a oportunidade de conhecer pouco mais de uma dezena de países, morar fora durante 4 anos, o que também colaborou muito para que eu conseguisse estabelecer comparativos diversos e criar minhas próprias teses sobre como funcionam outras sociedades. E penso que o próprio fato de ser brasileiro já me deu uma vantagem ao observar tudo o que vi. Mas é do povo brasileiro que quero falar.

Nunca tivemos, de fato, nada além da seleção brasileira e de Ayrton Senna para despertar o patriotismo na nossa sociedade. O Brasil sempre foi um país do futuro – que parece nunca chegar. Nunca tivemos que provar nosso patriotismo além de sentar em frente à TV para ver Senna ganhar uma corrida ou ver a seleção jogar.

Brasileiro - Pracinhas

Sem desmerecer os Pracinhas da Segunda Guerra, essa foi a tentativa mais próxima de despertar o orgulho pelo nosso país, mas que, mesmo assim, com a consciência do quão coadjuvante fomos numa guerra longa e de tantas consequências para a história da humanidade. E pior do que isso, uma guerra longe de nós. Não teve uma bomba sequer, nem um estalinho, que pudesse nos dar a sensação de que fazíamos parte do que acontecia na Europa. Enquanto os aliados tomavam a França, a Alemanha e soltavam bombas atômicas no Japão, nós tomávamos Monte Castelo na Itália. Nem uniformes adequados ao inverno europeu nossos pracinhas tinham.

O povo brasileiro nunca passou por uma guerra. Nunca fomos vítimas de tufões, furacões, terremotos, tsunamis, vulcões, nada de proporções avassaladoras que nos permitisse sentir a fundo a necessidade de nos unirmos em torno de algo muito maior que nós.

As poucas guerras que vivemos foram internas e, dado o tamanho continental do nosso país, quem não fosse vizinho só ficava sabendo. Conhecemos a história da Guerra Farroupilha, da Revolução de 30, do golpe que implantou o estado novo, do contragolpe militar de 1964, mas nada disso foi perto de todos, ou afetou a todos materialmente ou emocionalmente. Sempre ficamos distantes de todos esses acontecimentos, afinal o mais próximo aconteceu 55 anos atrás.

A própria fome, que é um mal que nos afeta desde sempre, e em especial no nordeste, nunca chegou nem perto do Holodomor, que vitimou mais de 8 milhões de pessoas de fome na Ucrânia.

O brasileiro não vota em presidentes por nacionalismo ou patriotismo. O brasileiro se apaixona por políticos, e, com isso, abre mão de toda noção de realidade e bom senso para defender sua paixão, esquecendo-se que esses políticos existem para representar o povo, a nação, e não apenas a si mesmos.

Brasileiro - Getúlio Vargas

O povo era apaixonado por Getúlio Vargas, pai dos pobres, autor intelectual da CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas, que acabou dando um tiro no peito em 1954 pelas graves acusações de corrupção que seu governo sofria.

Brasileiro - JK - Juscelino Kubitschek

Com a morte de Getúlio assumiu seu vice, Café Filho, enquanto o povo já se apaixonava pelo mineiro Juscelino Kubitschek, que prometia desenvolver o Brasil 50 anos em apenas 5. Foi ele quem trouxe a indústria automobilística para o país, mas seu maior legado acabou sendo a construção de Brasília. Saiu do governo também acusado de corrupção, o que foi largamente usado pelo seu sucessor.

Jânio Quadros

Usando uma vassoura como símbolo de quem prometia limpar a corrupção do pais, Jânio Quadros mal esquentou a cadeira e renunciou ao cargo 8 meses depois alegando a existência de forças ocultas. A renúncia de Jânio Quadros provocou até suicídios, tristeza coletiva, inconformismo generalizado.

Brasileiro - Jango - João Goulart

João Goulart, ou Jango, como era conhecido, era vice-presidente de Jânio Quadros e assumiu o poder quando este renunciou. Com ele, a esquerda assumiu o poder, e outra ala apaixonada do povo brasileiro se manifestou. Acusado de comunista e acuado pelos militares, Jango abandonou o poder e fugiu para o Uruguai.

José Sarney

José Sarney assumiu em função da morte de Tancredo Neves, último presidente do Brasil eleito pelo Congresso Nacional. Mesmo considerado um dos piores presidentes da nossa história, Sarney teve seus dias de glória quando decretou o congelamento de preços. Mas seu governo foi um dos maiores fracassos de república, o que abriu a brecha necessária para que o povo brasileiro mais uma vez se apaixonasse.

Brasileiro - Fernando Collor

Autodenominado “caçador de marajás”, Fernando Collor foi eleito numa disputa com Lula, despertando paixões em todos os cantos do país. Suas caminhadas aos domingos era acompanhada de centenas de pessoas. Porém, mais um governo recheado de corrupção. Sofreu impeachment 1 ano e 9 meses depois da posse. Deixou como legado a abertura econômica do país.

O sucessor de Collor foi Itamar Franco, que era seu vice-presidente. Um presidente que não despertou paixões, apesar de ser popular e ter deixado como legado o Plano Real, até hoje o grande responsável por tirar o Brasil de uma inflação de 80% ao mês e dar a estabilidade da moeda, antes impossível. Mas se Itamar não despertou paixões, foi de certa forma ele o responsável pela eleição de seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, então Ministro da Fazendo e principal ator da criação do Plano Real.

Fernando Henrique

Se Fernando Henrique Cardoso não era o presidente mais popular dos populares, quem gostava dele era apaixonado. Não à toa ele derrotou Lula duas vezes, ambas no primeiro turno.

Brasileiro - Lula

Chegamos então em Lula, que dispensa mais explicações. Um fenômeno eleitoral cuja paixão do povo só pode ser comparada aos tempos de Getúlio Vargas. Paixão cega que perdura até hoje, quase 10 anos depois de sair do governo.

Dilma

A paixão do povo por Lula é tão ensandecida que graças a ela Dilma Rousseff, uma mera desconhecida, foi eleita e reeleita até sofrer impechment em 2015, após detonar a economia brasileira, fazendo o país retroceder mais de 10 anos em suas conquistas e estabilidade.

Dilma foi, então, sucedida por Michel Temer, seu vice-presidente nos 2 mandatos, que por mais que se esforçasse era incapaz de despertar paixões.

O povo brasileiro nunca passou por uma guerra. Nunca fomos vítimas de tufões, furacões, terremotos, tsunamis, vulcões, nada de proporções avassaladoras

Chegamos então em Jair Bolsonaro, um deputado federal do chamado baixo clero da Câmara dos Deputados, que nunca tinha feito nada de significativo, exceto combater ferozmente a esquerda com discursos inflamados e acusações duras.

O povo brasileiro, porém, cansado de tanta corrupção promovida nos anos FHC, Lula e Dilma, se apaixonou por Jair Bolsonaro, e o elegeu presidente do Brasil com 57 milhões de votos, número que não foi conseguido nem por Lula no auge de sua popularidade.

Encampando um duro discurso anticorrupção, e se valendo da popularidade da Operação Lava Jato e do, então, juiz Sérgio Moro, Jair Bolsonaro, já no primeiro turno, deu mostras de que seu oponente, o fraquíssimo Fernando Haddad, representante do legado de corrução deixado pela esquerda em todos os cantos do país, não teria chance de virar o placar no segundo turno.

Outra questão importante foi o atentado sofrido por Bolsonaro ainda antes do primeiro turno, que fez aumentar sua popularidade e a consequente onda de paixão avassaladora por ele.

O que penso, de fato, é que ainda não escolhemos um presidente pela sua capacidade de realização. Os principais ocupantes do cargo mais importante da nação foram eleitos pela emoção, e não pela razão, mesmo quando esta permeia a escolha.

Nos dias de hoje, não se pode criticar Jair Bolsonaro. Como não se podia criticar Lula ou Fernando Henrique, Jango ou Jânio, JK ou Getúlio Vargas, pelo simples fato de que não se tratava de presidentes, mas das paixões que o povo brasileiro nutriu por eles, e que nutre agora por Jair Bolsonaro.

Enquanto o povo brasileiro não conseguir eleger um presidente com a razão acima da emoção, a guerra ideológica ou partidária não acabará nunca, a instituição presidência da república não terá na república o peso que deve, o Congresso Nacional não terá pelo povo o respeito que deveria ter, e o Supremo Tribunal Federal terá a cara daqueles que, ao longo de seus mandatos, tiveram a chance de colocá-los lá.

Patriotismo não tem nada a ver com paixão. Tem a ver com pátria. E ainda espero um dia, apesar dos meus 55 anos, poder ver um povo brasileiro eternamente patriota, pois só isso constrói uma nação.

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HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.