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Não será com a bunda no sofá

Não será com a bunda no sofá

Ninguém disse que seria fácil.

Ninguém falou que não teria resistência, que não haveria uma oposição ferina, que não seria muito tumultuado. E como está tumultuado! Até o silêncio é usado para causar tumulto. Sabíamos, inclusive, que a justiça seria um oponente duro. Mas não havia previsão de que para essa dureza valeria jogar sujo, ou mais sujo ainda.

Como jogar com alguém que joga sujo se esse alguém tem poder suficiente para que o jogo sujo só seja eficaz a favor dele? Em outras palavras, como encarar os desmandos do Supremo Tribunal Federal sem a mínima chance de êxito já que o único poder – que tem poder – para enfrentar os senhores ministros é o Senado Federal, cuja metade dos senadores está devidamente acomodada nos escaninhos desses mesmos ministros.

Durante a pandemia, o STF, em nome da própria pandemia, soltou 32.500 bandidos para que os pobres coitados não fossem contaminados pelo flango flito. Para onde foram esses bandidos? Qual a chance remota de conseguir levar de volta para a cadeia pelo menos 5% desse contingente? Por que soltaram? Por que soltaram diversos líderes de facções? Qual o propósito de ter essas pessoas soltas?

Também em nome da pandemia, o mesmo STF proibiu operações policiais nas favelas e comunidades do Rio de Janeiro, inclusive sobrevoos de helicópteros da polícia sobre esses locais. E só podem subir ou sobrevoar morro com autorização judicial. Em nome de que? O que, de verdade, está sendo preservado nisso tudo? Ou o que está sendo omitido, quem sabe?

Eu gastaria milhares de caracteres para falar de ações ilegais, imorais, antiéticas, inadequadas, suspeitas, partidárias, e até criminosas praticadas no e pelo judiciário brasileiro. Mas não diria nada que muita gente já não saiba. Não levantaria uma dúvida que muitos já não tivessem levantado. Porém, não paro de procurar a combinação certa de palavras que podem motivar as pessoas a saírem da letargia que as impede de reagir em nome do próprio futuro.

Convivemos com escândalos inomináveis desde a redemocratização do país. A corrupção ocupou todos os espaços da máquina pública chegando ao ápice nos governos petistas. A palavra escândalo conseguiu perder o glamour e a força que tinha quando era usada para uma revelação bombástica. São décadas convivendo, passivamente, com escândalos todos os dias, momentos em que estavam envolvidos do mais alto ao mais baixo cargo no setor público. De propina em construções faraônicas á propinas em lanchonete da Câmara dos Deputados.

Nos últimos anos vimos de dinheiro escondido em apartamentos alugados apenas para esse fim até enfiado no fiofó de um senador da república. Vejam bem, um senador da república.

Temos ministros do STF que libertam amigos, outros que libertam ex-chefes, outros que libertam qualquer bandido, outros especializados em bandidos do PCC, outros em bandidos de colarinho branco, tudo isso regado à lagostas e vinhos com no mínimo quatro premiações internacionais. E gente há anos na fila do STF para conseguir autorização para aquisição de remédios, gente que morre sem o remédio, sem receber o precatório, ou um direito de herança, gente que simplesmente morre, sem foro privilegiado.

Somos uma panela de pressão de válvula frouxa. O calor é suficiente para gerar a pressão, mas ninguém tem a menor intenção de arrumar a válvula. Não há alguém que se habilite, ou que indique o caminho ou que aponte alguém minimamente habilitado para isso. E sem liderança não chegaremos aonde queremos e precisamos para sair desse limbo social no qual nos metemos.

Talvez as redes sociais sejam a válvula frouxa que nos impede de chegar à pressão necessária para gerar ação. A constante expressão de indignação funciona como a fumaça que escapa pela válvula frouxa. A gente vê a fumaça sair e se contenta com isso. E ação nenhum é gerada.

O julgamento da possibilidade de reeleição de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre foi uma vitória com gosto de derrota, quando 5 ministros, meia corte, fez vista grossa para uma reinterpretação grosseira de algo que não dá para ser reinterpretado. O voto de Gilmar Mendes foi uma das chicanas mais grosseiras que vi no STF nos últimos 10 anos, e olha que já vi coisas grosseiras. Fez do fatiamento do impeachment da Dilma erro de estagiário.

Os outros 6 ministros, de seus lados, não votaram apenas para guardar o texto constitucional, mas agiram em socorro da Constituição Federal, agiram para impedir um dos maiores vexames do STF e também para afrontar o que parece ser um grupo de amotinados contra a lei e a ordem, gente que flerta permanentemente com o autoritarismo, quando não o pratica deliberadamente.

A sociedade brasileira tem que, desde já, 2020 ainda, se organizar para enfrentar o que fará café pequeno desses poucos episódios que citei. O movimento não é apenas no Brasil, é no mundo inteiro. O conservadorismo está sob ataque cerrado em todos os cantos, ao mesmo tempo que os progressistas se aproveitam da pandemia de flango flito para estabelecer suas agendas.

Só um movimento coordenado e organizado será capaz de deter isso. O Brasil é um país de maioria conservadora, capaz de fazer o enfrentamento necessário. Falta coragem, organização, e tirar a bunda do sofá.

Publicado originalmente na Pingback em 7/12/2020 – Não será com a bunda no sofá

HS Naddeo

Brasileiro escrivinhador de ofício, palpiteiro, cheio de opinião, jornalista, publicitário, administrador, marketeiro, anti-petista, anti-corrupção e anti-burrice.

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